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O intelectual Lima Barreto: críticas e críticos

Vinícius Alves

Professor da rede pública e mestrando pelo Cefet-MG

Talvez mesmo seja angústia de escritor, porque vivo cheio de dúvidas e hesito de dia para dia em continuar a escrevê-lo. Não é o seu valor literário que me preocupa; é a sua utilidade para o fim que almejo.

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Este texto propõe um diálogo em que se possa situar a confluência de temas como: literatura, cultura e política na obra de Lima Barreto e a recepção crítica sociológica e seus desdobramentos discursivos, em consonância com o pensamento de intelectuais como Antonio Cândido, Beatriz Resende, Carlos Nelson Coutinho e Nicolau Sevcenko e a relação do papel do intelectual e o poder, de acordo com o pensamento de Norberto Bobbio, procurando pensar os diversos campos dispostos e seus impasses, na busca por respostas à incessante indagação sobre as razões das críticas sociais e políticas contidas na obra barretiana, principalmente em Recordações do Escrivão Isaías Caminha, e as razões da oposição dos seus críticos.

Literatura, cultura e política, nesta tríade contida no excerto acima, parecem ser as grandes certezas da “angústia” de Lima Barreto. Literatura enquanto escritor, cultura enquanto o valor literário de sua obra e política enquanto finalidade precípua de suas denúncias sociais, injustiças e preconceitos. Sabendo que vários outros dissecaram sobre o assunto, receio, escrevendo eu também, ser considerado repetitivo ou até mesmo presunçoso, mas tenho a intenção de produzir este texto escrevendo coisa útil, que possa subsidiar as discussões sobre a presença marcante e sempre atual de Lima Barreto, sua obra e o desprezo dos intelectuais de seu tempo.

No início de Os olhos, a barca e o espelho, Antonio Cândido indica que a literatura barretiana devia conter alguns requisitos indispensáveis como: sinceridade na expressão de ideias e sentimentos, clareza e simplicidade, além de dar destaque a problemas humanos em geral e sociais em particular. Esses requisitos, evidentemente, sempre deixaram claro o que era a visão de mundo do homem e escritor Lima Barreto e a forma como ele iria utilizar a literatura como instrumento de formação de opiniões, denúncia sobre o que sua inteligência entendia como formas de opressão e injustiças nos diversos níveis da sociedade, como contribuição para a libertação dos homens e melhoria para uma convivência social mais igualitária e transformadora de consciências.

A percepção crítica do escritor sobre seu tempo e o momento histórico é que nos faz perceber e entender alguns dos motivos de suas incessantes dúvidas e hesitações que a cada dia aumentavam mais e mais as suas angústias, como homem de cultura e comprometido com seu povo e sua gente, tanto que Osman Lins, em Espaço Romanesco, diz que Lima Barreto foi “um escritor que não silenciou sobre o seu tempo”.

Lima Barreto, a despeito de derrotas, humilhações, dores, desprezos e ressentimentos, procurou sempre uma escrita comprometida com a necessidade de mudanças na sociedade, na vida urbana, confiando na sua capacidade de inovar – fato este comprovado pelas intenções contidas nos temas de suas obras e que demonstrou e ainda demonstra extrema atualidade –, mas principalmente nos argumentos utilizados para demonstrar sua indignação contra o preconceito, para criticar a hipocrisia da sociedade, as instituições, a mediocridade, as ideias vencedoras, os vícios e costumes da sociedade, sem perder ou ser traído por sua consciência crítica, ainda que contraditória.

Senão vejamos um argumento-desabafo de Isaías Caminha para exemplificar:

Se me esforço por fazê-lo [ao meu livro] literário é para que ele possa ser lido, pois quero falar das minhas dores e dos meus sentimentos ao espírito geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele. É este o meu propósito, o meu único propósito.

A propósito, são evidentes as contradições entre o homem e o escritor; se o homem Lima Barreto se sentia oprimido, desamparado e quase sem forças para combater as adversidades e as discriminações provenientes da sua origem pobre e mulata, o escritor Lima Barreto parece ter se utilizado exatamente daquilo tudo que fazia o homem sofrer para absorver uma energia que o fizesse ter ainda mais forças para combater os males e vícios da sociedade por meio das reflexões inteligentes e vivazes de sua obra.

