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Cézanne: A sensação visual ao nível da consciência

Nataraj Trinta

Mestranda em História Social da Cultura na PUC-Rio

Considerado por muitos o pai da pintura moderna ou o artista que realizou o impressionismo integral (Argan, 1992, p. 111), Cézanne construiu uma linguagem que ampliou o horizonte da pesquisa impressionista inicial, mas também a contrariou em muitos de seus dogmas.

Os impressionistas acreditavam que a inteligência visual era uma inteligência específica e que o núcleo verdadeiro da impressão visual era o ponto luminoso descontínuo (que origina a técnica do petits touche), em detrimento de forma e contorno. Buscavam a apreensão do instante, negando o tempo metafísico e afirmando sua fugacidade. Ou seja, aquele instante no momento em que ele aparece no tempo e no espaço. Um exemplo disso é a série de retratos, realizada por Monet, da Catedral de Rouen, uma série de 50 imagens pintadas em horários diferentes, entre 1893 e 1894, reproduzindo a incidência da luz sobre a obra.

O objetivo da pintura não era científico, ou seja, não buscava produzir um conhecimento, mas produzia a emoção visual através de um método de pesquisa. Um verdadeiro estudo da impressão visual na emoção por parte de um pintor que realiza uma obra como um cientista moderno.

O pintor, portanto, adquiria neste momento uma função social nova: representar, através da investigação, o modo como a retina humana detinha a luz. Garantia-se também à pintura um estatuto de saber livre e recobrava seu valor frente à arte fotográfica.

A tradição pictórica priorizava a forma através do desenho e desdenhava da cor e da luz, tratando-os como atributos secundários. Os pintores modernos, por sua vez, procuravam abolir a tridimensionalidade da forma através da redução da palheta aos tons puros e negligenciando o contorno e o escorço (representação a partir das leis da perspectiva). No entanto, continuavam obedecendo a critérios de projeção da tela de cavalete, apresentavam ponto de fuga e mantinham a tela como uma janela sobre a qual se projetava uma cena (não perspectivada dentro dos modelos tradicionais, mas criada a partir de um olhar definido pela perspectiva renascentista).

Cézanne também concebeu sua pintura como pesquisa pura e desinteressada, mas aproximava-se mais da figura de um filósofo. Pesquisava a verdade. Mas o que vem a ser a verdade em pintura?

Inconformado com a tradução da impressão visual que excluía a forma, Cézanne ,antes de reproduzir a sensação visual, buscava construir a imagem com materiais da pintura. O que para muitos de seus contemporâneos pareceu um impressionismo tímido com a volta da profundidade, do contorno, do desenho e do escorço à tela, era nada menos que a tentativa de dar conta da multiplicidade do campo visual.

Já não se preocupava em registrar objetos em um dia X e um momento Y, mas “captar um instante inteiro”, pintar um Poussin vivo – o barroco francês pintado em contato direto com a visualidade, unindo a experiência refletida do passado no flagrante da sensação.

Para tanto, recusava a simplicidade dos tons puros, instaurava o senso de profundidade não mais gerado pela terceira dimensão, abolia a divisão tradicional entre desenho e cor, assumia a luz pictórica como forma de construção da imagem e extinguia o ponto de fuga de suas telas. Sua composição é densa, os volumes são pesados, a cor é opaca e as formas são decompostas em várias nesgas coloridas. Suas pinceladas possuem razão estrutural, e o espaço passa a ser criado, não sendo mais um dado a priori.

O pintor representa não mais a realidade como ela é nem como a vemos, mas a realidade na consciência. Trabalha com os conceitos racionalizados da pintura (cilindro, cone, esfera) não para afirmá-los, mas para construir seu tema (que fora predominantemente a natureza morta) e questionar a própria racionalidade da visada pictural.

Argan declara que Cézanne compreendeu que o impressionismo deveria nascer de um novo classicismo, não mais fundado na imitação dos antigos, mas dedicado a formar uma nova imagem através da consciência. A pintura seria, portanto, não mais uma literatura figurada nem uma técnica capaz de transmitir a sensação visual ao vivo, porém um modo de investigar as estruturas profundas do ser. Um modo de fundir e estabelecer uma identidade entre a experiência (a sensação) e o pensamento. Desse modo, Argan explica o termo impressionismo integral e desvenda como Cézanne amplia a pesquisa impressionista inicial.

Embora tenha introduzido tanta novidade, Cézanne só foi reconhecido próximo à sua morte e seu trabalho só foi verdadeiramente considerado a partir de estilos que viram no pintor um mestre. Sua obra influenciou intensamente Matisse e o cubismo.

O mestre de Picasso e Braque, diferentemente do que muitos pensam, não afirmou que as aparências naturais deveriam ser reduzidas às formas geométricas, não se referiu a um resultado específico, mas revelou um processo que fora explorado em demasia no início do século XX.

Picasso ressaltou que o maior ensinamento do “processo cézanneano” foi a angústia de um artista responsável pelo seu quadro, responsável por sustentar a realidade do real em pintura. A despeito de sua vida reclusa, o grande mestre enfrentou os problemas sociais de seu tempo – não teorizando, mas sofrendo com a arte e definindo, a partir da verdade em pintura, sua função como artista.

Referências

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

CHIPP, Herschel Browning. Teorias da Arte Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

Anotações de aulas de Ronaldo Brito sobre Cézanne em abril de 2008.

Publicado em 15/09/09

Publicado em 15 de setembro de 2009