Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

O corpo no último filme de Lars von Trier

Marlon Baptista

O cinema de Lars von Trier e a colocação do problema

O cineasta dinamarquês Lars von Trier vem, desde o final da década de 1980, destacando-se internacionalmente ao realizar filmes com propostas experimentais. Um momento decisivo de sua produção tem início com o filme Os Idiotas, de 1998, quando em que realiza sua primeira obra de acordo com as regras do manifesto Dogma95, escrito por ele e pelo cineasta Thomas Vinterberg em 1995. Dentre as regras da proposta do manifesto, destacamos as seguintes: o filme só poderia ser feito com a câmera na mão; em locações, ou seja, não em cenário construído; o som nunca poderia ser captado à parte das imagens; seriam proibidos quaisquer distanciamentos geográficos e temporais, devendo as imagens retratar somente o aqui-e-agora; não deveria haver ações superficiais (acidentes de carros, armas, explosões etc.); o diretor não deveria aparecer nos créditos. Com esse manifesto, havia a proposta de outro caminho para a produção cinematográfica que não estivesse atrelada a grandes orçamentos de filmes de Hollywood, de grandes produtoras europeias e de canais de televisão – os quais muitas vezes têm em suas produções interesses majoritariamente comerciais.

Em 2003, com Dogville, e em 2005, com Mandelay, Lars von Trier, já avançando para além das restrições do manifesto, ganhou de vez repercussão internacional e passou a trabalhar com elenco de grandes estrelas – como Nicole Kidman – e grandes produtoras, ainda que tenha mantido a peculiaridade de sua estética minimalista e de sua posição de crítica à moralidade dos costumes (diga-se de passagem já presente em Os Idiotas, de 1998).

Há algumas semanas estreou no Brasil seu mais recente filme, chamado Anticristo. Sua exibição no Festival de Cannes despertou aplausos e vaias, não foi compreendido e foi severamente criticado. Lars, em entrevista coletiva, sendo questionado sobre o significado do filme, disse não se ver obrigado a justificar nada, que não há nenhuma mensagem a ser transmitida, que não há nenhuma ideia por trás da história e que ele foi simplesmente impelido a ir desenrolando o enredo talvez até mesmo, segundo a ironia de suas palavras, “pela mão de Deus”. Mas, ao assistir ao filme, me senti inclinado a refletir, sim, sobre seu sentido, em uma chave de compreensão bem determinada em meio a toda a sua valiosa ficção: trata-se de um filme de terror, mas o terror é manifestado pelo modo como a natureza – enquanto mundo exterior e como parte que nos compõe (o nosso corpo) – pode ser encarada como que portando características que vão de encontro a nossas expectativas de durabilidade, conservação e manutenção do estado das coisas; ou mesmo em oposição à realização dos desejos alimentados pelo nosso espírito, pela nossa imaginação. O terror do filme surge por conta de uma relação mal resolvida entre nossas idealizações e o que há de natural, corporal, orgânico, originando estados mentais e atitudes que acabam por visar a sua própria aniquilação: ou seja, a morte.

Desse modo, nossa reflexão privilegiará a importância da compreensão do sentido de nosso corpo, impulsos e sentimentos e do seu cultivo em todo processo formativo que vise formar os seres humanos por inteiro.

Os indícios do mal na natureza e sua relação com o feminino

Os protagonistas do filme são um casal que, enquanto tinha uma relação sexual no meio da noite, perde o único filho, ainda pequeno, que cai de uma janela do apartamento. A mãe se sente culpada pela morte do filho e sofre um trauma imenso que o marido, psicoterapeuta, tenta resolver, procurando proporcionar sua recuperação. O motivo do sentimento de culpa da mãe se relacionava à sua consciência de que, ainda que ela não tivesse falado nada a respeito ao marido, a criança já há algum tempo vinha acordando no meio da noite; e, enquanto os dois transavam, o menino morreu. Aqui já estava em questão uma forma de culpa específica: a sexual. A sexualidade é presente em todo o filme e, em especial, a luxúria da mãe.

O pai, na tentativa de auxiliar sua mulher a superar o trauma, visa fazer com que ela passe a conseguir encarar a perda e a realidade. Inicia-se a terapia com a tentativa de identificar o que a amedronta mais, para assim ir de encontro a esse medo e superá-lo. A primeira indicação que ela conscientemente faz é de que o que mais a amedronta é a floresta; diante da pergunta “o que na floresta?”, a resposta: “tudo”. Mas se trata, na verdade, de uma floresta em particular, para onde às vezes o casal ia com a criança passar fins de semana e temporadas de férias. Ironicamente ou não, no filme essa floresta tem o nome de Éden – o nome do jardim paradisíaco originário da criação divina, em que o ser humano ainda estaria puro de toda a maldade – e este é um dado importante (o nome da floresta) na reflexão que pretendo realizar. Nesta floresta havia uma cabana do casal. É importante lembrar que a mãe em luto tinha passado alguns meses isolada nesta cabana com o seu pequeno filho algum tempo antes da tragédia, para poder se concentrar na escrita de sua tese de doutorado. Não é explicitada a área de estudo da mãe, mas o tema de sua tese era o feminicídio, ou seja, a morte historicamente causada às mulheres. Apesar do retiro para a escrita, a tese acabou sendo abandonada. É nesse ambiente da floresta e da cabana que se desenvolve o filme, com seus acontecimentos sinistros, e se revela o que havia por trás do abandono da redação da tese.

