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O futuro não chega nunca

Alcione Araújo

Tinha por ele a afeição que se devota aos pais, mas não éramos sequer amigos – como um adolescente, ou menos que isso, poderia dizer-se amigo do pai de seus amigos? Tomado por turbulências interiores e fricções com o mundo, talvez ele sequer prestasse atenção em mim – ainda que queiram, meninos não mudam o voo de pássaros selvagens – mas ficou inscrito nos meus afetos e sua imagem resta indelével na minha memória.

Tenho-na agora, ele diante do fogão, virando a garrafa de café na pequena panela sobre a trempe acesa – preferia café denso, preto e amargo, esquentado a cada vez, várias vezes ao dia. Cabelos revoltos, brancos de neve, olhar intenso num rosto de vincos profundos, que fora expressivo, era agora frágil na palidez, e a boca oculta pelo hábito de sobrepor o lábio inferior ao superior. O tempo pesava e o cansaço tomava seu corpo. Após o café, sugava a fumaça de seguidos cigarros, que amarelaram dedos e escureceram dentes. Camisa surrada e calças de pijama deixavam à vista as magras pernas: a decadência física roía um espírito poderoso. Doei-lhe a admiração fervorosa e a compaixão silenciosa da minha adolescência.

A falta de formação acadêmica era compensada pela curiosidade intelectual e determinação obstinada. Dedicava dias à dedução das equações de um instrumento de medidas obsoleto, a desmontar um velho rádio, trocar componentes e inventar um teletermostato. Estudou a Teoria da Relatividade e sugeriu a inclusão de uma constante “k” em determinada equação – proeza que o levou às páginas de jornal. Mencionava provas de vida em outros planetas.

Cansado das regras da ortografia, cujas exceções e casos particulares atrasavam a educação, escreveu e publicou uma Gramática Racional da Língua Portuguesa, com normas criadas a partir da sonoridade das sílabas. Dizia: deve-se escrever viajar e “viajem”, pois se viajar é com “j”, por que viagem é com “g”? Se a pronúncia de casa é “caza”, por que escrever com “s”? Pela racionalidade de suas regras, achava que sua gramática simplificaria a escrita e extirparia o analfabetismo. Como ocorreu a Policarpo Quaresma, ninguém o ouviu e alguns gramáticos quase o comeram vivo.

Para aumentar a renda de funcionário público, instalou uma oficina de consertos de TV – a televisão mal chegara ao país. E disse: se os fabricantes se interessassem em nitidez da imagem, bastaria aumentar o número de linhas luminosas na tela – esta é a TV de alta definição de que hoje se fala. A cabeça aventureira, incendiária e nômade daquele homem fascinava o garoto pacato e delirante que eu era.

Num dia que conversávamos – que o ouvia é o correto –, após um café, acendeu o cigarro e soprou frondosa baforada. Talvez tenha descoberto ali que habitou o mundo sem entender sua lógica e pressentiu que passara pela vida sem propriamente vivê-la. Sem ilusões e com a esperança embaçada, disse: “Sempre trabalhei pensando no futuro, me casei pensando no futuro, criei filhos pensando no futuro, e tudo o que fiz até hoje foi pensando que um dia o futuro chegaria, e eu então diria: ufa!, tudo está resolvido, a vida está ganha e estou feliz. E veja: estou velho, perto do fim, e o futuro não chegou.” Morreu, sem que voltasse a vê-lo e dizer-lhe que o futuro não chega nunca.

Aturdido, sem alcançar a extensão do que dissera, intuí o privilégio da confidência, e nunca esqueci a lição. Vivia tão desprovido de certezas na adolescência que acolhia as mais duras confissões como mantos que protegem com as suas verdades. Crescer é acumular proteções para o frio, a chuva e a tempestade. A vida não está no futuro nem no passado, mas neste fugaz instante que passa. Aquele amigo que passou, não morreu – o fim é o esquecimento, não a morte –, resta para sempre comigo. Mas que amizade seria para ele a minha, se nunca fui capaz de lhe dizer algo útil, afetuoso, estimulante, ou que aplacasse a sua inquietação? Era tal a sua volúpia com a palavra, que me consola pensar que me preferia silencioso.

Como um cacto, era áspero, intratável, apenas para conservar pura a água que alivia a sede. Ser inquieto e espírito turbulento, vivia extremos: cólera e amor, compaixão e dor, ternura e violência. Almas intempestivas criam abismos aos que lhe batem à porta com água fresca. Fecham com pedras a toca do coração. No escuro fundo da caverna, a solidão rói o elã vital. A serenidade veio tarde, por apatia alcoólica. Nunca teve paz para sentir a alegria de viver, além do secreto orgulho do talento dos filhos: engenheiro, médico, economista.

Guardo no peito um amigo de quem não consegui me fazer amigo – o que nos afastava já não nos afasta, vivendo em dois mundos – porque éramos duas pessoas, duas épocas, duas cabeças, dois corações. A cabeça dele falava, eu aprendia; o coração dele gritava, eu não ouvia.

Democracia Viva 42, maio de 2009. Ibase

Publicado em 24/11/2009

Publicado em 24 de novembro de 2009