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Tão longe e tão perto

Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia

Crônicas filosóficas

Quando Edward Lane e Gustav Flaubert visitaram o Egito no século XIX, foram tomados de um inquietante desconforto diante da percepção daquele exótico universo muçulmano. Para eles, o islã estava tomado pela “preponderância do sexo nas relações sociais” e padecia de uma licenciosidade sem freios. Naquele tempo, na metade do século retrasado, a Europa enxergava o mundo muçulmano como um lugar tomado pela violência e pela liberação sexual. Os europeus, mais recatados e reprimidos do que nos dias de hoje, possuídos por uma jovem e vigorosa moral burguesa que problematizava o sexo e o prazer, encontravam no islã o seu antípoda.

Essa é uma das grandes mitologias que nossos meio-irmãos europeus costumam contar: a mitologia de um grande armagedon que opõe oriente e ocidente. Muitos são os capítulos dessa narrativa, e ela parece uma obsessão ocidental. A guerra entre os aqueus (do Peloponeso) e os troianos (gregos da Turquia, vassalos do império hitita que dominava o planalto da Anatólia); a luta nas termópilas entre gregos e persas, os embates entre uma Roma helenizada e uma Cartago fenícia, o confronto dos cruzados cristãos pela libertação de Jerusalém do jugo mulçumano, a guerra da reconquista na Península Ibérica levando cristãos a se embater contra mouros, berberes e judeus; a heroica resistência dos cavaleiros hussardos no cerco que os turcos impuseram a Viena no século XVI, a luta pela libertação de Atenas, em 1820, do domínio desses mesmos turcos; o holocausto semita na Europa oriental; a perseguição a Osama Bin Laden (uma nova imagem para um velho anticristo muçulmano).

Esses são capítulos, partes de uma narrativa contada por Homero, Heródoto, Virgílio, Torquato Tasso e Camões. O Oriente Médio, com seus desertos e suas montanhas, está muito próximo da Europa (se compararmos com as civilizações da Índia, do Tibete ou do Extremo Oriente). Sua proximidade, no entanto, acabou paradoxalmente exigindo que os europeus se afastassem de tudo aquilo que o Oriente Médio representa. Para se manterem “europeus”, precisaram se distanciar dos outros. E o islã, com sua expansão ameaçadora, sempre atuou no imaginário dos povos europeus não apenas como um inimigo a ser batido, mas como uma sombra, uma incômoda e gaseificada influência, oposta a tudo aquilo que o ocidente e a Europa um dia poderiam representar.

Talvez por isso Dante, em sua Divina Comédia, tenha encontrado um lugarzinho todo especial para o profeta Maomé, junto ao próprio Satã, na nona vala do inferno, onde o fundador do islamismo era submetido, por toda a eternidade, a um castigo que se repetia ininterruptamente, condenado, a ser dividido eternamente do queixo ao reto como “se arrancam tábuas de um tonel”. Sir William Muir, um indiano colaborador da administração inglesa, publicou em 1851 um livro chamado A vida de Maomé, em que afirmou que “a espada de Maomé e o Alcorão são os inimigos mais tenazes da civilização, da liberdade e da verdade que o mundo já conheceu”.

Na psicologia dos arquétipos de Carl Jung, a sombra é sempre uma imagem invertida de si mesmo. Aquilo que nos envergonha, aquilo que nós conscientemente não queremos nem desejamos eclode e se direciona a algum outro, que, por estar tão próximo, acaba sendo objeto de nossa projeção. Uma mistura inquieta de temor e ódio nos une à nossa sombra. Uma miscelânea de desprezo e fascinação que ao mesmo tempo nos atrai e nos afasta. Uma combinação de desejo e repulsa, como se aquilo que nos configura, também nos assustasse.

Talvez por isso as imagens que o mundo ocidental tem do islã oscilem tanto no tempo. Imagine o lânguido quadro de Renoir, pintado em 1870, antes mesmo de o mestre francês visitar a Argélia pela primeira vez, representando um harém onde as mulheres árabes, com olhos de orgasmo, envoltas em suas roupas coloridas, seus ventres nus e seus seios circundados de pedras preciosas, sugavam a atenção embasbacada dos homens europeus, desacostumados do amor, após algumas décadas de puritanismo burguês. No século XIX as mulheres mulçumanas lembravam à Europa que os prazeres do sexo estavam ali, depois do Mediterrâneo, nos haréns do norte da África e nos palácios da Arábia. Hoje essas mesmas mulheres mulçumanas oscilaram para o lado oposto, sendo representadas no ocidente como seres submetidos à mais absurda repressão sexual. Metidas em burcas ou cobertas com o shador escuro dos xiitas, elas só revelam seus olhos.

Se na época de Renoir elas escandalizavam o ocidente porque se mostravam, hoje elas escandalizam porque se escondem. Pois é, as fronteiras que os homens constroem para separar os pedaços da humanidade não costumam ser firmes. Elas caem facilmente diante de mudanças climáticas, econômicas ou políticas. É preciso pouco para que populações humanas inteiras migrem de um continente para outro, e, de certa forma, a história do homem nesta Terra é uma história de migrações. Talvez por isso esse mesmo oriente, que fascina tanto a Europa, pareça às vezes tão ameaçador. As fronteiras humanas, que separam culturas, crenças e religiões, precisam ser internalizadas, cortando o coração das pessoas, para que elas não aprendam a ouvir umas as outras, para que elas não consigam ultrapassar suas próprias preconcepções de gênero, raça, crença e costume.

  Hoje, cristãos e mulçumanos ainda continuam – como desde a época das cruzadas – diante uns dos outros, encarando-se em mistos de repulsa e prazer, de atração recalcada e desconfiança explícita. A mitologia de uma linha invisível que separa a Europa e seus filhos rejeitados do oriente foi construída com cuidado e solidificou-se no imaginário de ambos os lados, fazendo-os esquecer duas coisas fundamentais: que o mundo é redondo e não tem centro (ao menos na superfície) e que só a humanidade, a despeito de ser uma invenção de algum filósofo pirado do século XVIII, pode salvar nossa espécie das fronteiras criadas para justificar esse irresistível medo do outro.

Publicado em 24 de março de 2009

Publicado em 24 de março de 2009

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