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A vida dos animais

Ieda Magri

Em A vida dos animais, J. M. Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura de 2003, envolve-nos em um tema caro, pelo menos para a minha geração. Já longe dos anos 60 do século passado, comemos toda espécie de animais considerados puros para o consumo humano sem pensar, ou pelo menos sem avaliar, nas circunstâncias de sua morte. Comer carne de vaca está longe de ser considerado falta de delicadeza; para nós, pelo menos os não-vegetarianos, é extremamente normal. Mas e quanto aos coelhinhos? Não há demora em presenciar um suspiro um pouco mais longo ou uma recusa aberta quando se trata de animais pequenos que nos lembram o ser quando vivo: codornas, coelhos, rãs no menu servido sem cerimônia.

Voltando à literatura: a questão de podermos ou não comer animais impunemente é abordada por Coetzee de forma muito anticonvencional, através de Elizabeth Costello, uma escritora “confusa, velha, grisalha”. Trata-se de duas palestras – Os filósofos e os animais e Os poetas e os animais – acompanhadas de reflexões de Marjorie Garber, Peter Singer, Wendy Doniger e Bárbara Smuts. Convidado a participar das Tanner Lectures, ciclo de conferências da Universidade de Princeton, em 1997 e 98, Coetzee opta por apresentar duas narrativas ficcionais. São duas palestras dentro de duas palestras, ou seja, um autor real apresentando as palestras de seu ser inventado, Elizabeth Costello. Com esse artifício, o autor pode, inclusive, criticar a abordagem tipicamente filosófica da questão dos direitos dos animais.

Ao apresentar-nos uma escritora cuja obra mais lembrada é um romance sobre Marion Bloom, esposa de Leopold Bloom, no Ulisses, de James Joyce, Coetzee permite que o assunto – a vida dos animais – possa ser abordado de diversas perspectivas e inserir em cada abordagem o ponto de vista crucial, carregado de identidade, de cada uma das personagens em sua ligação com a vida ordinária: Costello não deseja mais falar sobre literatura em suas palestras porque “não quer ficar parada”, quer mostrar o horror cometido contra os animais nos abatedouros, no que ela chama de campos de concentração destinados à morte, as fazendas, numa comparação direta com o Holocausto. Comparação, aliás, muito criticada por um poeta que se recusa a aceitar o convite ao jantar com a palestrante convidada. Fazendo contraste imediato com Costello, está sua nora, Norma, que argumenta que toda tentativa de reprimir certas dietas seria uma forma de se distinguir dos outros, uma forma de estabelecer uma elite dos eleitos, dos melhores, dos mais puros. John, filho de Costello, faz as vezes de mantenedor da calma nos debates, tentando, por um lado, conter a irritação de Norma, e, por outro, sinalizar a hora de terminar a conversa para sua mãe.

Inserido no contesto da universidade – portanto, nos códigos do discurso acadêmico –, o debate levantado por Costello – e por Coetzee – é um questionamento da razão humana como quesito diferenciador em relação aos animais, o que leva à especulação sobre o sentimento de um e de outro diante da morte. Se os animais possuem uma forma de razão, a sua própria, e se o homem não é só razão, mas também compaixão e simpatia – o que permite que se identifique com o outro, que se coloque no lugar do outro –, como continuar comendo carne, o fruto da morte?

Longe de ser uma defesa tranquila e apaixonada do vegetarianismo, o livro vai além do senso comum e provoca-nos a rever posicionamentos, mesmo que seja para nos deixar outra vez sem respostas e proposições. Como diz Elizabeth Costello: “Não sei o que é pensar. Sempre me pergunto o que é pensar, o que é entender. Será que realmente entendemos o universo melhor que os animais?”

Coetzee nasceu na cidade do Cabo (África do Sul) em 1940 e já recebeu vários prêmios por sua obra, que foi editada no Brasil pela Companhia das Letras. Vida e época de Michael K, Desonra, Elizabeth Costello e A vida dos animais podem ser encontrados facilmente em qualquer livraria, inclusive na internet.

Ficha técnica do livro:

  • Título: A vida dos animais
  • Autor: J. M. Coetzee
  • Gênero: Companhia das Letras
  • Produção: Ficção

Publicado em 10/11/09

Publicado em 10 de novembro de 2009