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Como vai a vovó? A importância da terceira idade na primeira infância

Cristiane da Silva Brandão

Professora da Educação Infantil e dos Ensinos Fundamental e Médio Cientista Social e Pedagoga formada pela UFRJ

A Creche Municipal Sonho Feliz, instituição promotora de educação, buscou despertar a reflexão de todos para com os direitos do idoso e salientar a importância da vovó no desenvolvimento social da criança.

Nossa unidade escolar está localizada numa comunidade carente no bairro de Campo Grande, na cidade do Rio de Janeiro, e atende a crianças de zero a quatro anos de idade.

Começamos a observar que a maioria de nossas crianças chegava à creche com a vovó e esporadicamente a mãe (ou o pai) comparecia à instituição. Percebemos também que, apesar da frequente presença da vovó, esta era pouco respeitada pelas crianças.

Sabemos que grande parte das mães está hoje inserida no mercado de trabalho e muita vovó faz parte, atualmente, da composição da própria família, transcendendo o modelo nuclear tradicional.

Todavia, essas observações só foram aguçadas realmente quando, a partir de uma atividade proposta relativa ao mês dedicado às mães, a educadora solicitou: “vamos caprichar, pois é para a mamãe”. Então uma criança de três anos a surpreendeu: “é pra vovó, tia?” Tratava-se de um menino que era criado pela avó materna com o apoio do pai, depois de ser abandonado pela própria mãe.

A atitude daquela criança comoveu profundamente a educadora, levando-a a refletir: “por que só as mães são homenageadas e convidadas a vir à nossa creche, se as vovós estão mais presentes e passam boa parte de seu tempo com os pequeninos, muitas vezes a semana inteira, quando, então, chega o final de semana e a mãe retorna (do trabalho) ao seu lar?”

Sendo assim, tivemos a iniciativa de homenagear, além das mamães, como é de costume, as vovós, de modo a trazê-las e fazê-las participar também, efetivamente, do desenvolvimento das crianças de nossa creche, valorizando sua cultura, sua experiência de vida e a sua própria “figura”, para, dessa forma, reforçarmos os valores trabalhados na formação de hábitos e atitudes.

Pretendemos, com esta experiência – Como vai a vovó? A importância da terceira idade na primeira infância –, construir a cidadania a partir de princípios que precisam ser valorizados ainda na infância para a melhor convivência de vida em grupo, mostrar direitos e deveres, refletir sobre o direito do idoso e sua importância no desenvolvimento integral da criança.

A introdução de nossos alunos ao exercício da cidadania supõe o entendimento de suas individualidades em relação aos grupos sociais, aos quais pertencem ou com os quais devem interagir. A cidadania não pode ser abstrata. Ela é construída historicamente em termos de humanidade e, individualmente, ao longo do processo de desenvolvimento de cada criança e adolescente, a partir das vivências em diferentes grupos sociais, étnicos, de gênero, de idade.
Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil

Após verificar a realidade e o interesse das crianças, a experiência teve início com o lúdico: a caracterização da vovó por uma aluna de três anos que contou histórias e trouxe brinquedos para as crianças. Num momento, um aluno de quatro anos quis brincar de ser o vovô (faz-de-conta). Winnicott preconiza que, no brincar, o indivíduo “pode ser criativo e utilizar a sua própria personalidade integral e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o seu self”.

Depois, fizemos uma pesquisa a fim de saber como era a vovó de cada um: seu nome, se mora junto com a família, o que gosta de fazer etc. Conversamos e discutimos os direitos e deveres a partir de diversas literaturas, como o Estatuto do Idoso e o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Produzimos um molde (de vovó) para a elaboração do nosso estatuto do idoso, em que cada criança, na rodinha, apresentava sua sugestão. Na etapa seguinte, fizemos uma paródia para homenagear a vovó e ensaiamos a música Eu te amo, vovó! (de Cristina Mel).

A integração entre os aspectos sensíveis, afetivos, estéticos e cognitivos, assim como a promoção de interação e comunicação social, conferem caráter significativo à linguagem musical.

Preparamos o convite e convidamos cada vovó para o chá dedicado a ela, no qual trocamos ideias e experiências; em seguida as homenageamos. Algumas vovós foram até as salas de aula contar histórias, brincar e conversar com as crianças, pentear cabelos etc., de acordo com sua disponibilidade.

Tudo foi sendo aos poucos registrado pela lente da câmera fotográfica e pelo olhar dos educandos.

Nosso estatuto do idoso:

Prato, garfo e facaDar comidinha
OlhoDar atenção
CoraçãoDar carinho
FamíliaPedir a bênção
AsteriscoRespeitar
Bolsas e sacolasAjudar

Interessante que algumas crianças, durante as produções, questionaram o “modelo de vovó” proposto pela educadora, afirmando que sua avó não era assim (com óculos, cabelo branco etc.). É essencial valorizar o cotidiano do educando e estimular a leitura crítica do mundo, visto que este é um sujeito ativo e participativo em constante interação com seu meio social, que está em permanente construção.

Além de bem-sucedida, a experiência mostrou com muita sensibilidade o papel da vovó na vida de nossas crianças dentro do espaço da creche. Socializamos histórias de vida e percebemos a importância da terceira idade, principalmente o valor do papel da vovó na vida de nossas crianças, numa conscientização que deve perdurar por toda a vida.

Referências bibliográficas

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

MULTIEDUCAÇÃO. Núcleo Curricular Básico. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Educação, 1996.

BRASIL, MEC. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998.

SISTO, C. Leitura e oralidade. Seminário da PROLER. Vitória da Conquista, 1992.

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Publicado em 2 de junho de 2009.

Publicado em 02 de junho de 2009