Com base ainda nas suas contradições, o homem Lima Barreto transfere para o escritor a tarefa de valorizar e institucionalizar seus medos, sentimentos e pensamentos, pela fala de Isaías Caminha: “o meu sofrimento e as minhas dores não encontravam o menor eco fora de mim”. Percebe-se aí o terrível conflito do homem que pensava a literatura como exercício da sinceridade e da contribuição para libertar o homem e a sociedade, constatando, então, a falta de reciprocidade dessa sociedade até para a libertação de seus próprios fantasmas.

Em Impressões de Leitura, Lima Barreto deixa bem clara a sua crença no poder da literatura, recorrendo a Guyau:

É a expressão da vida refletida e consciente e evoca em nós, ao mesmo tempo, a consciência mais profunda da existência, os sentimentos mais elevados, os pensamentos mais sublimes. Ela ergue o homem de sua vida pessoal à vida universal, não só pela sua participação nas ideias e crenças gerais, mas também ainda pelos sentimentos profundamente humanos que exprime.

Nesta citação a que Lima Barreto recorre, reforçam-se alguns de seus preceitos a respeito da importância da literatura como forma de transformação do homem: consciência, sentimentos elevados, pensamentos sublimes, ideias e sentimentos humanos. Sobre esses sentimentos profundamente humanos que exprime, recorro então ao seu texto introdutório “Breve Notícia”, quando da apresentação de Recordações do Escrivão Isaías Caminha, para dar voz às dúvidas, hesitações e sentimentos do homem Lima Barreto:

Não é meu propósito também fazer uma obra de ódio, de revolta enfim; mas uma defesa a acusações deduzidas superficialmente de aparências cuja essência explicadora, as mais das vezes, está na sociedade e não no indivíduo desprovido de tudo, família, de afetos, de simpatias, de fortuna, isolado contra inimigos que o rodeiam, armados da velocidade da bala e da insídia do veneno.

Infere-se, então, que Lima Barreto faz opção de amor pela literatura e mais uma vez transfere para Isaías Caminha a responsabilidade de escrever obras com sentimentos e pensamentos, que demonstrem a “sinceridade da minha revolta, que vem bem do amor e não do ódio, como podem supor”.

Nas delimitações propostas dentro da tríade: literatura, cultura e política, finalizo o entendimento sobre a visão de Lima Barreto no que concerne à literatura, sua força seu poder de fazer ligações entre os homens, recorrendo novamente ao texto Impressões de Leitura:

A arte, literatura, tendo o poder de transmitir sentimentos e ideias, sob a forma de sentimentos, trabalha pela união da espécie; assim trabalhando, concorre, portanto, para o seu acréscimo de inteligência e de felicidade.

Nesta tríade, que entendo necessária, passo agora a dissecar sobre os outros dois tópicos – cultura e política – que, embora agindo em esferas sociais distintas, com problemáticas também distintas, não podem ser concebidos como se fossem autônomos entre si; como Lima Barreto procurou, com suas críticas, mostrar a relação entre as ideias e a política dentro de uma sociedade que ele queria livre, participativa, opondo-se aos padrões estéticos dominantes, discutindo posições e responsabilidades dos intelectuais, bem como se engajando em uma “literatura militante”, enquanto intelectual independente.

Acerca dessa discussão, em Lima Barreto: A opção pela marginália a professora Beatriz Resende procura distinguir o estabelecimento do conflito entre a produção literária de Lima Barreto e a recepção crítica dos detentores do poder, os “mandarins da literatura”, conflito este que tem duas faces, já que, se de um lado preserva a obra, por outro lado a isola, negando a legitimação do seu discurso, no sentido de que Lima Barreto, assumindo-se um intelectual independente, contrário à cooptação do poder, se volta contra os intelectuais no campo estético, pois estes só valorizam as obras por conteúdos politicamente corretos, por critérios exclusivamente ideológicos.

