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Considerações sobre o romance de formação

Marlon Baptista

Doutorando em Filosofia

A origem e o sentido do termo formação

Pretendemos com este texto apresentar algumas considerações sobre o “romance de formação” (do original no alemão Bildungsroman) como gênero literário e como percurso filosófico e pedagógico. O termo formação (Bildung), na língua alemã, é carregado de sentidos relacionados à ideia de imagem (Bild) e de forma, apresentando-se como um processo educativo que visa dar uma forma ao ser humano, conforme uma imagem ideal que dele se estabelece.

Bildung é a tradução alemã para o termo grego Paideia, o qual traduzimos – sem que tenhamos algo com sentido equivalente – por “formação” ou por “cultura”, mas carrega consigo o sentido de uma formação harmônica do todo da personalidade, em suas variadas possibilidades, de modo a viabilizar a realização da obra de arte mais sublime: a bela personalidade individual humana. Essa palavra alemã é talvez a única dentre as línguas ocidentais que se aproxima tanto deste sentido grego. A primeira vez que o termo Bild foi realmente usado foi com a tradução que Lutero fez da Bíblia: “O homem como imagem de Deus”. Mas esse radical bild é semanticamente vasto; o verbo bilden significa colocar limites em algo, estabelecer uma ordem, criar uma forma. Por isso, a pintura e a escultura, por exemplo, como artes plásticas, são chamadas em alemão bildende Künste (artes figurativas). Segundo a tradição bíblica, Deus teria tido uma imagem (Bild) diante de si, a qual seria semelhante a Ele mesmo, como uma espécie de espelho, de modo que Ele teria dado essa forma ao homem – só que de um modo finito, e não infinito como Ele, criando-o.

No século XVIII, esse termo (Bildung) aparecia em quase tudo que era escrito na Alemanha – mas, desta vez, de forma secularizada, relacionando-se ao cultivo da personalidade de forma harmônica. Mas o que significa essa harmonia? Os filósofos que fundamentaram o sentido desse conceito, com forte inspiração nos gregos, pensavam ser necessário o cultivo e o cuidado total para com a alma, de modo que os seres humanos pudessem alcançar metas mais elevadas. O constante contato com a filosofia, a arte e a literatura grega era considerado o mais essencial para possibilitar a formação. A peculiaridade da Bildung era o modo como ela prezava a formação espiritual, tendo como pressuposto o desprezo por todo e qualquer caráter utilitário da educação: deve se ocupar da própria formação para se tornar um ser humano melhor, quer dizer, não há nenhum outro objetivo além da própria formação, ou seja, não tendo prevalência qualquer interesse profissional, social ou financeiro. O que faz com que, originariamente, a Bildung fosse uma particularidade da nobreza, pois os membros da aristocracia eram os únicos que poderiam passar por tal processo formativo. Com o ambicioso projeto da instauração de instituições de ensino, como o ginásio (equivalente a uma escola secundária, mas de conteúdo humanista e clássico) e a moderna universidade, o conceito de Bildung sofreu algumas mudanças para poder se tornar democrático – mas com o mesmo significado fundamental de um cultivo da totalidade da personalidade. A formação do todo da personalidade relacionava-se principalmente ao desenvolvimento de habilidades espirituais e morais do ser humano. De forma contrária ao homem moderno – o qual é cindido para se aplicar em específicos e únicos campos da vida –, os gregos eram formados como um todo, como uma unidade harmônica (e não de forma fragmentária), com o cultivo de seus mais variados dons e talentos de forma conjunta. Assim, o ideal da Bildung era o cultivo da totalidade da humanidade do homem, de modo que cada um pudesse se ocupar com muito mais do que uma mera área de estudo e pudesse aprender a lidar bem com seus sentimentos, instintos, pensamentos, paixões, desejos e sonhos.

