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Linguagem é construção

Raquel Menezes

Ser professor. Mais que uma profissão, trata-se de um modo de estar no mundo. Como o próprio verbo do enunciado já nos diz, é ser. Ser. Entre as tantas coisas que se é, é-se um rio que conduz os alunos pelo caminho do conhecimento, tanto pelo científico como pelo senso comum. O conhecimento científico, existente desde a Grécia Antiga, tem seu ápice a partir da revolução galileana. O senso comum ou conhecimento espontâneo, por outro lado mas não necessariamente em oposição, é resultado das experiências cotidianas feitas pelos homens como enfrentamento dos problemas diários. Por mais que possa parecer, o processo de conhecimento espontâneo não é solitário, já que constatações são trocadas entre os contemporâneos; mais ainda, são passadas de geração para geração, sendo assimiladas ao longo do tempo.

Referente a Galileu Galilei, que, entre tantas outras coisas, desenvolveu os primeiros estudos sistemáticos do movimento uniformemente acelerado e do movimento do pêndulo. E ainda: descobriu a lei dos corpos e enunciou o princípio da inércia e o conceito de referencial inercial, ideias precursoras da mecânica newtoniana.

Com base nesses dois tipos de conhecimento (o científico e o espontâneo), o professor deve conduzir seus alunos. Pelos gestos, pelos discursos, pela linguagem. E o modus operandi dessa direção, digamos assim, mais humano, é o construtivismo, que teve início com Vygotsky, que, diferentemente de Piaget, deu a devida importância à situação social e ao meio.

Tanto Piaget quanto Vygotsky atribuem grande importância ao organismo ativo, mas Vygotsky destaca o papel do contexto histórico e cultural nos processos de desenvolvimento e aprendizagem, sendo chamado de sociointeracionista – e não apenas de interacionista, como Piaget. Este, por sua vez, coloca ênfase nos aspectos estruturais e nas leis de caráter universal (de origem biológica) do desenvolvimento, enquanto Vygotsky destaca as contribuições da cultura, da interação social e a dimensão histórica do desenvolvimento mental. Apesar das diferenças sutis, ao final ambos são construtivistas em suas concepções do desenvolvimento intelectual. Ou seja, sustentam que a inteligência é construída a partir das relações recíprocas do homem com o meio.

Da sentença-rio até o discurso

a sílaba é uma pedra álgida/sobre o equilíbrio dos olhos/se/as palavras são densas de sangue/e despem objectos
(Fiama Hasse Paes Brandão)

Qual a importância do texto? Não saberia responder. Nem vem ao caso. O relevante aqui é refletir sobre como a linguagem é pensada pelos professores, principalmente quando se trata da (linguagem) escrita. O que este texto se propõe a pensar é o ensino da língua através do uso, das relações da sociedade como meio, como afirmava Vygotsky, em oposição a meros desenhos de letras que constituem palavras descontextualizadas. Isso é alvo de uma critica poética por parte de João Cabral de Melo Neto, em “Rios sem discursos”. Há uma insistência em pensar a língua como algo meramente funcional e estanque, ao invés de usual e em construção de sentidos.

Rios sem discursos

“Quando um rio corta, corta-se de vez/o discurso-rio de água que ele fazia;/cortado, a água se quebra em pedaços,/em poços de água, em água paralítica./Em situação de poço, a água equivale/a uma palavra em situação dicionária:/isolada, estanque no poço dela mesma,/e porque assim estancada, muda,/e muda porque com nenhuma comunica,/porque cortou-se a sintaxe desse rio,/o fio de água por que ele discorria.//O curso de um rio, seu discurso-rio,/chega raramente a se reatar de vez;/um rio precisa de muito fio de água/para refazer o fio antigo que o fez./Salvo a grandiloqüência de uma cheia/lhe impondo interina outra linguagem,/um rio precisa de muita água em fios/para que todos os poços se enfrasem:/se reatando, de um para outro poço,/em frases curtas, então frase e frase,/até a sentença-rio do discurso único/em que se tem voz a seca ele combate.”

