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Dilemas da educação e do trabalho

Ana Paula Fernandes da Silva

Pedagoga e pós-graduada em Psicopedagogia

Dentro da História e principalmente após o advento do capitalismo, o trabalho perde a ideia fundamental de relação social com o mundo que o cerca, com o modo humano de existência, e assume dimensão de força, poder, violência, em que a característica essencial é desenvolver forças produtivas, aperfeiçoando a técnica e a tecnologia em função do lucro e do mercado.

Nessa perspectiva histórica do capitalismo e de nossa sociedade atual, vemos, por parte das empresas, investimentos na construção de mais fábricas, em pesquisas tecnológicas, supervisão, direção, planejamento, com a finalidade de obter a adesão do trabalhador aos objetivos da empresa, ampliando-se para além da produção, estendendo-se ao setor de circulação e fazendo com que apareçam inúmeras profissões, subdividindo as especializações e levando ao desaparecimento de algumas outras profissões.

Essas relações fazem parte da organização do trabalho na perspectiva do capitalismo, na qual estamos inseridos e que determina maior ou menor número de oportunidades de emprego para determinadas profissões e locais.

A política salarial do governo e o movimento da produção e do mercado comandam também essas ofertas de cursos e vagas nas escolas, intervindo no aumento e na diminuição da taxa de desemprego e nas flutuações do mercado internacional, assim como afetando as relações de produção e as relações comerciais internas de cada país. Tais relações afetadas por essas flutuações refletem na inflação, na política de desemprego, na política salarial e na vida social como um todo.

Dentro desse contexto, a educação deveria então aparecer como meio de promover a democratização do saber sobre o trabalho, proporcionando a constituição de um posicionamento crítico sobre as relações do meio ambiente, do físico, do cultural, do social e do político.

Deveria preocupar-se com a existência, com os saberes acumulados no trabalho e na vida – diferentemente do que o sistema prioriza, que é o ato mecânico de transferir apenas conceitos, pois sabemos que a educação tem como fundamento tornar possível uma apropriação mais significativa e profunda desses conceitos, na medida em que socializa os saberes.

Na década de 1970, a educação como direito e formação humana deu lugar à educação com concepção de mercadoria e “capital humano”; e permanece assim até os dias atuais.

A teoria de capital humano veio como consolidação de uma ideia de educação como mobilidade social e econômica, sendo, porém, um vetor de desenvolvimento e de ascensão do trabalhador que tivesse educação, treinamento e saúde.

Nessa concepção de educação, o que se pode observar é que se espera que os países que combinem rendimento escolar com crescimento econômico se tornem ricos. Assim, a educação passaria a ser a grande formadora de capital humano para os indivíduos.

Porém, o que pudemos ver ao longo dos anos foi que a expansão das oportunidades educacionais não diminuiu as diferenças socioeconômicas; pelo contrário, marcou ainda mais as relações de poder existentes. Segundo a visão de Frigotto (1984), os que são de uma classe economicamente melhor podem se formar em centros de excelência, enquanto os mais desprovidos economicamente estariam nos centros regulares de educação, desmentindo mais uma vez que o conceito de capital humano é para todos.

A educação é mais que escola para todos, mais que simplesmente escolarização e instrução; é, sim, formação de indivíduos, cidadãos que possam se constituir na sua realidade para então modificá-la, ocorrendo verdadeiras qualificações, sendo direito e não mais uma mercadoria.

Partindo dessas reflexões sobre trabalho e educação, é possível perceber a orientação profissional como forma de desenvolver, nos indivíduos, uma imagem de si mesmos e do mundo do trabalho.

É uma busca da mediação entre o indivíduo e as relações políticas, econômicas, sociais, educacionais, familiares e psicológicas nas quais ele está inserido, atualizando-o de forma satisfatória e orientando seu caminho nessa nova jornada, conjugando o mundo e a realidade de forma que, dentro dessa sociedade, ele possa ter oportunidade de partir para o mundo do trabalho não só vendo-o como necessidade imperativa, mas como escolha, liberdade, através de critérios, necessidades e principalmente possibilidades de cada um; usando estratégias alternativas para o acesso a informações profissionais e ocupacionais; isso facilitará a inserção do jovem no mercado de trabalho e no planejamento de um projeto de vida.

Referências

BRUGTON LABOR PROCESS GROUP. O processo de trabalho capitalista. In: SILVA, T. T. D. (Org.). Trabalho, educação e pratica social: por uma teoria da formação humana. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

FRIGOTTO, G. A produtividade da escola improdutiva. São Paulo: Cortez, 1984.

JAMESON, Fredric. Pós-modernismo. A lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1996.

MAHL, A. C., SOARES, D. H. P. & OLIVEIRA NETO, E. (Orgs.). POPI - Programa de Orientação Profissional Intensivo: outra forma de fazer Orientação Profissional. São Paulo: Vetor, 2005.

RAMOS, M. N. A pedagogia das competências: autonomia ou adaptação? São Paulo: Cortez, 2001.

SCHULTZ, W. T. O capital humano. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.

Publicado em 11 de março de 2008.

Publicado em 11 de março de 2008