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Uma breve história dos livros ilustrados

Salmo Dansa

Ehon é a palavra japonesa que significa livro de imagem. No inicio do século XVIII, eram impressos ehons artesanais que apresentavam imagens, porém frequentemente apresentavam também, em bela e elegante caligrafia, ensaios, poemas e outros textos escritos, como o Diário do príncipe Genji. Os ehons são universalmente atraentes por sua linguagem visual, que consegue tocar diretamente o coração e a mente. Até o final do século XIX, artistas e artesãos do ehon faziam todo o trabalho a mão; por isso eles tinham muito em comum com o que nós, ocidentais, chamamos de livro do artista, mas seus livros eram direcionados ao público em geral.

As partes da palavra ehone, “imagem”, hon, “livro” – significam para os artistas japoneses e seu público algo diferente do que significariam para nós. Você deve supor, a priori, que livros são feitos basicamente de textos para serem lidos. Na tradição japonesa, entretanto, muitos dos primeiros livros eram feitos como oferta religiosa e nunca eram lidos.

Mas a maioria dos ehon, como o próprio Diário do príncipe Genji, foi certamente feita para leitura, porém precisamos nos perguntar: o que significa “ler” um livro que tem mais figuras que texto?

Essa questão, que encerra a introdução de Ehon, the artist and the book in Japan, o maravilhoso livro de Rogers Keyes, remete à mesma discussão a respeito da função e da significação da ilustração no livro infantil e juvenil ao longo do tempo. O ehon dos dias atuais são os universais picture books, e, como no resto do mundo, destinados às crianças.

Ao olhar para as origens ocidentais da ilustração de livros, vemos o caminho do desenvolvimento do livro ilustrado como meio de expressão visual se formar a partir da Idade Média. Nesse período, nenhum artista individualmente contribuiu mais para a imagem do Renascimento no norte da Europa que Albrecht Dürer. Filho de ourives húngaros, ele nasceu em 1471 em Nuremberg, no mesmo ano seu padrinho Koberger inaugurava uma gráfica. Duas viagens à Itália inseriram Dürer na arte renascentista e no aprendizado da doutrina humanista que foi transposta (ou adaptada) para seu país natal. Porém, tão vigorosa foi a tradição gótica ao norte dos Alpes que a breve Renascença alemã foi somente permeada de formas italianas.

As ilustrações de livros de Dürer podem ser divididas em: assuntos religiosos, publicações nacionais ligadas ao imperador Maximiliano I e estudos científicos.

O Apocalipse, de 1498, é um dos mais notórios exemplos de livros ilustrados de todos os tempos. As quinze xilogravuras cruas de página inteira causaram impacto devastador; nas palavras de Willian Blake: “aqui na verdade está o cosmos definido por um poder sobre-humano”. Os quatro cavaleiros do Apocalipse, que trazem a peste, guerra, fome e morte, se tornou parte do imaginário coletivo europeu.

As poderosas cenas no Apocalipse rompem com uma centenária tradição religiosa válida até então, de que seria impossível converter coerentemente em imagens esse livro sagrado. Foi justamente Dürer quem inaugurou uma nova dimensão a essa representação.

A Vida da Virgem mostra um forte contraste, como o assunto pede, em relação à crueza do Apocalipse. As dezenove ilustrações foram configuradas, entretanto, a partir de um projeto conciso: ilustrações de pagina inteira com o texto no verso da página. O encontro de Joaquim e Ana no portão dourado, e A visitação de Isabel a Maria, em um típico horizonte alemão, sugerem o aspecto mais suave da devoção medieval, a mesma doce leveza que foi varrida implacavelmente pelos reformistas protestantes.

Entretanto, segundo John Harthan, o período mais brilhante das iluminuras renascentistas foi inaugurado em Florença por artistas de meados do século XV. Alguns dos mais belos manuscritos florentinos foram pintados pelos irmãos Giovani; um deles é o Missal de Santo Egidio (convidados para fazê-lo pelos párocos da igreja dedicada a ele em 1474-76), com um efeito predominantemente azul e dourado.

