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O saber sob o véu da soberba

Armando Correa de Siqueira Neto

Psicólogo e professor

Embora muita gente perceba a mudança de alguns pontos de vista pessoais no decorrer da vida, não reconhece, contudo, a fragilidade do seu saber mutante, ainda que cada transformação denote em si mesma a limitação existente no ser humano. Ou seja, se uma opinião do passado tornou-se diferente no presente, diz-se, distorcidamente, que ela apenas sofreu um ajuste de força maior, a fim de minimizar a situação. A autoimposição é a de que, se o homem se acha revestido da razão num dado momento, não há porque se contradizer com o porvir, admitindo, de antemão, que já se encontra errado, ou relativamente certo. Seria doloroso senão “humilhante” aceitar que pouco se sabe sobre o conhecimento. Reduz-se, dessa forma, porém, a marcha da própria evolução. Quem acha que sabe o suficiente, pouco tem com que se preocupar em conhecer mais.

Ainda que se diga que há muito para se aprender, tal afirmação cai por terra rapidamente quando a escuridão da arrogância faz cegar o bom senso em qualquer discussão (mesmo a mais insignificante), pois, na base da furtiva disputa, encerra-se o cerne da questão: quem sabe tudo? O orgulho obsessivo em manter-se no teto intelectual emerge prontamente, fazendo empalidecer, com facilidade, a pretensa humildade que se apresentou no piso da hipocrisia momentos antes. Logo, vale a pena perguntar: Quantas pessoas se dão conta de tal insensatez?

Cumpre-se ponderar a respeito, apoiando-se em perspectivas que vão além do que a vista alcança. Ou melhor, acolá do que o psiquismo esconde. O cérebro humano, revela o pesquisador estadunidense Robert Wright, “é, em grande parte, uma máquina de ganhar discussões, uma máquina de convencer os outros que seu dono está certo – e, portanto, uma máquina de convencer seu dono do mesmo”. Ou, como descreve o Professor Eduardo Giannetti: “O hipócrita interior que nos habita em segredo é um animal distinto do hipócrita social que nos ronda e assedia. Como um sedutor sutil e insinuante, mas astuciosamente dissimulado e oblíquo, ele sabe que ‘a melhor maneira de persuadir consiste em não persuadir’. A mentira que contamos em silêncio para nós mesmos não mente, seduz”. É o autoengano em ação.

Todavia, perde-se muito ao ignorar e manter a condição autoiludida em que se encontra o homem, fruto da artimanha psicológica que lhe serve para se defender do mal-estar causado pela realidade dos fatos. Não obstante, é preciso crescer e alcançar o amadurecimento através da reflexão constante, permitindo-se enxergar aquilo que se ocultou até então. É, pois, o ponto de partida para compreender que, para cada passo dado na exploração do saber, multiplica-se em dimensão, o campo a ser explorado.

Para tanto, a humildade deve ser cultivada com afinco, e se tornar parceira da autoavaliação, que é, voltar-se para si mesmo, conhecendo-se mais. Resulta-se, portanto, em levantar o véu da soberba e reduzir a ignorância, de um lado, e, de outro, ampliar a consciência e o desenvolvimento.

Publicado em 28 de julho de 2009

Publicado em 28 de julho de 2009