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O bom brinquedo trabalhoso

Cláudia Dias Sampaio

Sim.
– digo-te, pousando as mãos nos teus joelhos:
– Desejo encontrar alguém que me ame com bondade, e saiba ler.
– Alguém que queira ressuscitar para ti?
– Sim, alguém que tenha para comigo esta memória.

(Maria Gabriela Llansol. O jogo da liberdade da alma, p. 80)

Tela luzindo com traço piscando na vertical, ou folha de papel pronta para receber a tinta: eis o espaço em branco à espera do menino e seu brinquedo para enganar a solidão. Escolher assunto, pensar palavras “justinhamente” que, combinadas, provoquem o jogo da liberdade da alma:

O menino, agora, vivia; sua alegria despedindo todos os raios. Sentava-se, inteiro, dentro do macio rumor do avião: o bom brinquedo trabalhoso.

É esse menino que “se doía e se entusiasmava” com a busca por rejuvenescer esperança que encontramos ao ler “As margens da alegria”, primeiro conto da coletânea Primeiras Estórias (1962). Dialogando com “Os cimos”, que encerra o livro e tem o mesmo menino como personagem, “As margens da alegria” apresenta a maturidade de um escritor que manejava com destreza sua arte.

Mesmo que não seja segura uma análise evolutiva dentro da obra de um autor, há de se levar em conta as horas de voo na formação de um piloto. E Rosa já havia escrito Corpo de Baile, Sagarana e sua obra ícone, Grande Sertão: Veredas, já tinha, portanto, “certo como o ato de respirar – o de fugir para o espaço em branco”.

Consciente da tensão que constituía seu brinquedo, mas também de que “outra vez em quando”, quando lhe ajudassem o engenho e a arte, vinha a alegria, como o lampejo do vagalume que encanta e revigora o menino de “As margens da alegria”, Rosa constrói uma narrativa potente que se desdobra em camadas infinitas de leitura.

A história do menino que pode ter todos os nomes é logo anunciada nas primeiras linhas do conto:

Esta é a estória. Ia um menino, com os tios, passar dias no lugar onde se construía a grande cidade. Era uma viagem inventada no feliz; para ele, produzia-se em caso de sonho.

A partir daí está feito o convite ao leitor para que ele siga o menino em suas descobertas de “novas tantas coisas”: as revistas, as balas e chicletes à vontade, o peru imperial que “tinha qualquer coisa de calor, poder e flor”.

A “viagem inventada no feliz” é constituída nessa tensão: entre quem escreve e quem lê e que também impulsiona aquele que vê nas palavras a possibilidade de “novos aumentos de amor”.

De seu lugar na “janelinha, para o móvel do mundo”, o menino-escritor convoca seus companheiros a vislumbrar um mundo a ser descoberto a partir do íntimo de cada coisa: no “menor, menos muito”. A viagem é conduzida então por essa fina observação de quem sustenta alguma força que “trabalha por arraigar raízes, aumentar-lhe a alma”, na intenção de criar mundos e ampliar os sentidos.

O passeio de jipe quando “o menino repetia-se em íntimo o nome de cada coisa” apresenta a relação de intimidade e afeto entre o menino e seu brinquedo:

A poeira, alvisseira.
A malva-do-campo, os lentiscos.
O velame-branco, de pelúcia.
A cobra-verde, atravessando a estrada.
A arnica: em candelabros pálidos.
A aparição angélica dos papagaios.
As pitangas e seu pingar.

A descoberta desse mundo não se dá de uma hora para outra, é preciso disposição para a viagem e a compreensão de que para criar “paisagem de muita largura” é necessária a aceitação do desconcerto e da dor inerentes à vida. É esse conhecimento que “As margens da alegria” e “Os cimos” oferecem ao leitor. Neste último, em que lemos a peleja do menino diante da possibilidade da perda da mãe, com “aquilo que não queria querer em si”, a rendição de que por mais laborioso e emocionante, assim como a vida, o brinquedo de escrevê-la está sempre em processo, é vagalume, lampejo, pois:

a gente nunca podia apreciar, direito, mesmo as coisas bonitas ou boas, que aconteciam. Às vezes, porque sobrevinham depressa e inesperadamente, a gente nem estando arrumado. Ou esperadas, e então não tinham gosto de tão boas, eram só um arremedado grosseiro (“Os cimos”).

Publicado em 31 de março de 2009

Publicado em 31 de março de 2009