Muitos escribas e iluminadores florentinos trabalharam para Mathias Corvinus Hunyadi, rei da Hungria (1458-1490), que teve grande interesse pelas artes e letras e encontrou expressão em magnífica biblioteca que era um monumento da Renascença italiana e húngara. Diz-se que Lorenzo de Médici construiu a Biblioteca Laureziana em Florença em afronta à Mathias Corvinus Hunyadi.

A grande Bíblia de Borso d’Este, Duke de Ferrara e Modena, executada em 1457-1461, a maior realização da iluminura italiana renascentista e contemporânea à Bíblia de Gutenberg e ao primeiro livro impresso ilustrado, de Albrecht Pfister.

O nascimento da imprensa

A invenção da impressão com tipos móveis, no meio do século XV, que viria a precipitar uma revolução, aconteceu graças a dois importantes desenvolvimentos técnicos que tiveram origem dois ou três séculos antes: o crescimento da indústria manufatureira de papel, que assegurou o suprimento de papéis com a qualidade necessária, e a produção de novas tintas com a consistência apropriada para o uso em tipos e matrizes xilográficas, que eram naquele momento o principal modo de reproduzir ilustrações.

A xilogravura parece de fato ter precedido à tipografia como meio de impressão. A famosa impressão com um bloco único de St. Christopher é considerada datada de 1423; entretanto, ninguém estabeleceu com certeza se a data se refere a ela como a primeira xilogravura ou se seria simplesmente a data dessa impressão em particular. Então, depois de 1450 os livros chamados block books começaram a aparecer. Esses testemunhos do sentimento religioso e devoção popular do século XV ocupam uma curiosa terra de ninguém na historia da imprensa e ilustração. Imagens e textos (os últimos geralmente exíguos) eram entalhados em relevo em um bloco único que era então entintado e uma impressão era gravada na folha de papel colocada sobre o bloco entintado. Apenas um lado do papel era usado; o outro se danificava durante o processo. As folhas produzidas eram organizadas e fixadas juntas em volumes.

Os block books coexistiram com os livros impressos de texto até pelo menos 1480. Eles parecem ter sido especialmente populares na Alemanha e nos Países Baixos, onde eram vendidos em feiras. Mais como aquisições do clero do que propriamente propósitos de ensino, os leigos mais olhavam as figuras de um livro de imagem do que o liam. Seus temas eram quase sempre religiosos. O gênero que melhor o representa é a Biblia Pauperum (Bíblia do pobre), em que cenas do Antigo e Novo Testamento eram mostradas paralelamente a versos explicativos em linguagem vernacular e em latim. Esses livros de devoção eram lançados sem título, e a expressão Bíblia Pauperum data do século XVIII.

A impressão com tipos móveis foi praticada primeiramente na Europa, em Mainz, em 1450. A invenção é atribuída a Johann Gutenberg, e a Bíblia em latim de 42 linhas, publicada em 1455, é um dos livros mais famosos do mundo. A imprensa, como arte nova, era ainda artesanal, e um negócio que tinha que se justificar pelos próprios resultados. Montar uma gráfica era um negócio arriscado. Os primeiros impressores não estavam interessados na estética do belo livro, mesmo que seus livros frequentemente pareçam belos para nós hoje.

Os primeiros impressores imprimiam textos que já eram os assuntos favoritos dos leitores medievais, disponibilizando-os a um público muito maior do que até então; e eles conscientemente se esforçaram em fazer, com suas máquinas, produtos o mais semelhante possível a livros feitos a mão. O texto era impresso em duas colunas, como nos manuscritos, onde era muito importante a economia no uso do pergaminho. O espaço das capitulares era deixado em branco para ser preenchido e colorido a mão; e as primeiras ilustrações xilográficas eram impressas em contorno, pois elas deveriam ser coloridas a mão e transformadas em miniaturas.

Os livros que tinham boas vendas eram as Bíblias e livros que a comentavam, trabalhos religiosos, devocionais, os clássicos, alguns ramos da literatura vernacular, como fábulas, romances de cavalaria e alguns tipos de livros legais; estes quase nunca se prestavam a ilustrações.

