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Gabriela Mistral - um vento suave

Luiz Alberto Sanz

Diálogos Poéticos

Um poema é como um vento delicado que faz dançar, ao contrário do vento frio, seco e violento que a poeta escolheu por pseudônimo, Gabriela Mistral. Mas não vem daí a origem do nome, e sim de uma homenagem ao poeta italiano Gabriele D’Annunzio e ao poeta provençal Frédéric Mistral.

Gabriela Mistral nasceu em Vicuña, Chile, em 7 de abril de 1889 – há exatos 120 anos – e morreu em Nova Iorque, em 10 de janeiro de 1957. Chamava-se, na verdade, Lucilia de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga. Teve uma vida pontuada por tragédias: desde o abandono pelo pai aos três anos de idade, passando pelo suicídio do primeiro marido e do sobrinho – a quem chamava de filho, talvez pelo fato de nunca ter podido ser mãe. Ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1945; foi a primeira pessoa latino-americana a recebê-lo (os próximos seriam o guatemalteco Miguel Ángel Astúrias, em 1967; o chileno Pablo Neruda, em 1971; o colombiano Gabriel García Márquez, em 1982; e o mexicano Octávio Paz, em 1990). Uma curiosidade significativa é que apenas dez mulheres ganharam o prêmio. Quando vivi no Chile, Gabriela usufruía de um prestígio semelhante ao de Neruda, só que ela era a principal bandeira intelectual do setor tradicional da Social-Democracia, reunido no Partido Radical, que dera ao país, nos anos 1930, o presidente Pedro Aguirre Cerda. A explicação principal é que Gabriela era uma educadora; começara como mestre-escola, assim como Cerda e grande parte das bases radicais. Mas o fato é que a pequena Lucilia, vinda da província, era uma poeta extraordinária, educadora e diplomata notável e pioneira na luta feminista.

Eu que não danço (portanto, tenho transmutado o coração em cinzas) ofereço dois de seus poemas aos que dançam, na vida e da vida...

Los que no danzan

Una niña que es inválida
dijo: "Cómo danzo yo?"
Le dijimos que pusiera
a danzar su corazón...
Luego dijo la quebrada:
"¿Cómo cantaría yo?"
Le dijimos que pusiera
a cantar su corazón...
Dijo el pobre cardo muerto:
"¿Cómo, cómo danzo yo?"
Le dijimos: "Pon al viento
a volar tu corazón..."
Dijo Dios desde la altura:
"¿Cómo bajo del azul?"
Le dijimos que bajara
a danzarnos en la luz.
Todo el valle está danzando
en un corro bajo el sol,
ya quien falta se le vuelve
de ceniza el corazón...

Os que não dançam

Uma menina inválida
disse: "como posso dançar?"
Dissemos que pusesse
A dançar seu coração...
Depois disse a depressiva:
"como eu cantaria?"
Dissemos que pusesse
A cantar seu coração…
Disse o pobre monstrengo morto:
"como, como posso dançar?"
Dissemos: ponha ao vento
a voar teu coração...
Disse Deus das alturas:
"como desço do azul?"
Dissemos que ele descesse
para dançarmos na luz.
Todo o vale está dançando
Numa roda sob o sol
E quem falta deixa
às cinzas o coração.


Todo es ronda

Los astros son ronda de niños
jugando la Tierra a mirar...
Los trigos son talles de niñas
jugando a ondular..., a ondular...

Los ríos son rondas de niños
jugando a encontrarse en el mar...
Las olas son rondas de niñas
jugando la Tierra a abrazar...

Tudo é ciranda

Os astros são cirandas de meninos
brincando de olhar a Terra...
Os trigos são troncos de meninas
brincando em ondas..., em ondas...

Os rios são cirandas de meninos
brincando de se encontrar no mar...
As ondas são cirandas de meninas
brincando de a Terra abraçar...

Publicado em 14 de abril de 2009

Publicado em 14 de abril de 2009

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