A valorização desse termo pelos alemães seria decorrente de um modo de lidar com a herança grega, que a interpretava como uma cultura cuja finalidade última e mais nobre fora a educação, ou seja, a criação de um tipo elevado de homem, pois somente esses elevados indivíduos eram capazes de justificar a existência da comunidade e da própria individualidade humana. Era por conta disso que os gregos se distinguiam dos outros povos ao designá-los como bárbaros, por serem carentes de cultura, de formação, por não se apropriarem de seu destino, por não conhecerem suas metas, seus objetivos, por não estabelecerem uma forma que os determinasse, diferenciasse e, além disso, os tornasse belos a ponto de constituir uma legítima cultura – aos olhos gregos, é claro. E para tanto o mais difícil e principal desse projeto pedagógico era o conhecimento de si, daquilo que de fato diz respeito àquele que se propõe à difícil tarefa de conhecer a si mesmo.

O romance

A questão presente no romance de formação como gênero literário (e oriundo dessa concepção de Bildung da qual falamos), refere-se à necessidade de um jovem de sair do seu ambiente original, numa ida para fora, no empreendimento da viagem, do estrangeiro a si mesmo que o protagonista realiza para buscar se conhecer. A insatisfação com o estado das coisas, a incompatibilidade entre os desejos e ideais, por um lado, e a realidade do possível, adversa, estanque e sem grandes perspectivas de realização, por outro, faz com que o protagonista deixe suas origens para buscar a si mesmo pelas aventuras das travessias de um caminho imprevisível. Essa forma de buscar se conhecer retrata o caráter conflitante necessário da ainda informe e angustiada juventude que anseia por mundos que apontem possibilidades que a faça descobrir o seu caminho. No conflito com o mundo exterior, no convívio com diversos círculos, no descobrimento de verdadeiras amizades e amores, no experimento de si por meio do ensaio na busca dos desejos e sonhos, na lida com o sofrimento em decorrência das fatalidades e erros, o protagonista visa descobrir qual é o caminho que mais lhe diz respeito e lhe trará autorrealização. Tendo como referência o clássico romance de formação Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de J. W. von Goethe (1749-1832), tratarei de uma questão específica em meio ao imenso romance: a relação entre aptidões naturais, por um lado, e o trabalhoso cultivo individual, por outro.

Destino e liberdade

É interessante notar as palavras empregadas por um desconhecido que Wilhelm, o protagonista do romance, encontra por acaso num passeio de barco, quando já havia saído de sua cidade natal e se dedicava à sua grande paixão, o teatro:

pois que ninguém creia poder sobrepujar as primeiras impressões da juventude. Se cresceu numa liberdade digna de louvor, cercado de belos e nobres objetos, convivendo com homens bons; se seus mestres lhe ensinaram o que primeiro devia saber, para compreender mais facilmente o resto; se aprendeu aquilo que nunca precisará desaprender e se seus primeiros atos foram dirigidos de modo a poder no futuro praticar mais fácil e comodamente o bem, sem ser obrigado a desacostumar-se do que quer que seja, então esse homem haverá de levar uma vida mais pura, mais perfeita e mais feliz que um outro que houvesse dissipado na resistência e no erro suas primeiras forças da juventude. Fala-se e escreve-se muito sobre educação, mas não vejo senão uma pequena parcela de homens capaz de compreender e levar a cabo o simples porém grande conceito que encerra em si todos os demais (p. 127).

É importante lembrar que o contexto da conversa se referia à existência ou não de disposições naturais no homem que o conduzissem pelo bom caminho. Trata-se de uma questão presente no Romantismo, que entendia a figura do gênio – daquele provido de certas habilidades acima do comum, como um grande artista ou um grande filósofo – como uma espécie de milagre da natureza, no qual, de forma natural, as habilidades germinavam e se desenvolviam, ainda que em ambiente adverso. Goethe, apesar de já ter sido partidário do Romantismo em sua juventude, escreveu esse texto na maturidade, e apresentou a necessidade da criação de um contexto adequado para que grandes talentos possam se tornar fecundos; ou seja, opõe-se ao Romantismo na medida em que entende que é por meio de um processo de esclarecimento, da sabedoria de bons mestres e exemplos que se pode cultivar a jovem alma de modo a torná-la fecunda, ao invés de encarregar o destino de tal tarefa. Essa oposição frente à ideia de destino não se refere, por sua vez, a uma concepção iluminista de domínio do homem sobre as rédeas do destino ou do poder soberano da racionalidade, mas sim para um equilíbrio no modo como lidar tanto com o acaso como com o planejamento bem traçado. Nesse sentido, reafirma o desconhecido o poder das primeiras impressões da juventude:

Suponha que o destino tivesse escolhido alguém para se tornar um grande pintor, e que pela vontade do acaso passasse ele sua infância em sujas choupanas, estábulos e celeiros; acredita mesmo que um tal homem poderá alguma vez elevar-se até a pureza, a nobreza e a liberdade da alma? (p. 128).