O estilo rococó

Um dos períodos de maior desenvolvimento da ilustração de livros ocorreu entre os séculos XVII e XVIII. Podemos descrever o século XVII como a era do Barroco, e o século XVIII como a era do Rococó; no entanto, essa distinção deve ser feita sem muita rigidez. O Rococó desenvolveu a ostentação dos moldes do Barroco, mas com ênfase mais na graça do que na energia. Ele foi o último estilo antes das releituras e historicismo do século XIX.

O século do Rococó, tal como os livros nos apresentam, foram os anos dourados da ilustração, sobretudo na França. A grandiosidade deu lugar à luz, e a era do frontispício deu lugar, no século XVIII, ao que seria reconhecido como a era da vinheta. As classes altas e as famílias ricas não aristocratas desenvolveram gosto por produções refinadas, livros elegantes que deveriam divertir mais do que edificar seus donos. Fábulas, jogos, novelas, versos com pequenas e divertidas ilustrações cheias de meios tons. Esses livros tornavam-se parte do mobiliário adequado aos pequenos apartamentos que se encontravam agora mais confortáveis e reservados que os grandes e formais salões criados por Luis XIV em Versailles.

Não obstante, a Igreja e a corte foram ainda os principais patronos das artes nesse período. Nos tempos dos principados absolutistas dos séculos XVII e XVIII, os livros expressavam uma realeza mística. Os livros de festas do Barroco eram geralmente de tamanho considerável e de uma suntuosidade que combinava com as festas das quais eram registro. A França e a Holanda tiveram as principais publicações desse tipo.

Um fato histórico relacionado diretamente ao surgimento do Rococó foi quando o regente Philip, Duque de Orleans, trouxe o menino Rei Luis XV de volta para Paris em 1715, abandonando Versailles por muitos anos enquanto ele se estabelecia no Palácio Real. Essa mudança de residência marcou a urbanização e a efervescência da vida social e dos prazeres em Paris. A Regência (1715-1722), mesmo curta como foi, inaugurou um período de grande atividade intelectual que ditou o tom de todo o século.

Assim como as pérolas da arquitetura e do mobiliário desse período, o interesse principal do livro ilustrado do Rococó foi dar prazer. A luminosidade do toque, a alegria, a diversão eram expressas nos harmoniosos elementos decorativos. Ilustrações de páginas inteiras, vinhetas, aberturas e encerramentos de capítulos tinham igual importância. A ilustração rococó privilegia a linha, mas frequentemente produz o cinza tonal ou o efeito grisaille que acende as ilustrações, combinado ao branco do papel e à delicadeza do traço.

O começo da ilustração para crianças

Antes do ano 1700, realmente não existiam livros escritos expressamente para crianças; alguns jovens, geralmente de nobres e ricas famílias, tinham sorte suficiente para ler e aproveitar livros que estivessem autorizados a pegar das estantes de seus pais. Outros das mesmas nobres classes que não podiam ler tiveram essas historias contadas por tutores e babás.

Dentre os livros que agradavam particularmente às crianças, talvez o mais popular fosse Fábulas de Esopo, que foi inicialmente traduzido do francês para o inglês em 1484. Willian Caxton foi o responsável por levar essa preciosidade para os ingleses. Ele acreditava que “(as fábulas) mostram todos os modos (educação) ao povo e quais modos de pensar eles podem ou devem guardar ou seguir... As fábulas têm tanto a dizer em poesia quanto as palavras em Teologia”. Não é surpresa que as crianças tenham sempre se deliciado com as fábulas, uma vez que elas sempre gostaram dos animais e aceitavam a ideia que animais podiam se comportar como as pessoas.

