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Mídia na Educação Infantil

Cristiane da Silva Brandão

Professora e cientista social

No mundo globalizado de hoje, da era da informação e da comunicação, é preciso saber como e que recursos de mídia podem ser utilizados em nossas salas de aula, principalmente, quando se trata da primeira infância.

Na educação infantil, primeira etapa da educação básica brasileira, os profissionais podem usar e abusar de diferentes ferramentas da multimídia, enriquecendo as propostas pedagógicas e dinamizando as experiências de trabalho a partir de múltiplas linguagens nesse ambiente educacional de excelência para as crianças. A televisão, por exemplo, é um instrumento de mídia de longo alcance, pois a maioria de nossas crianças tem acesso a ela de uma forma ou de outra: no seu lar, na escola... Uma concorrência que não deve ser ignorada, antes pode ser vista e trabalhada de modo positivo no contexto escolar.

Uma experiência bem-sucedida ocorreu na Creche Municipal Sonho Feliz, no Rio de Janeiro, proporcionando um resultado inesperado e bastante eficaz, marcando a relação educadora-educando.

O objetivo era desenvolver atividades que despertassem o interesse e a curiosidade das crianças por lendas brasileiras, bem como resgatar a cultura popular por meio de histórias e cantigas de roda. Durante a rodinha, conversou-se a respeito de algumas lendas, como o Curupira e a sereia Iara. Em seguida, foi perguntado se as crianças conheciam alguma sereia. Algumas levantaram o dedo, afirmando: “eu conheço, tia. A sereia Coral!”. A educadora, então, indagou: “mas quem é Coral?”. As crianças responderam: “é a sereia amiga da Amy, a menina da mochila azul”, referindo-se à novela que estava sendo exibida na televisão em horário nobre.

Aproveitando aquela realidade das crianças (quase todas assistiam à novela), desenvolveram-se atividades como pintura e colagem na confecção de seres que vivem na água, reconto de lendas e algumas conchinhas foram expostas em sala de aula, relembrando as atividades desenvolvidas (no primeiro bimestre letivo) sobre o mar, a importância da água, a preservação do meio ambiente, a poluição etc.

Naquela mesma semana, a educadora surpreendeu as crianças, trazendo a personagem da lenda para a sala de aula. Enquanto assistiam a um vídeo, ela se produziu como uma sereia, com coisas improvisadas: um top coral, uma calça comprida colante e uma tiara feita de conchinhas do mar, além de colchonetes azuis simulando o mar. Quando retornaram à sala, a outra educadora ficou espantada com a figura inusitada à sua frente: “Nossa! O que é isso?” As crianças prontamente responderam: “É a sereia, tia. Não tá vendo, ela veio visitar a gente!”. Começaram a conversar e a indagar: “oi, sereia, qual é o seu nome? Como você veio? Eu posso ir com você? O mar tá poluído?” A sereia aproveitou a oportunidade para conscientizar as crianças acerca dos cuidados que deveriam ter com a água e, sobretudo, com o mar, as praias, a partir de uma ilustração (criada pela educadora) a respeito de um barco que estava poluindo o mar, sujando a casa dos seres marinhos, trazendo doenças e mortes para os habitantes.

A sereia teve que partir; entretanto, é interessante que em nenhum momento foi dito que era a tia que estava ali... Os dias passaram e um menino, bastante espoleta, estava sempre sendo chamado a atenção devido ao seu comportamento. Até que um dia ele voltou-se para a educadora (a mesma que havia se transformado em uma sereia) e disse: “Tia, por que a gente não faz uma cartinha pra sereia voltar aqui na creche? Eu queria contar um segredo pra ela, porque ela é muito boazinha, não briga comigo e cuida do mar.”

O fato marcou muito o relacionamento entre a educadora e o educando, que, em outras palavras, estava solicitando mais carinho e mais compreensão por parte dela (educadora); afinal de contas, era apenas uma criança de quatro anos de idade que começava a desabrochar para a vida. Portanto, constatou-se que o relacionamento afetivo mantido entre a sereia e a protagonista da novela também ocasionou um efeito mágico em sala de aula. Henri Wallon destaca a importância do aspecto emocional/afetivo na relação com o meio em que vivemos; o/a outro/a também apresenta extrema importância na trajetória da construção infantil.

Tudo isso mostrou como é interessante trabalhar lenda brasileira associada à mídia (neste caso, a televisão) presente na realidade da criança, favorecendo um melhor resultado no processo ensino-aprendizagem. Nessa experiência específica, foi possível trabalhar, com o apoio da mídia, a lenda e a afetividade, uma integração eficaz para o desenvolvimento da infância pequena.

Referências bibliográficas

GALVÃO, I. Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Petrópolis: Vozes, 1995.

Publicado em 18 de agosto de 2009

Publicado em 18 de agosto de 2009