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Vida de elétron na infância

Belmiro Wolski

E lá, naquela mesma nuvenzinha, de repente um grito se ouve, fazendo até os elétrons mais absortos precessarem de susto.
– Venha já para cá moleque safado!
Era um pequeno elétron, que acabava de assumir sua característica de partícula.
– E da outra vez que tentar se esconder utilizando a dualidade onda-partícula, vou colocá-lo preso a uma órbita, de spin para baixo – esbraveja a mãe.
– Quantas vezes já lhe falei para não brincar com os fótons! Quer mudar de órbita? Tudo bem que você já tem carga -1, mas saltos quânticos não são coisa para criança – continua a mãe em tom áspero.

O pequeno elétron, oscilando em torno de sua posição em frente da mãe, pede desculpas:
–Desculpa mãe, mas são eles que vivem se chocando com a gente o tempo todo. E eu só estava brincando com os menos energéticos.
– Tudo bem, desta vez passa. Mas, por falar nisso, onde está seu irmão?
– E como é que eu posso saber? – retruca o pequeno elétron.
– Isto é jeito de responder para a sua mãe, moleque?   
– Ué, não foi a senhora quem me ensinou que não se pode conhecer a posição e velocidade de um elétron por causa do princípio da incerteza? E como a gente está sempre em movimento, logo não posso saber onde está meu irmão.
– Está querendo me provocar, eletronzinho? Você sabe o que eu quis dizer!– responde a mãe com um olhar de reprovação.
– Caraca, a culpa é do Heisenberg e eu é que levo a bronca! – reclama o elétron.
Quando tudo se acalma, o pequeno elétron se aproxima da mãe e, em tom de curiosidade, pergunta:
– Mãe! Como foi que eu nasci?
– Ora, como a maioria dos elétrons. Você nasceu do encontro entre dois elétrons, como está devidamente registrado num diagrama de Feynman.
– E eu já nasci com muita velocidade?
– Mais ou menos, filho, mas não muita – explica a mãe.
– Mas como um amiguinho meu disse que nasceu quase com a velocidade da luz? – insiste o pequeno elétron.
– Ah, tá. Ele deve ter nascido como radiação beta no decaimento de um próton. É outra forma de um elétron nascer – justifica a mãe.
– Mãe, o que é um pósitron? – continua o elétron.
– Pósitron? Bem, filho, pósitron é um elétron também. Mas, só que ... – e, se agachando junto ao ouvido do pequeno elétron, sussurra:
– Eles sentem atração por elétrons e, – se recompondo – hoje em dia isto é comum, mas antigamente havia certo preconceito. Mas, de qualquer forma, não se aproxime deles, pois qualquer contato e você vira radiação!
– Ui mãe, Deus me livre. Não quero morrer – responde o pequeno elétron, encolhido de medo.
– Eu sei filho, ninguém quer morrer, mas um dia isto vai acontecer. Está gravado nas sagradas escrituras eletrônicas: “tu vieste da radiação eletromagnética e a ela retornarás”.
– Quer dizer que eu vou me transformar em radiação eletromagnética de novo? – indaga, curioso, o pequeno elétron.
– Um dia filho, um dia.
– E eu vou reencarnar?
– Certamente que sim, filho, mas não necessariamente como elétron – responde a mãe, já cansada com as perguntas.
– Mas agora chega de perguntas. E alinhe este seu spin! Já não lhe ensinei a postura correta? Quer ter problemas com seu campo magnético?
– Então posso ir brincar com meus amigos? – pergunta o pequeno elétron.
– Pode, mas comporte-se. Não vá gastar muita energia. E lembre-se: nunca queira ocupar o lugar dos outros. Respeite o princípio da exclusão de Pauli. E não me inventem de quererem ir até o zoológico de partículas! – recomenda a zelosa mãe.

E lá vai o pequeno elétron ao encontro da turma.
– E aí, pessoal, vamos brincar no campo magnético? Vamos ver quem faz a curva com maior raio?
– Tudo bem – responde um amiguinho – mas depois vamos lá no campo elétrico. Adoro deslizar nas linhas de força.
– Legal – concorda o pequeno elétron – mas vamos por um só caminho. Não vale ir pela soma de histórias de Feynman. Quem chegar por último é um múon!

E assim, todos viveram irradiados para sempre.

Publicado em 28 de julho de 2009

Publicado em 28 de julho de 2009