Percy Muir, em English Children’s Books 1600 to 1900 fala dessa relação:

Fábulas são a leitura ideal para crianças pequenas, pois em seu antropomorfismo solene encontram a fala do animal em meio caminho – um ponto de vista não menos óbvio na infância moderna do que era no século XVIII, nos tempos de Caxton, ou provavelmente na obscura e incerta era pré-cristã, quando as fábulas foram primeiramente cunhadas. A fera que assombrava o pai da bela, O gato de botas, os personagens de Lewis Carroll e as famílias de animais de Beatrix Potter são descendentes diretos do fabuloso bestiário de Esopo.

Houve, entretanto, dois outros livros notáveis para crianças. O primeiro foi Kunst und Lehrbüchlein, do pintor e ilustrador Jost Amman. Esse Livro de arte e instrução para jovens por onde se pode aprender desenhando e pintando era uma coletânea de ilustrações em xilogravura sobre a vida contemporânea, fábulas e contos folclóricos; não tem texto, ou seja, seria o primeiro livro de imagens lançado para crianças. Imagens que, na sua diversidade, parecem ter sido reunidas de várias fontes por Sigmund Feyerabend e publicado em Frankfurt em 1578.

O segundo e provavelmente mais importante trabalho foi outro livro infantil, Orbis Sensualium Pictus, de Johannes Amos Comenius (1592-1671), publicado em Nuremberg em 1657. Comenius, que era tcheco, foi primeiramente ligado ao ensino de latim (o livro foi escrito numa mistura de latim e holandês), mas, como Whalley e Cester escrevem em Cobwebs to Catch Flies, “ele estava interessado primeiramente em sublinhar a importância da ilustração como objeto capaz de auxiliar a memória da criança”. O Orbis Sensualium Pictus, ou “A nomenclatura de todas as principais coisas que existem no mundo, e o uso dado a elas pelo homem em cerca de 150 xilogravuras”, para citar a página de rosto da primeira edição inglesa de 1658, é considerado o primeiro livro (salvo alfabetos e catecismos), a ser escrito expressamente para crianças. Não há a menor dúvida de que ele teve enorme efeito sobre as publicações subsequentes para jovens e que foi um precursor da moderna enciclopédia.

Os livros de educação, na Idade Média, se dividiam em duas categorias: os “livros didáticos”, em sua maioria escritos em latim; e aqueles voltados à educação para a vida em sociedade. As crianças provenientes da classe operária não tinham acesso a nenhuma delas. Para o jovem nobre, a direção principal da educação era ensiná-lo a como se comportar em sociedade; para ele eram escritos os tais livros de etiqueta e comportamento, que eram provavelmente a extensão de seus “livros didáticos”.

A expansão da imprensa no fim do século XV e começo do XVI mudou completamente a situação. Logo se tornou comparativamente fácil produzir múltiplas cópias de livros, que se tornaram mais baratos, habilitando um numero maior de pessoas à leitura. O começo da ilustração em livros aconteceu quase no mesmo momento da transição para o texto impresso; quando ainda existiam as iluminuras de manuscritos, já havia séries regulares de ilustração acompanhando textos bíblicos e a vida de santos. Romances, histórias e viagens também foram ilustradas, porém com circulação limitada, já que tudo era feito à mão.

No final do século já existiam dois métodos mecânicos de produzir ilustrações: a xilogravura e a gravura em metal. Esta era mais difícil porque, ao contrario da xilogravura, a ilustração tinha que ser impressa separada do texto. Entretanto, na metade do século XVII a mudança dos temas abordados requereram uma ilustração mais refinada, e o desenvolvimento da História Natural e da Topografia demandavam maior precisão, que só o metal podia dar.

Mas ainda não existiam livros para crianças. Havia livros didáticos e escolares, e elas podiam aproveitar os livros ilustrados direcionados aos seus pais. Entre os primeiros livros impressos por Caxton na Inglaterra no século XV havia trabalhos como Historia do Brinquedo, Reynard e a raposa e Fábulas de Esopo. Ainda no século XV, o já citado Kunst und Lehrbüchlei.