E é justamente a imposição de critérios pela crítica literária que faz Lima Barreto criticar irônica e veementemente alguns deles em suas obras: o critério da beleza, por exemplo, em Impressões de Leitura, é objeto primordial na estrutura de argumentação do autor. Também em Recordações do Escrivão Isaías Caminha, o critério da beleza marca presença no diálogo entre as personagens Caminha e Gregoróvitch durante um almoço, ficando clara a intenção de Lima Barreto de criticar e ironizar intelectuais, suas convicções e critérios:

Não sei como a conversa foi variar para a beleza. Ele riu-se da nossa opinião habitual dela, da insignificância do critério dos nossos literatos. Gente, disse-me ele, que vive perturbada, desejosa de realizar ideias de povos mortos, ideias que já se esgotaram; prisioneira da arqueologia, e muito certa que a verdade está aí, como se houvesse uma beleza absoluta, existindo fora de nós e independente de nós. Por aí ele fez uma formidável charge aos nossos intelectuais. Eu sinto não poder reproduzi-la aqui.

Sempre comprometido com a realidade social de seu tempo, com seu papel de intelectual e homem de cultura, Lima Barreto criticava o conservadorismo da sociedade e da política, a organização social da Primeira República, traçando ele mesmo um painel crítico do Brasil no início do século XX, afirmando que “a nossa burguesia republicana é a mais inepta de todas as burguesias”, combatendo as distorções da República, tudo isso dentro de um quadro mundial sacudido por guerras e revoluções.

Lima Barreto podia até não saber bem o que queria, mas sabia muito bem o que não queria, e com certeza não queria cooptar o poder, como faziam os outros intelectuais e suas relações sociais com o poder estabelecido, deixando na sombra as diversas contradições sociais do Brasil de então, abandonando as funções sociais e humanísticas da literatura.

Nessa relação entre cultura e política talvez residisse um pouco da revolta de Lima Barreto contra aqueles que silenciaram não apenas em relação à sua obra, mas também em relação ao cidadão, cidadão este que se sentia vítima das mesmas contradições, dos mesmos preconceitos, das mesmas indiferenças que esses intelectuais destinavam ao seu povo, à sua gente.

Para Carlos Nelson Coutinho, em O Significado de Lima Barreto na Literatura Brasileira, “ao sentir o pulsar do país e de sua gente” Lima Barreto se propôs criar uma literatura de grandeza estética e com profundo espírito popular e democrático, e assiste a essa mesma massa popular ver sendo dissolvida e eliminada a sua participação na criação da história do país, através da via prussiana, uma das consequências do intimismo à sombra do poder, onde os intelectuais “provocam” um divórcio entre o povo e uma nação.

Para ironizar essa camada de intelectuais, Lima Barreto utiliza-se de uma fala de Isaías Caminha para criticar o personagem “literato” Floc:

Sofria alguma coisa... Nada quisera, pois estava à espera de uma reorganização na diplomacia para obter o lugar de primeiro secretário. Era o seu sonho a diplomacia, o paraíso, a sua felicidade. E ele rematava a narração liricamente: - Oh! A diplomacia! Vocês não imaginam o que é! É a mais deliciosa vida que há... entra-se em toda parte, têm-se os melhores lugares; é-se cercado, amimado... Uma delícia! Pode-se ser burro ou inteligente que é o mesmo!

Como recusava o intimismo à sombra do poder, Lima Barreto se posiciona claramente a favor das classes sociais humildes, com a intenção de apontar um novo caminho para que elas passassem a funcionar como sujeitos participativos da história, criando-se assim uma perspectiva nacional-popular. Com relação a essa perspectiva, em Literatura como Missão Nicolau Sevcenko faz uma análise estrutural de preconceitos, progressos sociais, críticas às estéticas literárias, seus diversos desdobramentos dentro do exercício intelectual como atitude política, procurando abranger também um pouco da questão do poder e o papel do intelectual.

Lima Barreto, cumprindo o seu papel de intelectual, realizava sua função de homem de cultura, escrevendo sobre todos os assuntos que ele entendia serem necessários para a libertação do homem e da sociedade, exercendo o poder ideológico sobre as mentes pela produção e transmissão de ideias, visões de mundo, mediante o uso da palavra, que deve ser sempre uma das responsabilidades dos intelectuais.

