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Saramago e os objetos desconfiados

Luis Estrela de Matos

Escritor, ensaísta e professor universitário

Saramago é um nome. Saramago é uma teimosia. Uma escrita que não desiste de seu escritor. Há que viver. Há que ser teimoso. “Se tens de escrever, escreverás”, afirmou, recentemente, o Prêmio Nobel de Literatura de 1998, José Saramago. Se tens de imaginar, imaginarás, meu novo leitor. O que é a matéria de uma narrativa? Do que ela é feita? O que é um assunto? O quanto pode a imaginação?

Saramago caminhava para defunto. Continuou autor.

Compromisso com a vida? A literatura compromissou-o. Entre romances, ensaios e poesia, totalizam-se 44 obras. Somamos 86 anos de estradas, poeira e as inevitáveis pedras, sempre tão necessárias. Há que topar com. Sem sangue e ferida não há infância. Sem infância não há vida madura. Sem infância é Freud e divã na certa.

E por falar em estradas, um elefante coloca-se a caminho. Um rei de Portugal, D. João III, resolve presentear um arquiduque austríaco, Maximiliano II. O paquiderme, batizado Salomão, irá fazer um longo percurso pelos caminhos da velha Europa do século XVI. Mais uma vez Saramago, apostando alto na ironia, no seu típico humor. Não duvide, meu atento leitor: um imenso paquiderme asiático, com seu famoso vagar, irá percorrer as 264 páginas do novo livro de Saramago, A viagem do elefante.

A odisseia desse elefante está repleta de personagens; algumas delas são figuras históricas veridicamente verdadeiras, outras são anônimas criações ficcionais. Citando: “estas são pessoas que os membros desta caravana encontram na sua viagem, e com quem partilham perplexidades, esforços e a harmoniosa alegria de um telhado sobre as suas cabeças”. Caravana e telhado, no mínimo algo curioso. O móvel e o imóvel no mesmo cenário. Cenário, o que se move?

A história parte de um acontecimento verídico, mas a real escassez de detalhes históricos sobre o que realmente aconteceu durante essa quase improvável viagem pan-europeia obrigou Saramago a exercitar a sua habitual imaginação. Este trabalho é uma reflexão sobre sentimentos de “solidariedade compassiva”, anotou Saramago num e-mail a partir de sua casa em uma ilha oriental das Canárias (Lanzarote).O autor confessa que houve momentos, durante os meses em que padeceu de grave doença respiratória, de quase desistência. O texto pediu para ser finalizado. Há que obedecer a ele. E Saramago não brinca em serviço. Detestável mesmo é aquele tipo de comportamento de ficar perguntando a um Prêmio Nobel se é a sua última obra. Parece-me algo como: quando o senhor irá morrer? Há que ser polido nas perguntas. Há que polir a vida, diariamente, para não nos tornarmos mais um número nesta grande estatística que se tornou a vida contemporânea. Eu sei, meu leitor, eu sei... Precisamos retornar. Retornemos:

“Esta história, prefiro chamar-lhe história em vez de novela, é o que sempre achei que viria a ser. A minha doença não alterou nada” afirma Saramago. No entanto, paradoxalmente acrescenta: “os anos não passam em vão. Não foi um passeio no jardim. Algo do que vivi terá passado para o que escrevi. Mas, de qualquer forma, os elementos essenciais da história não mudaram”, acrescenta ter-se sentido feliz e aliviado por ter concluído seu trabalho. “Escrevi meus três últimos livros no mais deplorável estado de saúde, que não é de todo o mais favorável para ideias felizes. Prefiro dizer: se tens que escrever, escreverás.” Se tens que ler, tu lerás, meu precioso leitor.

Entre acontecimentos acontecidos e acontecimentos imaginados, o autor direciona e despista o futuro leitor. “A história é sobre este absurdo de levar um elefante a atravessar metade da Europa”, afirma Saramago. E, nessa viagem, Kafka, Pirandello, Ionesco e Fellini. Outros elefantes irão surgir durante a travessia de Salomão. O bom leitor, sabendo que os dados históricos sobre a viagem eram pouquíssimos, confiará na invenção saramagueana. Inventar e imaginar atravessam as páginas do livro. E tudo por causa de um restaurante, em Salzburgo (Áustria), chamado O elefante, visitado 10 anos atrás pelo criador do paquiderme Salomão. O que são 10 anos para a literatura? Saramago continua decidido: “Se me vier uma ideia bem convincente, haverá outro livro”. Curioso, não acha? O processo criativo acontece de maneira muito própria na vida de um escritor. Embora não adepto da palavra inspiração, o autor fala em “pensamento superficial” e “pensamento subterrâneo”. No mínimo, aqui, intuímos camadas de experiência criativa. Coisas sem valor, fatos históricos, desatenções, onde o núcleo germinativo da arte?

E por último, meu fatigado, porém amigo, leitor, se abusei das perguntas neste texto, é porque acredito que tu nunca mais lerás o Saramago como vinhas lendo. Desconfie, duvide; e se lhe disserem que uma girafa é uma ideia convincente, e por isso real, aproxime-se de sua janela... Quem sabe?

Até...

Publicado em 6 de janeiro de 2009

Publicado em 06 de janeiro de 2009