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Para além do que aparece

Ieda Magri

Flowerville, uma cidade high tech, envidraçada, com design altamente sofisticado; Nova Esplanada, uma tentativa de cidade modelo que não deu certo, construída sobre restos, pedregulhos, solo arruinado onde nada nasce; Cidade Velha; Moreirão, “o Maracanã dos ferros-velhos”. Esses são espaços que coexistem no romance As sementes de Flowerville, de Sérgio Rodrigues.

A disparidade de beleza entre um mundo a que todos aspiram - o mundo de Flowerville – e o mundo do qual todos querem sair – o resto das cidades – não é o único pressuposto que anima esse desejo de exílio. É que, para ser visto e admirado, é preciso estar em Flowerville. É assim que Nora, uma escritora abalada pela morte do filho ainda na barriga, Neumani, um matemático que sonha em decifrar o teorema de Fermat, e Gabriel, um fotógrafo que acaba incomodando a ordem de Flowerville, vivem para entrar no mundinho de aparência da cidade florida, projetada e controlada, promessa de futuro e felicidade. Mas nem todos querem simplesmente entrar no mundo maravilhoso do gozo ininterrupto: alguns querem herdá-lo.

Em frente à Nova Esplanada, um grupo de sem-teto ameaça tomar a cidade desabitada; no subterrâneo de uma antiga farmácia e campo de extermínio, animado pelo manifesto comunista, um velho sócio de Peçanha – o todo-poderoso criador de Flowerville – se dedica ao projeto de instalar uma nova ordem. O que esse grupo de mendigos tem a ver com um ex-sócio rancoroso? Bem mais do que o começo do livro faz o leitor supor.

Como retrato irônico e extremamente pessimista do mundo real, o livro de Sérgio Rodrigues mostra o simulacro do mundo midiático, a falência e a continuação da busca de realização individual do sonho americano de casa, filho e cachorro, a disparidade social presente em qualquer megalópole contemporânea e a confusão da resistência – e por que não dizer? – da pseudoesquerda perdida em projetos condenados ao fracasso que, no fim das contas, pressupõe somente o rodízio dos donos do poder. Em As sementes de Flowerville o projeto de tomar o poder e instaurar um novo estado, vamos descobrir na leitura, é embalado por um projeto de vingança pessoal.

Essa Flowerville da ficção faz saltar aos olhos todo o conforto e a ostentação dos condomínios de luxo da Barra da Tijuca, em contraste com a crescente favelização da cidade do Rio de Janeiro; a tentativa das campanhas publicitárias, que insistem em separar esses espaços que tendem a se juntar cada vez mais, por maior que seja a vigilância e o investimento em segurança; as Linhas Vermelhas e Amarelas que borram o traçado dessa almejada separação.

Com uma trama pra lá de complexa e uma linguagem ágil, o livro vai além do que narra, tocando fundo na questão da falta de alternativas ao sistema capitalista. Afinal, como na ficção de Sérgio Rodrigues, acontecem muitas guerras, milhões de vidas são sacrificadas e o opressor sai à larga. Peçanha continua impávido em sua poltrona no alto do Pessanhah Tower, ocupado em contratar alguém capaz de forjar a “Fórmula da Sociedade Ideal” – para ele uma cidade-nação na qual cada pessoa tem seu valor definido por sua condição social, e seu voto, por conseguinte, obedece a tal condição.

A trama é narrada pelas personagens, que se revezam introduzindo diferentes pontos de vista. Nora, que no início do livro tem tudo para ser uma personagem secundária, acaba por se revelar portadora de um segredo capaz de mudar o destino de Flowerville. Não é coincidência que se pense escritora e abençoada: vai, nessa personagem, uma alfinetada na egolatria dos escritores que estão começando a tatear o universo da escrita. E ela se revela, principalmente, na linguagem colocada em seu caderno, que difere de toda a outra construída no livro. Nora tem dicção própria; sua linguagem é intencionalmente forçada, parodiando as diluidoras de Clarice Lispector com suas preocupações exageradamente existenciais.

Ao dar voz a cada uma das personagens, Sérgio Rodrigues escapa da armadilha do narrador ideológico que manipula a ação; deixa, assim, que suas criaturas exponham contradições e desejos, fazendo ressaltar o mundo em que estão inseridas e que as manipula. O leitor não sai da experiência sem ser contagiado: é convocado a pensar no subterrâneo, no que se passa ao seu redor para além do que aparece.

Ficha técnica do livro:

  • Título: As Sementes de Flowerville
  • Autor: Sérgio Rodrigues
  • Gênero: Romance
  • Produção: Objetiva

Sérgio Rodrigues é autor também de O homem que matou o escritor (Objetiva, 2000); foi editor do site NoMínimo, onde assinava a coluna diária A palavra é... e o blog Todoprosa.

Publicado em 02/06/2009

Publicado em 02 de junho de 2009