A Reforma Protestante

Em meados do século XVI aconteceu na Inglaterra a Reforma Protestante, que viria a ser o fato causador do maior impacto sobre a produção de livros para crianças nos séculos seguintes. Os reformadores defendiam a ideia de que não deveria haver intermediação humana entre o homem e Deus e que cada pessoa deveria ter o direito – na verdade, a obrigação – de ler sozinha a Bíblia e viver de acordo com a palavra de Deus revelada lá. O caminho da salvação estava em se preparar, neste mundo, para o que estava por vir. A coisa mais importante, então, era ensiná-los a ler – e quanto mais cedo melhor. Desde então e até o começo do século XIX, a Inglaterra passou por diversas transformações científicas, tecnológicas e sociais. Com o final das guerras napoleônicas, em 1815, começou um período de crescimento da classe média e a tranquilidade propiciava a atenção às necessidades da infância. O novo conceito de infância como “tempo da inocência” originou o frescor de pensamentos a respeito de como educar a nova geração que coincidiu com a disponibilidade de recursos para investir na infância e em suas necessidades. Mas, de modo geral, o que podemos eleger como maior avanço na leitura infantil no século XVIII foi a passagem de uma educação religiosa nas primeiras décadas a uma educação social nas últimas, e isso mudaria ainda mais no começo do século XIX, partindo daí no sentido de um conhecimento prático.

Contos de fadas dos Irmãos Grimm

Nesse período ainda floresciam livros fundamentados em temas educativos como boas maneiras, moral e humanidade, livros de viagens e os chapbooks. Em contraste com isso e no mesmo período, uma importante série de ilustrações de George Cruikshank foi lançada, acompanhando a primeira versão em inglês do que se tornaria conhecido como Contos de fadas dos Irmãos Grimm. Os dois volumes de Histórias populares alemãs... coletadas por M. M. Grimm da tradição oral foram publicados em 1820 e 1826. Havia poucas ilustrações em cada volume, mas eram criativas e bem-feitas. Junto com os contos, elas indicavam a direção pela qual a literatura infantil e ilustração poderiam seguir no futuro. No meio do século XVIII, George Cruikshank lançou sua própria coleção de contos de fadas. Isso reforçaria o fato de que ele foi o primeiro ilustrador dos contos de Grimm, em 1820. Nessa versão, seu estilo já estava memoravelmente lapidado pelos anos. Ele jamais simpatizou com a xilogravura, preferindo a gravura em metal, que ele foi um dos poucos ilustradores a usar.

A partir do meio do século, os motivos correntes da época começaram a aparecer nos livros infantis e tendiam a refletir mais de perto a situação nos livros ilustrados para adultos ou na pintura e gravura. O artista-ilustrador estava produzindo; são também muito nítidas as mudanças súbitas na representação da criança durante esse período. Nos primeiros livros infantis, era comum mostrar crianças como jovens adultos, no vestir e no comportamento. No começo do século XIX, elas eram descritas mais como crianças, vestindo roupas diferentes dos adultos e exibindo formas diferentes de comportamento; após os anos 1840, percebemos que certos artistas faziam comentários sobre a infância do tipo: “Veja como são curiosos – fofos – divertidos – bonitos”.

O culto à infância começou a se fazer visível em livros escolhidos por adultos para crianças lerem – estes não eram ainda escolhidos pela criança, mas podemos ver essa influência a partir de então. Em contraste com a anterior, essa foi a década onde se viu o aparecimento de livros de todos os tipos, alguns dos quais são ainda publicados hoje em dia. Houve um incrível aumento no número de leitores, que se espalhavam a partir de cada família.

Esse foi o período no qual se viu o crescimento do jornalismo popular. O jornal inglês Punch foi fundado em 1841; The illustrated London news, em 1842 – ambos existem até hoje. Esses jornais e seus contemporâneos dependiam muito da ilustração. Tanto que surgiu o ilustrador de livros em tempo integral, alguns entre esses membros se tornaram famosos em suas carreiras. Muitos dos primeiros ilustradores eram originalmente pintores – ou desejavam ser. A nova geração era feita de artistas do livro em primeiro lugar.