Ou seja, o talento, aquilo que é inato – se é que se pode afirmar isso – não é suficiente para que ocorra o desenvolvimento da habilidade a que ele se refere.

Quando o protagonista Wilhelm se encontra casualmente com um conhecido de seu falecido avô, é possível ver novamente a oposição de Goethe em relação à perspectiva trágica de um destino incontrolável. Diz o ancião: “A trama deste mundo é tecida pela necessidade e pelo acaso; a razão do homem se situa entre os dois e sabe dominá-los” (p. 83). Há um certo racionalismo iluminista nessa frase, mas não se trata de um poder humano que simplesmente, por portar a razão, se opõe e pode controlar as fatalidades. Estas são inevitáveis, mas é importante exercitar o discernimento para identificar o que é necessário e o que é arbitrário, pois, se se trata o arbitrário como necessário, incorre-se em extravagâncias e decisões irrefletidas que levam ao erro; se se trata o necessário como arbitrário, impede-se o curso natural daquilo que é inevitável, que tem de acontecer, de modo a somente prejudicar o melhor andamento das coisas, dificultando o acontecimento daquilo que vai ter que acontecer de qualquer forma.

O hábito de ter contato com o que é belo também seria determinante para a formação do gosto: “só a falta de costume de desfrutar algo de bom é a causa de muitos homens encontrarem prazer no frívolo e insulso [...]. Deveríamos diariamente ouvir ao menos uma pequena canção, ler um belo poema, admirar um quadro magnífico, e, se possível, pronunciar algumas palavras sensatas” (p. 279). É digno de atenção o quanto esse tipo de afirmação pode auxiliar a refletir sobre o quanto a cultura de massas de nosso mundo atual interfere na formação das pessoas, de modo que possíveis potenciais de personalidades bem cultivadas são inviabilizados pelo ambiente, em que se produzem manifestações das mais variadas que em nada auxiliam a aumentar a sensibilidade e a compreensão sobre si mesmo daquele que por elas é afetado.

Sob a ótica de algumas poucas das muitas orientações educacionais que nos oferece esse livro de Goethe, em prol do cultivo de habilidades que propiciem ao indivíduo a capacidade de formar a si mesmo, o poeta afirma a importância de identificar desde cedo as inclinações naturais e os desejos do indivíduo, de modo a propiciar-lhe os caminhos que o auxiliem a realizar seus potenciais visíveis o quanto antes, para que, caso haja algum equívoco quanto à determinação do caminho, possa-se reconhecer logo o erro e assumir outro direcionamento que mais aperfeiçoe a personalidade da pessoa em questão. Assim, tudo que vivemos é importante para a nossa formação (p. 406), e por isso devemos estar atentos aos acontecimentos em geral no decorrer dos dias e aprender com eles. Isso pode auxiliar a ter maior clareza quanto ao saber sobre o que realmente queremos - o que é mais importante do que o que propriamente se quer. A principal fonte dos males seria a negligência humana para conhecer de verdade seus objetivos e “trabalhar seriamente para alcançá-los” (p. 391), pois, por conta talvez da falta de formação que possibilite perceber o que realmente se quer da vida, a maioria das pessoas tidas como cultas se voltam para o trabalho, para as ciências, as artes, para logo em seguida se livrar delas (p. 392), por simplesmente não lhes dizerem respeito.

Ou seja, com Goethe e a reflexão sobre a Bildung podemos pensar não somente sobre a falta de qualquer pressuposto daqueles que não têm acesso à educação institucional, mas também sobre até que ponto aqueles que têm formação escolar/acadêmica são formados de modo a trilhar de fato caminhos que sejam capazes de dar sentido às suas vidas.

Referências

GOETHE, J. W. von. Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister. Trad. Nicolino Simone Neto. São Paulo: Ed. 34, 2006.

Publicado em 10 de novembro de 2009

Publicado em 10 de novembro de 2009