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Cartas de amor de uma religiosa portuguesa escritas ao cavaleiro de C.

Raquel Menezes

Diálogos Poéticos

Mariana Alcoforado foi uma religiosa que viveu no século XVII, a quem foi atribuída a autoria das Lettres Portugaises (Cartas Portuguesas), publicadas pela primeira vez numa edição anônima, em 1669, em Paris. As Cartas Portuguesas ou Cartas de amor de uma religiosa portuguesa escritas ao cavaleiro de C. são textos da lendária freira, cuja escrita é aflita e ansiosa em virtude da espera, muitas vezes sem ânimo, de respostas de seu amado, o Marquês de Chamilly. Ao que parece, o oficial Chamilly não correspondia igualmente a esse amor: Mariana pede respostas mais intensas, mais afetuosas, mais comprometidas, como desde a primeira carta: “Basta! basta!, infeliz Mariana, basta de te consumires em vão e de procurares um amante que nunca mais voltarás a ver; um amante que atravessou o mar para fugir de ti, que está na França no meio dos prazeres e nem por um momento pensa nas tuas dores; um amante que te dispensa de todos esses transportes, que nem sequer te agradece”. As Cartas, que hoje ainda simbolizam o amor total, radical, são uma obra-prima da literatura amorosa. Isso pode ser comprovado pelo número de estudos sobre essa “correspondência”, bem como pelo resgate desse tema pela literatura portuguesa contemporânea.

Reitero que as Cartas Portuguesas vêm recebendo muita atenção ao longo dos séculos, visto que grandes autores como Stendhal, Rilke, La Bruyère, Rousseau já se ocuparam delas, o que permite observar, portanto, que a relevância do estudo das cartas não se dá apenas em Portugal, haja vista os nomes mencionados, mas também, e mais atualmente, pelo fato de uma polonesa radicada nos Estados Unidos, Anna Klobucka, publicar em 2006 Mariana Alcoforado: formação de um mito cultural. Nesse livro, a freira, como diz o título, mítica, é pensada como uma “figura (...) representativa da feminilidade portuguesa, quando não mesmo da (...) identidade nacional e um elemento importante do cânone lusitano”. Além de Klobucka, outros autores dedicam-se a estudar a religiosa que amou incondicional e exacerbadamente o Marquês de Chamilly, seja ela uma lenda ou um mito, uma farsa ou uma verdade, mas sempre a autora, ainda que ficcional, das Cartas Portuguesas. Restam-nos as perguntas de Rilke, ao se referir sobre sentimentos que vão “vogando à superfície, mortos, deitados de lado”: “Não terá sido isso que proporcionou às Cartas Portuguesas a sua reputação ao longo dos tempos? O fato de nelas acontecer um grande sentimento, como que por milagre, fora do destino, e visível, visível até muito longe, inesquecível?”.

A atmosfera arrebatadora do sentimento do amor presente nas Cartas Portuguesas vem sendo abordada sob o ponto de vista histórico e/ou literário. Nas Cartas há um clima rico em artifícios de cortes românticas – o que talvez seja o motivo do fascínio de tantos por esses textos. É, portanto, legítimo e relevante o levantamento dos estudos acerca das Cartas, averiguando, por exemplo, o que ao longo dos anos desperta o interesse de estudiosos, bem como constatar os textos defensores da existência da freira e de seu romance e da veracidade das Cartas, como os de Luciano Cordeiro e Carlos Malheiro Dias. Do mesmo modo, há os que apostam na ilegitimidade das Cartas, como Anna Klobucka e Maribel Paradinha.

Adília Lopes re-lê as Cartas de Mariana

As releituras literárias dessa história de amor são aqui representadas por dois poemas de Adília Lopes, que em sua poesia transforma a lendária freira em personagem. Em O Regresso do Marquês de Chamilly, Mariana Alcoforado, após conhecer biblicamente o Marquês, dedica seu tempo à escrita e à espera de cartas do seu amado. Em um poema sem título, Adília conta, a seu modo, a história, ou melhor, o triste fim da personagem Marianna Alcoforado:

A RAPARIGA que esperava muito
as cartas do namorado
que lhe escrevia muito pouco
foi violada pelo carteiro
Quem vai pedir um envelope
A Marianna Alcoforado?

A pergunta ao final do poema sugere uma ambivalência nos vocábulos: “rapariga”, “violada” e “envelope”. A “rapariga” foi violada pelo carteiro, ou seja, a “rapariga” assume o lugar de carta, pois violar é um ato que faz parte do campo semântico de correspondência, e violentar pode ser estuprar. Desse campo semântico de correspondência faz parte também “envelope”; assim sendo, a ambivalência se impõe de maneira mais clara se olharmos a interrogação do poema. A freira, como já sabemos, é um mito que tem como marca e item de sua história correspondências, que, verídicas ou não, tornaram-se literárias ao serem divulgadas. Em outro poema, este do livro O Marquês de Chamilly (Kabale und liebe), a Marianna adiliana é também uma metáfora a que Adília recorre para o cansaço pela espera. Nos versos “Algumas cartas de Marianna foram parar/a destinatários diferentes” fica evidente uma personagem que, desiludida com a demora das respostas de seu amado, o Marquês, passa a admitir “destinatários diferentes”. Ou seja, a Marianna do século XX não está disposta a esperar e não se submete a uma relação de exclusividade. Embora não haja mais um compromisso com o exclusivismo, ao final do poema temos a constatação de que, na verdade, as cartas seriam “devolvidas hermeticamente fechadas”. O sintagma “hermeticamente fechadas” alude à virgindade; afinal, uma mulher virgem, nunca tocada, está fechada. Mais adiante, nos versos “minha senhora o seu amante/não se encontrou nesta morada”, a virgindade, mais uma vez, pode ser lida. Essa “morada” pode ser entendida de duas maneiras: como a casa do amado e também como o corpo de Marianna, que nunca fora tocado, portanto um encontro de corpos nunca se deu. A “morada” está “hermeticamente fechada”.

Publicado em 27 de outubro de 2009.

Publicado em 27 de outubro de 2009