A diversidade de temas da literatura juvenil nesse momento atingia todos os tipos de leitor: poesia infantil, contos de fadas, viagens e aventuras, histórias escolares, contos de fantasia e imaginação, e naturalmente picture books de todo tipo, que se somaram aos já existentes (e agora menos importantes) livros de moral, didáticos e religiosos.

Considerando os livros lançados nas décadas de 1860 e 1870, o impacto da impressão a cores já era visível, e os esforços lançados nesse sentido foram aparecendo gradualmente. Muitos trabalhos não assinados foram produzidos para o mercado popular e impressos no sul da Alemanha por cromolitografia.

Contudo, devemos considerar que o principal nome dos anos 1860 deve ser mesmo John Tenniel, cujas ilustrações para os dois livros de Alice (em 1865 e 1972) deram forma às criaturas do País das Maravilhas, de Lewis Carroll. As xilogravuras de Tenniel eram colocadas dentro do texto, da maneira que só era possível fazer com as impressões em madeira, formando o acompanhamento da escrita. Nesses livros descobrimos a emancipação final da literatura infantil, quando toda moralidade e aprendizado foram virados de cabeça para baixo, dando ainda um aspecto de realidade às imagens daquele mundo de sonhos. Ambos tiveram outros trabalhos publicados, mas nenhum dos dois teve o sucesso como nos livros de Alice, em que as histórias e imagens são igualmente parte da nossa memória.

Ainda no século XIX, em completo contraste com trabalhos produzidos por artistas desconhecidos, estavam as ilustrações produzidas pelos bem conhecidos membros da irmandade dos artistas pré-rafaelitas, dois dos quais consideraremos aqui como Sir John Everett Millais e Arthur Boyd Houghton. Ambos talvez fossem mais bem conhecidos como pintores, mas eram muito requisitados como ilustradores de livros, sobretudo para adultos.

O final desse período foi dominado pelas ilustrações coloridas e livros-brinquedo, um período de experimentos e expansão técnica da gravura, da ilustração e do público. Em breve não haveria trabalho para ilustradores de xilogravura à moda antiga, e essa mudança é notória na produção dos livros dessa época na Inglaterra.

O design de livros infantis seguia o de livros adultos contemporâneos; na verdade, uma editora geralmente produzia ambos. Os livros quase sempre tinham uma gravura no frontispício e entre seis e oito gravuras no miolo, bem mais ilustrações do que nos livros ilustrados com xilogravuras. Artistas ganhavam a vida como podiam, inclusive ilustrando livros infantis; entretanto, parece ter existido considerável relutância para obter reconhecimento por esse trabalho, como se fosse sinal de inferioridade trabalhar para o mercado de livros infantis, em comparação ao sério mercado adulto.

Ainda assim, muitas das melhores ilustrações de livros infantis que existem, especialmente no começo do século XIX, só poderiam ter sido produzidas por artistas muito competentes, mesmo quando o foram anonimamente. O maior exemplo é, sem dúvida, Willian Blake, mais bem conhecido hoje por suas pinturas e seus próprios livros ilustrados e poemas. Formado como impressor, sobreviveu desse trabalho durante grande parte de sua vida, e em todos os seus livros tratou texto e imagem como um objeto integrado.

Chapbooks, livros-brinquedo e o advento da cor

O nome chapbooks foi dado a esse tipo de publicação no século XIX, mas o gênero em si é quase tão antigo quanto a impressão com tipos móveis. Chapbooks eram trabalhos de literatura popular dirigidos ao mercado de massa, de consumo amplo e sem sofisticação.

Poderiam ser considerados equivalentes aos impressos populares. Em tempos anteriores, já existiam jornais e informativos impressos de forma simples, publicando regularmente os eventos políticos recentes, assassinatos e acontecimentos fantásticos do dia-a-dia, e para muitas pessoas era a única leitura além da Bíblia. Eles se aproximavam das tiras de jornal e podiam ter apelo semelhante, tanto para crianças quanto para semiletrados ou para leitores mais simplórios.