Criticava a falta de responsabilidade e de comprometimento dos intelectuais com relação às esferas políticas, sociais e culturais de seu tempo, produzindo obras que denunciavam os erros da Primeira República: urbanização desenfreada, falta de construção de uma verdadeira ideia de nação, falta de clareza do sistema de ideias políticas e sociais, valores antiliberais e um processo ideológico oligárquico que forjou uma ideologia autoritária do Estado.

Lima Barreto realizava, assim, uma análise dos intelectuais referente às relações entre cultura e política; como já disseram que política é a arte do possível, entende ser possível que os intelectuais participassem da sociedade de forma engajada, no sentido de que servissem à literatura e à coletividade como pensadores independentes.

No capítulo IX de Recordações..., Lima Barreto, ironizando esses intelectuais, utiliza-se de Isaías para criticar o Dr. Loberant:

Diretor-proprietário d’O Globo, jornal independente, órgão do povo e dos sofredores, pesadelo dos ministros, espada de Dâmocles.

Em nota ao pé da página, explica-se a razão da metáfora utilizada, já que o jornalista poderia a qualquer momento, “cair sobre” a cabeça dos poderosos, arruinando-os ou destruindo-lhes a reputação, e Isaías continuava sua análise irônica sobre o Dr. Loberant:

Aquele homem magrinho, fraco de corpo e de inteligência, sem cultura, amedrontava a cidade e o país. Todos o liam; era o jornal dos desgostosos, dos pequenos empregados, dos fracassados de todas as profissões e também dos ricos que não podem ganhar mais e dos destronados das posições e das honras.

Ao longo deste capítulo, Isaías continua a traçar um perfil sarcástico e contundente sobre a personalidade do “intelectual” Loberant: purista linguístico, cultor da língua, um messias. Também volta a disparar seu veneno, mais uma vez, contra o “literato” Floc:

Confundia arte, literatura, pensamento com distrações de salão; não lhes sentia o grande fundo natural, o que pode haver de grandioso na função da arte.

Para Isaías, Floc era:

Ignorante, insciente, com uma leitura de pacotilha, não se animava a desenvolver qualquer teoria, a ter um ponto de vista qualquer; bordava umas banalidades.

Sobre o exercício crítico de Floc:

A sua crítica não obedecia a nenhum sistema; não seguia escola alguma. As suas regras estéticas eram suas relações com o autor, as recomendações recebidas, os títulos universitários, o nascimento e a condição social.

Percebe-se que Lima Barreto entendia claramente que o papel dos intelectuais deveria ser o de assumir funções e responsabilidades, exercer a crítica com competência, para que não continuasse prevalecendo a opinião contrária e exercida pelos incompetentes.

Que deveria ser estabelecida uma crítica onde prevalecessem as discussões e reflexões sinceras, elevadas, analíticas e, principalmente, conscientes e coerentes. Sendo coerente e consciente, o crítico não será contraditório e dirá sempre o necessário e verdadeiro, sabendo exatamente do que fala e ser imparcial.

Norberto Bobbio, em Os Intelectuais e o Poder, explana suas ideias sobre os intelectuais e suas relações com a política, começando por utilizar-se de uma bela metáfora: um menino joga um balde d’água no mar, achando que o nível da água subiria; percebe depois que nada acontecia. É uma comparação implícita sobre o oceano de “escritos” sobre o tema, entendendo que seu texto é apenas um balde d’água.

Entendo ser um texto que se faz fundamental e extremamente necessário sobre as discussões aqui propostas, sobre a problemática das tensões criadas entre a questão do poder e o papel do intelectual, de acordo com a visão de um intelectual que militou na política, ocupou cargo político e nunca se recusou a discutir os temas.

No início do texto, Bobbio propõe que o intelectual não faça coisas, mas reflita sobre as coisas, já que o instrumento de trabalho dos intelectuais deve ser as ideias e que a primeira coisa a fazer deve ser a delimitação do campo de discussão: o que falar e sobre o que falar, de que modo falar, refletir sobre o que os intelectuais fazem e o que devem fazer.

Bobbio sugere, no que tange ao assunto cultura e política, que o debate seja proposicional, sobre a ética ou política dos intelectuais, e que o intelectual deve responder sobre a influência exercida pelas ideias sobre os atos, se a influência existe e em que medida se dá e as delimitações a serem feitas.

