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Onde é “chegar lá”?

Mariana Cruz

As provas bimestrais de diversas escolas estaduais – inclusive a escola onde leciono – agora são, por decisão dos professores, todas objetivas, ou seja, de múltipla escolha. Eu, professora da área de humanas, tive muita dificuldade em aceitar tal mudança e em elaborar uma prova desse tipo. Mas como foi uma decisão da maioria, tive de acatar. Claro que há provas objetivas muito bem elaboradas, que exigem bastante raciocínio. Vejo, porém, alguns problemas na aplicação de tais provas, tanto nas mais bem elaboradas quanto nas mais simples. Alguns alunos meus têm grande dificuldade em interpretar textos e, muitas vezes, provas objetivas com enunciados que exigem alto grau de interpretação não estariam ao alcance deles.

Por outro lado, aquelas provas de múltipla escolha mais simples estariam ao alcance deles e de qualquer um; entretanto, creio eu, não acrescentariam muita coisa a eles nem aos professores. Assim, a prova escrita dá chance ao aluno de desenvolver o que entendeu da matéria através de suas próprias palavras. Ao mexer com essa ferramenta única e individual que é sua linguagem, além exercer a capacidade de argumentação, de exposição de um ponto de vista, que não necessariamente é o que está contido em uma das alternativas a, b, c, d ou e, o aluno pode expressar outro ponto de vista que nem o professor nem os livros tinham contemplado. Com grandes chances de estar errado, é verdade, mas também com chances de estar certo. A múltipla escolha muitas vezes limita as formas de interpretar um texto. Não é à toa que é contada por aí a história de um escritor que, ao responder à prova de múltipla escolha sobre seu próprio texto, errou diversas questões interpretativas. Não sei se é fato, mas é algo bem possível de ocorrer.

As provas objetivas têm vantagens, é claro. A correção para os professores é muito mais rápida e fácil. Nas provas dissertativas, eu, apesar de não ser professora de português, acabo involuntariamente exercendo tal função, pois além dos livros de apoio, fico com um dicionário e uma gramática ao meu lado para auxiliar na correção do texto. Não raro, releio diversas vezes a resposta de um aluno para entender o que ele quis dizer, faço cálculos malucos para avaliar a porcentagem de acerto na questão... Enfim, é um trabalhão. Mas qual seria o principal argumento da substituição gradual das provas dissertativas pelas provas objetivas? Preparação para o vestibular e para os vários concursos que pipocam por aí!

Esse é o grande telos, a finalidade dos alunos. Tudo é feito, planejado, pensado em prol da aprovação. Penso que, por vezes, essa histeria vestibulística e concursal pode ofuscar o período mais importante de formação do indivíduo – infância e adolescência –, porque, ao invés de se preocuparem com o próprio processo da formação pessoal, do caráter dele, preocupam-se com os conteúdos apreendidos. Tudo em prol de uma carreira estável, um salário pomposo, uma posição de status. Danem-se as úlceras, as fragilidades emocionais, as frustrações profissionais que podem vir daí. Uma boa remuneração paga tudo: o arrependimento de não ter seguido a vocação, uma infância sem brincadeiras, uma adolescência sem aventuras. Quando mal trabalhada, tal preparação para um futuro de sucesso profissional pode significar um fracasso pessoal. Daí a necessidade de levar em consideração o aluno-pessoa, o ser humano.

Quando eu era estudante, a preocupação com o vestibular começava no Ensino Médio. Agora, inicia-se na Educação Infantil: crianças de cinco anos fazendo “vestibulinhos” para entrar nas escolas com os maiores índices de aprovação. E assim separa-se “o joio do trigo”. Aulas de caligrafia, para que todos tenham uma letra correta, uniforme, parecida. Para que todos “cheguem lá”. Aulas de desenho, música, teatro e outros estímulos à criatividade, cada vez mais relegados ao segundo plano: isso não soma pontos no vestibular. O importante é “chegar lá”. Quando alguém usa tal expressão, sempre me pergunto: “chegar lá” aonde, cara pálida? Ser um profissional bem-sucedido, casado com uma moça de boa família, ter dois filhos lindos, que também serão bem-sucedidos e também se casarão com pessoas de boa família? Trocar de carro todo ano? O tal do “lá” deve estar em todas essas coisas e em tantas outras que muitos queremos; mas será que a pergunta mais fundamental não está sendo esquecida? Às vezes tal fôrma não serve para todos. Para alguns é um verdadeiro aprisionamento. Esse “chegar lá” não poderia ser, simplesmente, um estado de espírito? Estar bem, feliz, tranquilo. Mesmo tais elementos não são permanentes, são simples momentos. Não se chega a um estado de felicidade e fica-se lá ad aeternun. Um carro novo pode dar felicidade por alguns instantes, talvez menos do que um livro marcante ou apenas o tempo de o vizinho ter comprado um carro mais caro.  Quem tem grande número de bens acumulados pode ser considerado alguém que “chegou lá”? Se assim for, a maioria dos grandes homens da história – Jesus, Sócrates, Gandhi, entre outros – jamais chegou.

Às vezes temos de lançar mão da batida metáfora zen de que mais vale o que se aprende no caminho de subida da montanha do que quando se chega ao topo. Assim é a vida: o caminho, o processo, a aprendizagem. Andar, andar, e andar. “Chegar lá” dá ideia de algo acabado. Por isso mesmo, convenhamos, o único lugar aonde se “chega lá” definitivamente é o túmulo.

Publicado em 21 de julho de 2009.

Publicado em 21 de julho de 2009

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