A palavra chapbook vem do verbo anglo-saxão ceapian, que significa vender e comprar. Eram transportados pela cidade por vendedores ambulantes em seus pacotes, juntos com as últimas baladas, cordinhas, laços, notícias, fofocas e tudo que um vendedor ambulante poderia ter. Raramente eram datados. O formato padrão era de dezesseis páginas e 4½ x 2½ polegadas – muitas vezes menor que isso.

No século XVIII, foram bastante estilizados. Eram impressos somente de um lado da folha, que eram então vincadas em forma de livreto de 20 ou 24 paginas, rusticamente em 6 x 4 polegadas e ilustrados com uma ou mais xilogravuras cruas. Algumas dessas publicações não pretendiam ser mais do que entretenimento, no seu mais amplo sentido. Os chapbooks eram a fonte de material visual disponível, mas ainda assim não seriam comprados em sã consciência para as crianças das classes média e alta, em vista de suas imperfeições de texto e ilustração. Em nenhum caso, em fins do século XVIII, os contos folclóricos e de fadas seriam o assunto dos chapbooks; eles eram favorecidos pela mais racional atmosfera da era pós-rousseauniana.

Obviamente, as crianças liam chapbooks, o que ficou claro por muitas evidências; talvez entrassem no quarto das crianças pela cozinha ou comprados por elas próprias com os trocados recebidos de seus pais. Certamente os chapbooks mantiveram viva a tradição de publicações de contos e rimas, até que em determinado momento eles pudessem retornar ao espaço da infância. A prática comum do uso de matrizes de impressão antigas significava que, algumas vezes, as imagens aparentavam estar fora de moda para o jovem leitor, mas a extensão dos assuntos abordados, o vigor das ilustrações e o fato de poderem ser comprados pelas próprias crianças deram aos chapbooks considerável importância na história dos livros infantis, senão na literatura infantil.

Século XX e os toybooks

Em contraste com os chapbooks, que eram quase sempre impressos em preto e branco, livros-brinquedo dependiam inteiramente da cor. No século XX, as cores faziam parte da vida diária – em livros, televisão, embalagens e até nos jornais. Fica difícil imaginar como há cem anos a impressão a cores tornou-se comercialmente viável para publicações mais baratas. Mas até a maior parte do século XIX elas eram coloridas à mão. A identidade desses livros-brinquedo está diretamente relacionada à chegada do livro infantil à Idade Moderna. Pela diversidade de conteúdos e estilos, só poderíamos falar desses livros genericamente; salvo pela mudança para impressão a cores, havia pouco senso de desenvolvimento, já que a maioria deles não era datada e muitos foram reeditados. Um assunto comum no início era o alfabeto, havia diversos toybooks com o mesmo tema.

O final do século XIX enfatizava o estímulo visual, e o ambiente estimulava um gosto por livros extravagantemente opulentos, onde se notava, no requinte das produções, a perfeita harmonia entre ilustração, encadernação e tipografia. Os editores rapidamente tiraram vantagem dessas condições favoráveis dadas pelo momento econômico e social.

Outro fator ainda mais favorável foi a maestria conquistada no processo de impressão colorida, que emergiu na virada do século, quarenta anos após a teoria ter sido lançada. O design dos livros mudou para acomodar as qualidades do novo processo, e daí surgiu o gift book. As publicações eram caras para produzir e comprar: eram lindamente fabricadas com excelentes tecidos, produzidas com impressões douradas e coloridas. Os textos eram sempre de status clássico e somente artistas conhecidos eram empregados; os livros eram produzidos regularmente, como os gift books de Natal, que eram lançados anualmente e serviam de vitrine para o trabalho de alguns dos artistas mais conhecidos e conceituados da época. Como a maioria deles era de ilustradores de livros infantis e muitos livros abraçavam o ilimitado mundo de fantasia dos contos de fadas, o principal resultado foi uma tendência de os livros infantis serem mais bem produzidos e mais baratos, popularizando o trabalho de muitos e variados artistas.

