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O arco de arjuna

Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia

Crônicas filosóficas

Um dos mais belos e populares textos que a civilização hindu nos legou começa no campo de batalha. Sendo uma pequena parte do Mahabarata (o mais longo poema épico da humanidade), o Bhagavad Gita se inicia com um dilema que perturba Arjuna, líder do clã dos Pandava. O santo guerreiro está com seu arco retesado, apontado para o alto, na iminência de lançar sua seta e começar uma imensa carnificina envolvendo seu próprio clã e o clã inimigo dos Dhritarashtra.  No momento de iniciar a batalha, Arjuna fraqueja. Seus braços tremem, sua boca fica seca, seu cabelo se eriça, sua pele arde. Nesse instante, a narrativa congela e, ao lado do guerreiro, surge o senhor Krishna, que toma forma humana e começa um diálogo.

Bem, se você acha que o senhor Krishna apareceu na história para evitar o combate e impedir o massacre está redondamente enganado. Ele justamente dissuade Arjuna a fazer o contrário. Não nutrir escrúpulos inúteis nem de ilusões, porque “aquilo que é real não pode sofrer a morte”.

Essa é uma ideia recorrente na religião hindu: a oposição entre a ilusão e a realidade. A dor e o prazer, a vida e a morte, as alegrias intensas e as tristezas profundas, tudo isso compõe o espaço da ilusão de nossa própria experiência. Nascer, viver e morrer são aspectos desse estado ilusório que a percepção humana constrói a partir de sua própria e limitada perspectiva. Os homens sofrem na vida porque não conseguem entender a natureza dessa ilusão. O senhor Krishna instiga Arjuna a lançar sua seta e a deixar que seu arco realize a tarefa para o qual foi projetado e dê início ao massacre dos guerreiros dos dois clãs no campo de batalha. A mensagem é simples: “Diz-se que os corpos perecem, mas isso que possui o corpo é eterno. Não pode ser restringido nem destruído”. Justamente por isso é que Arjuna deve lançar sua seta e começar a batalha. Justamente porque é inútil sofrer pelo que é transitório e passageiro, o homem sábio aceita serenamente o prazer e a dor com a mente em equilíbrio.

Curioso, não é? Especialmente se você imagina a religião hindu a partir da imagem de Mahatma Gandhi e da sua Satyagraha (sim, o nome da operação que prendeu Daniel Dantas e agitou o STF nos últimos meses é inspirada na doutrina da não violência do líder hindu). Mas que religião é essa? De que universo ela surgiu? De qual contexto? A partir de quais experiências ela se formou? Algumas religiões são ligadas a grupos étnicos; outras, vinculadas de modo muito intenso a um ou outro livro sagrado. Algumas nascem a partir de profetas ou líderes carismáticos e um punhado delas aparece a partir de alguma doutrina metafísica que fala da vida, da morte, da unidade e da multiplicidade de todas as coisas.

O hinduísmo é a religião de um rio.

O Sarasvati, um mitológico rio primordial que teria dado origem ao Ganges, ao Indo, ao Yamuna e ao Brahmaputra, corria entre as montanhas do Himalaia e o Oceano Índico. Seu curso cortava a terra que há quarenta milhões de anos separou-se da África e rumou em direção a Ásia para, após um grande colapso (que fez surgir a cordilheira onde se encontra o Everest), dar origem à mãe Índia. Se o judaísmo é a religião de um povo, o cristianismo de um Deus que se faz carne e o islamismo de um livro, o hinduísmo é a religião de uma terra, de um rio e de uma cordilheira de montanhas. Não é à toa que um dos elementos rituais mais importantes dessa que é uma das religiões mais antigas da humanidade é o mergulho de purificação nas águas do Rio Ganges. Afundar e emergir das águas do Ganges não diz respeito apenas à higienização cotidiana que os povos tropicais costumam praticar. Submergir e emergir do Ganges, como do Rio Sarasvati, é uma poderosa metáfora para o estado do ser humano que mergulha no rio do tempo, mas que só desperta quando consegue sair de seu interior.

O fluxo do Ganges é como o fluxo da vida. O rio do tempo leva tudo nesse curso do passado para o futuro. O movimento do universo faz com que as pessoas nasçam, cresçam e morram (algumas até cometem, como eu, o desatino de reproduzir). Aquilo que me faz vivo, o oxigênio que eu respiro ininterruptamente desde o dia em que nasci, também envelhece minhas células e me decompõe aos poucos, queimando meu corpo por dentro, até que ele se dissolva e se misture com o mundo que o contém. Esse movimento cria a ilusão do tempo e de seu fluxo.

Entender o dilema de Arjuna e a mensagem do senhor Krishna é perceber a natureza desse imenso rio que leva todos com sua correnteza. Aqueles que submergem nas águas desse rio pensam que tudo é o rio; que tudo é molhado e sufocante como os dias de nossas vidas. Aqueles que vivem submersos no rio do tempo sofrem pelos vivos e sofrem pelos mortos, porque pensam que tudo é o tempo e que a dor que a gente sente por estar passando, por estar vivendo e estar, de certa forma, também morrendo, é tudo que temos. Aqueles que emergem do rio conseguem ver as coisas por outro ângulo. Eles conseguem perceber que, sob o fluxo do rio, há uma ampla superfície que não é tocada pelo tempo, que não passa, não morre ou perece. A religião hindu é tão fluida quanto o rio de nossa vida. Sem hierarquia, sem um fundador oficial, sem um conjunto fixo de regras ou de doutrinas escritas em algum livro. A única fôrma fixa na religião de Arjuna é a mãe Índia, a terra pela qual o curso dos grandes rios que descem das montanhas nevadas corre. Ver as coisas claramente é assim. Saber que não nos banhamos nas mesmas águas de um rio duas vezes porque tudo passa nesta vida. Tudo, menos o rio e as margens que o contêm e que o fazem fluir em um único e irredutível curso.

Publicado em 11 de agosto de 2009.

Publicado em 11 de agosto de 2009