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Pavio aceso: Oi Kabum! seleciona alunos para nova escola de arte e tecnologia

Lorenzo Aldé

Jornalista e educador da Oficina da Palavra na Oi Kabum! Rio

Neste exato momento, 15 educadores se dedicam a construir um quebra-cabeça. Daqui a menos de um mês, eles inauguram no Rio de Janeiro uma escola que se pretende bem diferente das tradicionais.

A Oi Kabum! se intitula uma Escola de Arte e Tecnologia. Mas isso é apenas o início da conversa. A intenção é oferecer formação profissional gratuita para jovens moradores de comunidades de baixa renda, em áreas vinculadas às tecnologias de informação e comunicação (conhecidas como TICs). São cursos em cinco especialidades: vídeo, fotografia, design gráfico, computação gráfica e webdesign.

Após um ano e meio, os jovens terão a oportunidade de, durante mais um ano, frequentar um “núcleo de produção” (espécie de incubadora de serviços) para começar a exercer seus novos ofícios e construir sua inserção profissional. E espera-se que não parem por aí: toda a formação é também voltada para a capacidade de disseminação desses conhecimentos e oportunidades. Ou seja: o que se quer é um jovem com capacidade e desejo de intervir em sua comunidade.

A escola já existe em Recife e Salvador, e agora amplia sua atuação para Belo Horizonte e Rio de Janeiro (onde houve um projeto-piloto alguns anos atrás). E, embora o modelo seja igual em todas as cidades, cada equipe tem autonomia para construir seu próprio currículo. Daí o quebra-cabeça em que estão metidos os educadores do Rio, entre os quais me incluo: como conciliar os conteúdos de cada área para tornar a aprendizagem no Oi Kabum! uma experiência verdadeiramente transdisciplinar e multimídia?

Se cada educador é responsável por uma “disciplina”, não deveria haver mistério: elabora-se cada plano de aula individualmente, monta-se a grade da escola e vamos nessa! Mas este é outro diferencial da iniciativa: interdisciplinaridade tem que ser mais do que um belo discurso para se encaixar na rotina escolar só “quando houver tempo ou oportunidade”. Os professores sequer lecionarão sozinhos. Em duplas (ou até trios), devem unir os seus saberes buscando enriquecer a experiência dos alunos e ampliar os horizontes de sua formação. Nada mais natural, em campos que lidam com matérias-primas comuns: arte, criatividade, recursos tecnológicos. Mas vá realizar (e planejar) isso na prática!

Para tornar ainda mais desafiadora a costura sugerida, às cinco áreas especificas juntam-se quatro cursos “transversais”: Oficina da Palavra; História da Arte e Tecnologia; Design Sonoro; e Desenvolvimento Pessoal e Social. Depois de dois meses e meio de “rodízio” – durante os quais experimentam todas as linguagens –, os alunos dividem-se entre as áreas especificas, ou seja, recebem formação técnica em apenas uma delas. As transversais seguem comuns a todos, até o fim do curso. E também os ideais de interdisciplinaridade.

Além da elaboração do planejamento curricular, os 15 educadores da Oi Kabum! precisaram encarar outra parte do quebra-cabeça: como selecionar seus 100 alunos? O processo seletivo vem sendo discutido e elaborado cuidadosamente. A primeira fase consiste apenas numa garimpagem de acordo com os pré-requisitos básicos da escola: idade (16 a 21 anos), renda familiar (para privilegiar jovens que moram em comunidades pobres), matrícula ou formação no Ensino Médio em escola pública. E, desde já, indícios do interesse em trabalhar na área de arte e tecnologia. Na segunda fase a escolha há de ser mais complicada, com uma boa dose de subjetividade.

Afinal, selecionar é fácil, difícil é deixar de fora. Em outras palavras: o lado ingrato de qualquer projeto de inclusão social é a exclusão subentendida. Os 200 jovens saídos da primeira etapa responderão a um questionário mais longo sobre seus gostos, relação com a arte, participação social, visão de mundo. Também participarão de dinâmicas de grupo e serão entrevistados individualmente.

Depois da seleção, nós, educadores, voltaremos a quebrar o pau. Quinze cabeças podem até pensar melhor do que uma, mas não sem intermináveis discussões antes de chegar a um consenso. A simples formulação de uma pergunta no questionário já foi capaz de gerar extenso (e muitas vezes divertido) quiproquó entre os professores. Tolerância, escuta, conciliação e adaptabilidade são lições que estamos exercitando há um bom tempo (desde que os candidatos éramos nós), em reuniões diárias para conceber a escola.

Que alunos queremos? Aquele que demonstra talento artístico e fascínio pela tecnologia? Aquela que tem experiência em trabalhos comunitários? O que se destaca pela liderança, pelo bom humor e pela criatividade? A que está cheia de inquietações diante da realidade social? Ou o outro que parece sempre disposto ao diálogo? Uma coisa é certa: se o jovem reunir todos esses atributos simultaneamente... está dispensado, pois nem precisa de nossa escola para se dar bem na vida (se bem que podemos arranjar-lhe uma vaga na equipe de educadores).

Brincadeira à parte, o fato é que a Oi Kabum! representará, para a vida de muitos deles, uma oportunidade inédita. E justamente por isso não se pode exigir que os candidatos já cheguem “formados” – multitalentosos e articuladores natos. Estes são os objetivos (pretensiosos, reconhecemos) ao fim do curso, e não seus pré-requisitos. Por isso a ênfase no lado subjetivo da seleção, o que alguns de nós chamam de “brilho no olhar”. Entre os selecionados, imaginamos, haverá aqueles arredios, com dificuldades variáveis em se expressar e participar coletivamente... mas nos quais sentimos um potencial de crescimento.

Como toda aposta, só saberemos o resultado bem mais à frente. O quebra-cabeça estará incompleto até 14 de setembro. Aí então se abrirão as portas da Oi Kabum! Rio. E muitas outras histórias passarão a ser escritas — em imagens, palavras, pixels, sons e links — tanto em sala de aula quanto fora dela.

Hoje é Oi. Em breve, esperamos fazer Kabum!

Publicado em 25 de agosto de 2009

Publicado em 25 de agosto de 2009