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Há um Adamastor em Luis Maffei

Raquel Menezes

Diálogos Poéticos

Quem dirá? Futebol e Camões dividindo o mesmo texto. Luis Maffei já o disse em pelo menos três de seus poemas. O poeta cuja estreia se dá em 2005, com o livro intitulado A, versa imagens dissonantes e também dedicatórias, além de dialogar com as artes, seja com o cinema de Derek Jarman, a música de Piazzolla ou ainda a pintura de Francisco de Goya. Luis Maffei, autor do humanamente desenhado A, lançou em 2008 seu Telefunken.

Sobre o livro de estreia, afirma o também poeta Eucanãa Ferraz um diálogo que se faz “diretamente com a moderna poesia portuguesa. Não por acaso, alguns poemas citam nomes de Gastão Cruz, Adília Lopes, Herberto Helder (...)” (2006). Mas não só com a moderna poesia portuguesa dialoga Luis; há em um ou outro poema conversas com o poeta quinhentista Luis de Camões.

Esses diálogos se dão principalmente relacionados ao futebol. Exemplo desses (intrigantes futebolístico-literários) colóquios poéticos é o poema “Copa do Mundo 2002 – Epílogo (Rio Branco, 2 de julho)”. Os versos iniciais desse poema, “Ulisses/cicatrizado/é mais um corpo a escutar”, invocam Homero, como se “Copa do Mundo 2002” fosse uma epopeia, assim como a Odisseia ou a Ilíada. Em seguida, “em noite de sereias dóceis e cantos de acordar/crianças/(...)/o vencedor vê” (2006, p. 80), linhas que lembram os famosos versos da lírica camoniana “É servir a quem vence, o vencedor” (2005, p. 119). Ao final do poema de Luis, o Maffei, os versos “somos/ainda/assinalados pelo igual relevo/o mesmo selo/das peles do que regressa” evocam a proposição do épico camoniano, “as armas e os barões assinalados” (Lus I, 1, 1).

O poeta quinhentista, segundo Vilma Arêas acerca da proposição d’Os Lusíadas, “inclui-se nesse rol: ele [Camões] imortalizará os feitos da gente ilustre (fará uma ‘obra valerosa’) mediante um canto alentado por musas que condenarão as antigas Musas ao silêncio, na mesma medida em que a matéria cantada significa um ‘valor alto’” (1980, p. 170). O poeta contemporâneo, ao afirmar “somos” “assinalados”, também “inclui-se no rol”, imortaliza o que Jorge Fernandes da Silveira chama de “um time de onze títulos sobre futebol” (2007, p. 100), ou seja, dedica alguns poemas dessa série aos principais titulares da seleção de 2002.

Por dialogar com Camões, mais ainda por convocar Adamastor para sua poesia, está Luis neste texto a se propor a colocar em diálogo a personagem Adamastor, do canto V d´Os Lusíadas, com os poemas “Overlapping 3” e “Overlapping 5”. Esta interpretação se dá a partir do ensaio “Uma leitura do Adamastor”, de Cleonice Berardinelli, comentado por ela própria em entrevista a Jorge Fernandes da Silveira: “Gosto do meu Adamastor, com suas duas faces, a de antes e a de depois de Vasco da Gama – a que inspirava medos e a que causa compaixão” (Revista Pequena Morte, 2007).

(Agora) O Adamastor de Camões

O Adamastor é mais que um ser mitológico,
preexistente ao poema: é o mito, que
se manifesta através da criação artística,
no nível da enunciação.

Cleonice Berardinelli

Adamastor cruel!... De teus furores
Quantas vezes me lembro horrorizado!
Ó monstro! Quantas vezes tens tragado
Do soberbo Oriente dos domadores!

Bocage

A esquadra de Vasco da Gama, “cortando/[o]s mares nunca outrem navegados” (Lus, V, 37, 2-3), depara-se com “[u]ma nuvem que os ares escurece” (Lus, V, 37, 7), que amedronta os “corações” dos bravos marinheiros. Desse modo, Luis de Camões, depois de poetizar a lenda do mito de Inês de Castro – que depois de morta foi rainha – e apresentar o Velho do Restelo – ou melhor, suas impressões acerca das viagens marítimas –, introduz Adamastor. E descreve o “monstro horrendo”:

Não acabava, quando uma figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandissíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos. (Lus,V, 39)

Adamastor é um gigante baseado na mitologia greco-romana. No épico lusitano, representa as forças da natureza contra Vasco da Gama, ameaçando os que tentavam dobrar o Cabo da Boa Esperança e, assim, chegar ao Oceano Índico. Esse cabo está, geograficamente, no meio, entre, assim como Portugal. No poema, a respresentação do cabo, o gigante Adamastor, também está na metade, pois a sua apresentação, “[e]u sou aquele oculto e grande cabo” (Lus V, 50, 1), está no canto V (o épico tem 10), na estrofe 50 (o canto tem 100 estrofes). Não é por acaso que “o grande cabo” está nesse ponto equidistante, visto que representa a passagem para o Oriente, que, no épico, figura o encontro com o desconhecido; nas palavras de Cleonice Berardinelli: “no cabo se refugiavam os medos perseguidos pelas naus, mas conservados no fundo de cada um dos que partiam ou ficavam. E esses medos assumiram, dentro da tempestade, forma sobre-humana grande bastante para se opor à passagem dos navegantes” (1973, p. 75).