No decorrer da terapia empreendida pelo marido, ele descobre que o maior medo de sua mulher não é da floresta em particular, mas da natureza como um todo. Para intensificar o caráter amedrontador da natureza – ainda mais para uma mulher que acabara de perder o filho –, aparecem cenas como a queda de um filhote de ave do alto de uma árvore e logo em seguida um gavião o apanhando, já semimorto, no chão, e o despedaça, devorando-o. O filme é formado de imagens fortes sobre o quanto a natureza pode ser terrível e, ao mesmo tempo, de como esse caráter terrível se relaciona simbolicamente à perda da criança, como a visão do pai de um veado que porta, dependurada em sua genitália, a cria natimorta. A mãe chega a dizer que “a natureza é a igreja de Satã”.

Os eventos, cada vez mais terríveis, continuam a acontecer e a revelar o modo como a mãe passou a interpretar o significado dado pela Idade Média à mulher como personificação do mal, justamente devido à presença, nela, dos elementos mais estreitamente ligados à natureza, como a fertilidade ou as reminiscências de rituais báquicos narrados pelos antigos gregos, em que grupos de mulheres se reuniam na floresta e comungavam, em estado de completo êxtase, a unificação com Dioniso, o deus da embriaguez e do arrebatamento, o que significava uma união mística com a natureza.

Remetendo ao próprio texto bíblico, foi Eva quem, no jardim do Éden, comeu a maçã, fruto proibido que passou a propiciar ao ser humano o conhecimento e o fez decair de um estado originário de pureza, passando a ter que conviver com o sofrimento, com o trabalho, a dor, o mal etc. As reminiscências do caráter de maior expressão corporal e de ousadia da mulher são expressas em diversos momentos no filme, como em trechos em que, em meio à mais terrível depressão, desespero e lágrimas, a mãe, de forma quase selvagem, tem relações sexuais com o marido, ainda que a título de analgésico imediato para sua dor.

Chega então um momento em que a loucura da mãe se instaura completamente; sobre tais detalhes silenciarei para que o leitor possa ver a obra por si mesmo sem nenhuma perda prévia da tensão pelo imprevisto do filme, regado de violência e formas antigas e ritualísticas de crueldade, oriundas provavelmente da própria pesquisa da tese abandonada pela mãe.

O corpo na história do Ocidente

O ponto que de fato me interessa é o modo como a pesquisadora, que se coloca numa posição crítica, esclarecida, pretendendo encarar os fatos históricos permeados de injustiças contra as mulheres de uma perspectiva científica que demonstre a limitação da compreensão dessas culturas e costumes passados – ainda mais sendo uma mulher realizando a pesquisa – acaba por se convencer de que, em meio a esses costumes injustificáveis, alheios a qualquer consideração humanista, haveria uma verdade em questão: de que a mulher seria a personificação do mal. Ela não consegue mais escrever a tese por assumir essa perspectiva e, ao mesmo tempo, passar a se sentir atravessada por certos impulsos misteriosos e destrutivos da natureza.

Aqui cabe lembrar o quanto a sensibilidade, o corpo, no decorrer da história do Ocidente, foi algo considerado num nível inferior de importância e até mesmo como causa do mal. Desde Sócrates, na Grécia Antiga, há uma sobrevalorização da alma, do discurso, daquilo que é privilégio do que é propriamente espiritual. Na Idade Média, o corpo é algo que passa a ter que ser desprezado de vez – o que se evidencia na ideia de pecado enquanto o deixar-se levar pelo desejo, nas abstinências e mortificações do corpo praticadas nos monastérios e impostas como penitência para remissão das faltas cometidas.

Mas acontece que, na Modernidade, apesar de seu espírito emancipatório e esclarecido, de onde surgem os fundamentos de nossa Pedagogia em parte muito vigente até então, também está muito presente esse desapreço pelo corpo. Nos textos fundamentais de Pedagogia escritos por filósofos alemães, como Immanuel Kant (1724–1804), Johann Gottlieb Fichte (1762–1814) e Hegel (1770–1831), é recorrente a importância dada à formação do espírito nas instituições educativas em geral, de modo que os apetites do corpo (em sua fome, luxúria, caprichos, excessos etc.) fossem subjugados aos ditames determinados pelo poder governante da razão. Nessa tradição faltou uma consideração sobre o corpo que o visse também de forma positiva, que encarasse a natureza não como um empecilho, não como um obstáculo ao alcance das metas legitimamente humanas, mas como parte também constituinte de nossa humanidade.