Se assim realmente fosse, a linguagem meramente funcional, ou seja, à disposição do uso do homem e não o contrário, como Freud explicaria o inconsciente por meio da importância da linguagem? Como pensar os atos falhos? Como entender os sonhos? Como ir para o “divã”, onde é tão decisiva a fala? A linguagem, para Freud, é a responsável pelos nossos atos, em virtude de tudo ser linguagem. Não é à toa que na terapia a fala, logo a linguagem, é o processo que pode chegar à cura.

Para falar de linguagem, ou melhor, de como esquecem que a linguagem é, por essência, um processo de construção, além da referência ao belo poema de Cabral de Melo Neto, cabe aqui citar o próprio Vygotsky, que afirma: “a passagem da fala interior, extremamente compacta, para a fala escrita, extremamente detalhada, exige o que se poderia chamar de semântica deliberada – a estruturação intencional da teia do significado". Desse modo, a linguagem, inclusive a escrita, deve ser vista de forma interativa com o meio sociolinguístico e sociocultural.

No processo de construção da linguagem escrita, portanto, a criança tem muito mais a aprender do que somente as letras e as combinações silábicas. (Como se a palavra fosse a água do rio, como sugere Cabral de Melo Neto: “Em situação de poço, a água equivale/a uma palavra em situação dicionária:/isolada, estanque no poço dela mesma,/e porque assim estancada, muda,/e muda porque com nenhuma comunica,/porque cortou-se a sintaxe desse rio,/o fio de água por que ele discorria.”). Para tal entendimento da construção da linguagem, o incentivo deve vir do professor, que, ao invés de resumir seu trabalho a classificar substantivos, preposições e partículas analíticas, deve, na verdade, contar com a gramática internalizada dos alunos, incentivando-os a pensar e a refletir sobre o uso da língua.

A extensa lista não é produtiva não só porque é esquematizada e transmitida à base de “decoreba”, mas também porque é falha, no que tange, por exemplo, às variadas classificações de um mesmo vocábulo, ou até mesmo de um sintagma. Exemplos disso são os vocábulos andar e belo. Nos enunciados: O menino belo correu até a minha direção e Eu ando, belo e ando, são, respectivamente, adjetivo e verbo intransitivo. Entretanto, em O belo saiu mais cedo da aula e em Eu ando muito triste, os mesmo vocábulos passam a ser classificados como substantivo e verbo de ligação. Ou seja, de acordo com o contexto o vocábulo passa assumir diferentes sentidos, classes e semânticas. Vale ressaltar também que ainda temos as figuras de linguagem, como a metáfora, que dão sentidos outros aos significantes: se falo está chovendo canivete hoje, não digo que está chovendo pequena faca de lâmina movediça que fecha sobre o cabo.

Os diversos discursos escritos construídos em interação com a criança devem ser pensados de maneira transitória, num processo contínuo de construção social. Porém, infelizmente, o que se tem feito são interpretações estanques, como no caso dos estilos de época. Além de parar a interpretação no estilo, muitas instituições têm adotado textos literários em elaborações de provas, quando, na verdade, poderiam sentenças de uso mais corrente.

Desse modo, o corpo docente dessas instituições deve perceber que a escrita tem de ser construída em interação com a criança; deve ser, portanto, motivada, relevante para a vida, necessária para a atividade em curso, desejada pela criança. Assim, a escrita construída em interação com a criança deve ser uma prática, um uso significativo de leitura e produção de textos, mais do que um ensino ou uma técnica. A escrita deve constituir-se como discurso (texto) significativo, inserido numa situação de produção significativa, ao invés de um simples manipular de letras, sons e palavras.

Insisto que o professor deve (sim, deve!) se dedicar a ensinar as palavras como se elas fossem o rio de João Cabral, pois só desse modo as palavras poderão permanecer, como são, “densas de sangue”, de vida, de construção, como nos fala Fiama. Para tanto, o contexto social será levado em consideração, não só na escrita do alunado, como também na leitura. A redação deve ser substituída pela produção textual. O simples leitor deve ser incitado a ser um leitor crítico, para, assim, a língua deixar de ser forjada como um instrumento, mas sim ser usada em processo de constante construção, como deve ser. (Sim, deve ser!). (Ou melhor: é!).

Publicado em 31 de março de 2009

Publicado em 31 de março de 2009