No inicio do século XX, as classes sociais emergentes ainda copiavam o modo de vida britânico, e a educação apresentava pequenas melhorias. O ímpeto da ilustração criada no fim do século XIX foi forte o suficiente para que o campo se mantivesse fértil até 1920, só que agora com ênfase na cor. O foco vitoriano dirigido às questões familiares propiciou também a emergência dos gift books, que reinariam até o final da I Guerra Mundial.

Em 1920 foi também fundada a Bauhaus. Nesse período foram lançadas muitas e memoráveis coleções de contos de fadas dos Irmãos Grimm, de Hans Christian Andersen e Perrault; Contos de mistério e imaginação, de Edgard Alan Poe, Contos de Shakespeare e textos clássicos eternizados, como Peter Pan nos jardins de Kensington, Fausto, de Goethe, O jardim secreto e As mil e uma noites.

Na década seguinte houve pouquíssimos avanços em termos da ilustração; somente em termos da escrita ela seria mais produtiva que a década de 1920. A única relevância foi o surgimento de um movimento de impressores particulares independentes, como uma previsível reação às pretensões vitorianas e o consequente revival de técnicas do século XIX, em particular as xilogravuras em que a maior parte dos gravadores proeminentes eram mulheres, como Gwendolen Raverat, neta de Charles Darwin. Infelizmente, a maioria das gravadoras independentes desapareceu na depressão econômica e perdeu-se o interesse pela xilogravura após a II Guerra Mundial.

I Guerra Mundial

A I Guerra Mundial trouxe o fim das importações de livros, equipamentos e impressores da Alemanha que não havia nos EUA e Inglaterra, e o mercado de impressão começou a declinar no mesmo momento da ascensão dos Pop-ups, as revistas em quadrinhos de aventuras para meninos, que traziam inspirações dos filmes de aventura de Hollywood, como planos fechados, perspectivas fixas e outros tantos recursos, como a introdução dos balões de diálogo. Esses elementos não tardaram a aparecer nos livros infantis assim como em outras áreas onde a ilustração aparece.

Esse foi o momento de surgimento de gênios do cinema de animação e da ilustração, como Walt Disney, que lançou, em 21 de dezembro de 1937, Branca de Neve e os sete anões, mas no período do entreguerras a ilustração caiu nas trevas, em comparação ao que havia sido antes. O offset, ainda em estágio experimental, e as pressões econômicas ao mercado não permitiam que fossem confeccionados os grandes e belos livros de imagem. Nesse sentido, a tendência da década de 1940 era a simplicidade e naturalidade do design, que seguia, por um lado, o economicamente necessário e, por outro, o que se tornou em parte como consequência, artisticamente desejável.

Disney se tornou o maior nome da ilustração de todos os tempos, um divisor de águas que influenciou e continua a influenciar gerações de ilustradores de literatura infantil e juvenil, editores, animadores e diretores de cinema, com seu olhar apurado, imaginação fértil e técnica inovadora. Grande colecionador de livros históricos ilustrados, ele viajou algumas vezes pela Europa no começo do século XX em busca de pinturas, livros ilustrados pelos grandes mestres do passado e retratava os lugares de origem dos contos de fadas para que sua obra ganhasse em fidelidade e autenticidade.

Além de recontar em livros e transpor esses contos para as telas de cinema, difundindo e popularizando histórias pouco conhecidas até então, criou o mais popular personagem do cartoon de todos os tempos: Mickey Mouse. Disney é hoje muito criticado por ter “adocicado” e até distorcido os contos de Fadas, mas certamente deixou grande contribuição para a formação do imaginário de crianças de todas as idades.

Bibliografia

HAINING, Peter. Movable books. An illustrated history. London: New English Library, 1979.

HARTHAN, John. The history of the illustrated book – the Western Tradition. London: Thames & Hudson, 1981.

KEYES, Roger S. Ehon, the artist and the book in Japan. New York: The New York Public Library, 2006.

WHALLEY, Joyce Irene; CESTER, Tessa Rose. A history of children’s book illustration. London: John Murray e Victoria and Albert Museum, 1988.

Publicado em 31 de março de 2009

Publicado em 31 de março de 2009

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