No campo das delimitações, no que se refere aos intelectuais e à conotação que lhes é dada, o pensador italiano se refere a eles abarcando os “artistas, poetas, romancistas”, propondo uma análise das relações entre política e cultura, distinguindo duas classes de intelectuais: os ideólogos e os especialistas.

É importante notar a proximidade das ideias contidas na obra de Lima Barreto no início do século XX, com as de Norberto Bobbio, já no final do século, no tocante a questões como separação entre fins e meios, autonomia relativa da cultura mesmo não rechaçando a política, posição dos intelectuais na comunidade nacional, funções nessa comunidade, responsabilidades e culpas.

Há de se notar uma pequena dissonância no discurso de Bobbio, já que prefere falar de responsabilidade a falar de engajamento, já que indaga se o engajamento é compatível com a responsabilidade do intelectual, e quais os compromissos que deve assumir com relação às suas escolhas políticas.

Digo dissonância no sentido de que Bobbio entende que não importa o compromisso e sim a causa, enquanto me parece que, para Lima Barreto, o compromisso já era mais que uma causa a defender: era um projeto de vida claro nos seus sonhos, claros na sua obra.

Lima Barreto deixou, através de sua obra, certezas quanto a princípios democráticos, combate às diversas tipologias de violências, para que se desenvolvesse uma democracia neste país, que houvesse uma divisão igualitária de bens entre os prepotentes e os marginalizados.

Então, dentro desta tríade, espero que tenham ficado abertos novos caminhos que possam nos levar a entender mais e mais a razão das críticas sempre contundentes de Lima Barreto aos intelectuais do seu tempo, no tocante à não-independência ou não-atitude com relação às denúncias sociais, aos preconceitos, à falta de uma ideia de nação, à não-participação do povo, à hipocrisia, à corrupção, ao abismo da distribuição de renda entre ricos e pobres, à não-implantação da reforma agrária e a tudo aquilo que continua atual desde o seu tempo até aos nossos dias.

Assim, parece que Lima Barreto procurou todo o tempo não deixar que suas angústias o fizessem calar diante do silêncio desses intelectuais; fez distinções entre os fins de suas denúncias sociais em contraposição aos políticos, de acordo com as exigências do homem comum, pois, enquanto ideólogo, manteve acesa a chama da fé e da convicção, sabendo sempre das suas responsabilidades, exercendo críticas constantes ao poder e aos intelectuais, sabedor de que devia exercer, sim, o seu poder de homem do povo estando fora do poder.

Como seu poder ideológico não encontrava ressonância nos meios de produção do conhecimento, Lima Barreto a cada dia aumentava mais a produção de uma obra considerada “marginal”, mas com certeza militante e ativa.

Assim, após a produção deste texto, espero de alguma forma ter contribuído para indicar razões para as tensões, conflitos, hesitações, dúvidas e angústias que cercaram o grande escritor carioca.

Desesperava-me o mau emprego dos meus dias, a minha passividade, o abandono dos grandes ideais que alimentara. Não; eu não tinha sabido arrancar da minha natureza o grande homem que desejara ser; abatera-me diante da sociedade; não soubera revelar-me com força. Com vontade e grandeza... Sentia bem a desproporção entre o meu destino e os meus primeiros desejos; mas ia

(Isaías Caminha)

BIBLIOGRAFIA

BARRETO, Lima. Impressões de Leitura. Prefácio de M. Cavalcanti Proença. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1961.

BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Prefácio de Carmem Lydia de Souza Dias. São Paulo: Ática, 1994.

BOBBIO, Norberto. Os intelectuais e o poder. In: Norberto Bobbio: o filósofo e a política. Rio de Janeiro: Contraponto, 2003. p. 458-492.

CÂNDIDO, Antonio. Os olhos, a barca e o espelho. In: CÂNDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987. p. 39-50.

COUTINHO, Carlos Nelson. O significado de Lima Barreto na literatura brasileira. In: COUTINHO, Carlos Nelson et al. Realismo e anti-realismo na literatura brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974. p. 1-56.

RESENDE, Beatriz. Lima Barreto: a opção pela marginália. In: SCHWARZ, Roberto (Ed.). Os pobres na literatura brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 73-78.

 

Publicado em 25 de agosto de 2009

Publicado em 25 de agosto de 2009