Como já foi dito, o “monstro horrendo” está no canto V, onde o verbo “ouvir” foi substituido pelo verbo “ver”. Assim, enquanto no canto IV ouvia-se o Velho do Restelo, no seguinte vê-se, “claramente visto, o lume vivo” (Lus V, 18, 1), por exemplo. Essa substituição viabiliza a passagem pelo Tormentório, pois, depois do medo ao ver o mostro de “boca negra” e “dentes amarelos”, que anuncia “duros” “casos” “futuros”, como "Naufrágios, perdições de toda sorte”, Vasco da Gama pergunta: “Quem és tu? Que esse estupendo/Corpo, certo, me tem maravilhado!” (Lus V, 49, 3-4). Diante dessa interrogação quanto ao “corpo” e não quanto à voz, ou seja, quanto ao que se ve e não ao que se ouve, o gigante conta a Vasco da Gama a história do seu amor infeliz, um amor por uma ninfa. Nas palavras de Helder Macedo, “as forças obscuras em Adamastor (...) conhecidas, ou tornadas conscientes, logo ficam neutralizadas ou podem mesmo passar a servir quem dantes ameaçavam” (1980, p. 52), ou seja, ao saber do infortúnio do gigante, o herói português vê-se diante de um Adamastor fraco, que não tinha mais segredos. O gigante não morreu, mas depois de contar seus desenganos “co`um medonho choro”, “desfez-se”, e assim só se ouve o mar “bramindo”, da mesma forma como quando esse desafio aos navegantes começou.

(Enfim) O Adamastor de Maffei

Luis Maffei entra em campo agora, com seu Adamastor “de antes (...) de Vasco da Gama”, no poema “Overlapping 3”:

eu lhe diria: quem és tu?
que estas armas me têm maravilhado de
estupendas.
e ele, certo de pena e braçadeira,
ele
do ocidente capitão de maura lança
ele em silêncio:
“eu sou este notável
e grande ponta, da lança em obra
nunca feita gêmea, sou
de quem falas, sou aquele quando
o luxo nada mais é
que
alimento”:
sei:
Zinedine Zidane
ou
eu lhe dizendo quem ele é
que estas formas me têm, maravilhado,
de pertença.
e o ar
dos sintomas sombra em azul hereditário
o ar em silêncio:
eu sou este, tremido
quando falo, sou decerto quando
o luxo nada mais é
que
evidência (2006, p. 86, 87).

Para um leitor d`Os Lusíadas é muito fácil localizar Camões, ou melhor, o “episódio” do Adamastor, afinal está no primeiro verso, depois dos dois pontos, a pergunta de Vasco da Gama, “quem és tu?”, ao “oculto e grande cabo”(Lus V, 50, 1).

No épico camoniano, Adamastor responde a essa questão: “Eu sou aquele oculto e grande cabo/A quem chamais vós outros Tormentório”, enquanto no poema de Luis Adamastor (logo farei as devidas associações) fica “em silêncio”. Assim, o que acaba com o gigante camoniano é o discurso que pretendia, segundo Antônio Saraiva, em uma de suas críticas ao épico, “ser ameaçador e terrível, e acaba por se tornar comovente e deplorável no choro disforme com que lamente a irremediável falência de seu amor por Tétis” (1996, p. 332). No entanto, o “em silêncio” indica que o alegórico Vasco da Gama de Luis perguntava e respondia, pois conhecia o “grande ponta”. Isso fica mais claro na segunda estrofe, pois o verbo “saber” está conjugado em primeira pessoa do singular, assim como o “diria” do início do poema.

Ademais, ser o discurso o que leva o grande Adamastor a ser derrotado é uma das, entre tantas outras, passagens – como por exemplo a morte de Inês de Castro – em que o poeta épico mostra-se um humanista. Pois se Adamastor é vencido pelo discurso de Vasco da Gama e não pela sua espada, fica indicada a força da linguagem. Mais que isso, fica evidenciada também a não-intenção de fazer do capitão da nau lusitana um herói épico, mas sim um herói humano. Isso porque, além de não usar a lança, Vasco da Gama, diferentemente de Ulisses e de Aquiles, por exemplo, tem medo da morte, ensaia desistir da viagem marítima em nome da “desesperação e frio medo” (Lus, IV, 89).

Agora sim, as associações: Vasco da Gama está no poema de Luis Maffei, assim como no épico, fazendo a pergunta “quem és tu?” ao “capitão de maura lança” “Zinedine Zidane”. Este pode ser associado ao gigante Adamastor; biograficamente, por ser marselhês, filho de argelinos, logo, oriental, embora jogue na seleção francesa. Além disso, nas palavras de Jorge Fernandes da Silveira,

Luis dá o valor devido ao que torna o poema de leitura pouco conhecida e, portanto, útil e necessária hoje: o conhecimento do papel do piloto, o mouro, na condução da viagem, sim; mas, sobretudo, reconhecendo-lhe a importância de ser o porta-voz na intermediação da “mensagem” que hoje mais interessa no poema: pela força do diálogo a pergunta curiosa vence a lança furiosa (2007, p. 98).