A relação que estabeleço entre a posição assumida pela mãe no filme e essa tradição que pensou em métodos formativos que consideravam o corpo de forma negativa é possível de ocorrer porque, por um lado – ainda que de uma forma que atinge proporções completamente insanas –, em meio ao próprio estudo desinteressado, científico, ocorre no filme a ocasião em que a cientista deixa de conseguir levar em consideração a legitimidade de sua pesquisa enquanto postura crítica, por interpretar que, a partir de seus próprios estudos, haveria alguma razão, ainda que incompreensível, em certos “preconceitos” antigos em torno de uma determinada prática – no caso, do feminicídio. Mas também, por outro lado, por conta do modo como se evidencia no filme o sentimento de culpa; trata-se, na verdade, a meu ver, não de uma compreensão acerca da maldade residente na mulher, mas da manutenção de um pressuposto de que aquilo que é natural é causa daquilo que é mau. Diante dessa situação mal resolvida perante sua própria natureza (espiritual, mas também de carne e osso), a protagonista chega a realizar um atentado extremamente cruel e violento contra seu próprio corpo e ao do marido. Isso é extremamente sintomático de consequências possíveis numa formação que carregue consigo elementos ainda muito fortes de uma tradição que nos foi legada, querendo ou não: o corpo, com seus desejos, deve ser reprimido. Pois o sentimento de culpa da protagonista remete justamente às práticas de autoflagelação dos mártires, santos e monges da Idade Média, demonstrando o caráter mal resolvido de uma cultura que cultivou em excesso o valor do espírito em detrimento do cultivo dos desejos, dos sentimentos e das realizações também das demandas do corpo.

O corpo e a contemporaneidade

Não é preciso chegar ao extremo psicótico e de terror do filme em questão para fazermos analogia com nossa realidade, pois o filme trata somente da radicalização de um problema que é muito mais frequente do que imaginamos ou mesmo de que estamos conscientes. As várias formas de sublimação de desejos reprimidos ou não realizados são um exemplo: alguém que, devido à falta de recebimento de afeto, tenta substituir sua carência em outras atividades, como compras, dedicação excessiva aos estudos, aos pais, aos filhos, ao trabalho ou ao que quer que seja para conseguir de alguma forma substituir a frustração do seu desejo. Ou que, devido à insatisfação com os rumos que tomou sua vida, se torna alguém duro, embrutecido, mal-humorado, irônico e maldoso.

A presença da sexualidade e da culpa – e da violência gerada por conta destes dois fatores – são recorrentes em todo o filme; a meu ver, a sexualidade pode ser um exemplo por excelência para nos remetermos àquilo que se refere ao corpo como um todo, a força sexual é uma de suas principais potências, própria da vitalidade natural que visa se perpetuar. E pensar que na Idade Média houve escritores que se referiam à amamentação de uma mãe ao seu bebê como algo repugnante e, ainda mais, que até hoje se sustenta, conforme a autoridade máxima do catolicismo, o Papa, a não-permissão da prática do sexo que não seja para a procriação, ou mesmo a proibição de uso de preservativos numa época em que existem doenças como AIDS e outras moléstias extremamente danosas.

Não se trata aqui de uma crítica ao cristianismo, pois a desconsideração do corpo é mais antiga que ele e com pressupostos teóricos que o ultrapassam; mas, ao invés disso, se trata de uma reflexão quanto à necessidade de equilíbrio que, no decorrer da formação de um indivíduo, é preciso que haja na sua relação com o seu próprio corpo, para que assim não haja também o contrário: o cultivo numa cultura de costumes que simplesmente banalizem os corpos, tratando-os como ferramentas de conquista de prazer animal imediato sem que haja o cultivo de outras habilidades espirituais simultaneamente, tão imprescindíveis para que possamos exercer de fato nossa humanidade.

Referências

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Escritos pedagógicos. Trad. Arsenio Ginzo. Madrid: Fondo de Cultura Económica, 1991.

KANT, Immanuel. Sobre a Pedagogía. Trad. Francisco Cock Fontanella. Piracicaba: Editora Unimep, 1996.

VINCENTI, Luc. Educação e Liberdade: Kant e Fichte. Trad. Élcio Fernandes. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1994.

Ficha técnica do filme:

  • Título: Anticristo
  • Autor: Lars von Trier
  • Gênero: Ficção
  • Produção: Meta Louise Foldager

Publicado em 29/09/2009

Publicado em 29 de setembro de 2009

Novidades por e-mail

Para receber nossas atualizações semanais, basta você se inscrever em nosso mailing

Este artigo ainda não recebeu nenhum comentário

Deixe seu comentário

Este artigo e os seus comentários não refletem necessariamente a opinião da revista Educação Pública ou da Fundação Cecierj.