Apresentado o primeiro Adamastor, vamos ao segundo poema de Luis a ser lido como sendo a segunda face do Adamastor. Essa associação é possível por este poema, feito na Copa feminina de futebol em homenagem à jogadora Marta, pertencer a uma série de poemas sobre jogadores de futebol, assim como o recém-comentado “Overlapping 3”.

Para Cleonice Berardinelli, o segundo Adamastor, depois de contar a Vasco da Gama sua desventura amorosa, mostra-se desvelado, despido de enigmas; “perde sua unidade aparente, passa a ser a imagem do povo que o decifra e que nela se projeta para nela se reconhecer” (1973, p. 80). Cito o poema de Luis intitulado “Overlapping 5”:

Não o prodígio não
a ventura não a torpe gana de amar e ser
ser amado.

Marta.

Que gotas são grande vida que princípios?
A velha budista a dizer-me
itinen sanzen
a mim
com dezoito anos disto na lojinha
da Liberdade,
a festa cumprida de alguma coisa
viva, viva, vária e feita por
um simples dia como este,
de gatas, cheiro a cera de chão e
Raquel por perto,
a passagem
sim
de uma manhã a veios de muitas sortes.

E Marta.
E Marta a espaço do prodígio, à
maravilha inconstante de amar e ser ser
amado:
uns princípios
mais
dessa grande
vida, uns silêncios da terra que é lugar de
perplexidade (2008, p. 55-56).
a 30 de setembro de 2007

A segunda face do gigante, “a de depois de Vasco da Gama”, pode ser lida na negação do “prodígio” e, em seguida, da “torpe gana de amar e ser/ser amado”. Entretanto, em “Overlapping 5” há a negação da necessidade de “amar e ser/ser amado” logo no início, enquanto n`Os Lusíadas somente depois do infortúnio o gigante aceita o dolo. Desse modo, prefere “os enganos do amor” à desilusão:

Ó Ninfa, a mais fermosa do Oceano,
Já que minha presença não te agrada,
Que te custava ter-me neste engano
Ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada? (Lus V, 57, 1-4).

O gigante prefere ser enganado, assim como o povo português. Segundo Cleonice Berardinelli, outras são as semelhanças entre o povo português e o gigante:

ambos são capitães do mar, ambos defendem com bravura o próprio solo, ambos sabem fazer a crua guerra, mas também são ambos sensíveis à beleza feminina, capazes de amar com extremos e contentar-se com enganos de amor (1973, p. 81).

Mais uma afinidade pode ser encontrada no poema de Luis, nos versos “terra que é lugar de/perplexidade”. Adamastor, antes um titã, “um dos filhos aspérrimos da terra” (Lus V, 51, 1), foi transformado em “terra dura”, castigo mimetizado por Maffei nos versos recém-citados, e Portugal, tal como o gigante, é “lugar de perplexidade”. Esse substantivo, derivado do adjetivo perplexo (cujos sinônimos são indeciso, hesitante, espantado), aproxima esses enganados. Afinal, ambas essas “terra”s, Adamastor e Portugal, espantam-se com a ousadia do homem em desbravar o mundo atrás de “terra infinita” (Lus IV, 100, 5), sob justificativa (falsa) de pelejar em nome de Cristo. Mas isso já é outro trabalho, que deve, obrigatoriamente, convidar o Velho do Restelo.

Referências bibliográficas

ARÊAS, V. Os lusíadas ou a navegação desventurosa. In: Revista Camoniana. São Paulo: Centro de Estudos Portugueses, 1980.
CAMÕES, L. Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro José da Costa Pimpão. Coimbra: Almedina, 2005.
___________. Os Lusíadas. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 1993.
BERARDINELLI, C. Estudos camonianos. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa/MEC, 1973.
BERARDINELLI, C. & SILVEIRA, J. F. “Uma senhora contemporânea do futuro: entrevista com Cleonice Berardinelli”. Revista Eletrônica Pequena Morte. nº 8. 2007. Disponível em: http://www.pequenamorte.com/2007/11/05/uma-senhora-contemporanea-do-futuro-entrevista-com-cleonice-berardinelli. Acesso em 25 de dezembro de 2008.
MACEDO, H. Camões e a viagem iniciática. Lisboa: Morais, 1980.
MAFFEI, L. A. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2006.
_________. Telefunken. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2008.
SARAIVA, A. J. & LOPES, O. História da literatura portuguesa. 17. ed. Porto: Porto, 1996.

SILVEIRA, J. F. Pra seu governo: O “Diálogo com Portugal” Hoje segundo Quatro Novos Poetas Brasileiros Leonardo Gandolfi, Luis Maffei, Mauricio Matos, Sérgio Nazar David. In: Cadernos de Literatura Comparada. Paisagens do eu: identidades em devir. Porto: Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2007.

Publicado em 24 de março de 2009

Publicado em 24 de março de 2009

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