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O que significa avaliar alguém no ensino superior?

Marlon Baptista

Doutorando em Filosofia

O problema das humanidades

Venho colaborando há algumas semanas com artigos para esta revista de educação, mas até então não tinha tratado diretamente de experiências no interior da sala de aula. Quero, com este texto, por meio de uma experiência pessoal de docência em uma universidade pública, suscitar uma reflexão sobre as condições de muitas universidades no Brasil e problematizar o sentido de sua própria denominação como “universidade”.

Condições como a situação precária de professores contratados que são remunerados com salários baixíssimos; de bibliotecas em que faltam até mesmo títulos elementares (sem falar de originais em línguas estrangeiras); de bibliotecas que não têm um sistema constante de restauração dos poucos livros que possuem, de modo que os livros, por conta do tempo, vão se tornando inutilizáveis, ainda que presentes nas prateleiras; de alunos sem condições elementares para o exercício teórico, discursivo e mesmo social no interior da academia; da falta de subsídios básicos que a universidade deveria prover aos alunos, como atendimento médico, restaurante universitário com refeições baratas e casas estudantis, para que estudantes de regiões distantes tenham a oportunidade de morar em local gratuito ou de baixo custo.

Muitos dos problemas já são por demais conhecidos, mas quero atentar para a diferença de tratamento quanto às condições de diferentes cursos no interior de uma mesma universidade. Não é novidade o quanto há de diferença no financiamento de cursos de graduação e pós-graduação no que se refere à separação entre ciências exatas e naturais, por um lado, e de ciências humanas por outro. As ciências humanas recebem menor número de bolsas de iniciação científica, mestrado e doutorado das agências de fomento por um motivo que, por si só, já é sintomático de uma postura diante do que se entende por instituição de ensino superior: as ciências humanas, diferentemente das ciências tecnológicas, por exemplo, não produzem resultados imediatos, como a produção de técnica, o desenvolvimento da indústria e o aumento da produção de capital; pelo contrário, historicamente é espaço para o fomento de movimentos esquerdistas e de uma classe intelectualizada que expressa suas críticas e insatisfações e que tem por profissão pensar sobre os problemas sociais, econômicos e políticos do país e da humanidade. Ainda que existam instituições de excelência em ciências humanas – como USP, Unicamp e UFMG, para citar somente algumas –, dá a impressão de que instituições desse nível em nosso país definitivamente não são a regra. Esse fato – de elas não serem a regra –, contrariamente ao que acontece na maioria dos países desenvolvidos, é sintomático do quanto a universidade em nosso país assumiu fortemente a característica de escola técnica e profissionalizante e denuncia o quanto o sentido originário da universidade moderna, como espaço de humanização, pode simplesmente não mais fazer sentido, inclusive e principalmente para aqueles mais diretamente vinculados a elas: os alunos, que sequer têm consciência sobre a história da universidade e suas metas originárias. Esse desconhecimento mesmo já é sintomático do quanto os próprios professores na universidade não tratam de questões fundamentais como esta. Mas ainda assim, no interior das ciências humanas, mesmo em universidades problemáticas como essas de que falo, deveria haver um espaço de maior humanização, pois se trata, no final das contas, de estudos sobre a humanidade. Por que, se nas ciências tecnológicas já não se espera mais qualquer forma de humanização, devido às metas claras que elas têm, que são outras, nas ciências humanas, se não houver humanização, se o indivíduo não tiver a oportunidade de se tornar melhor, de compreender melhor o mundo, a história e a si mesmo, cabe perguntar qual é o sentido para existir que elas ainda têm.

Reproduzo a seguir, com inúmeras alterações, trecho de um texto que escrevi e tratei com uma turma do curso de História de uma universidade pública carioca no semestre passado, por conta de maus resultados de uma avaliação e de um acontecimento inusitado em meio ao desabafo de minha insatisfação quanto às baixas notas.

Sobre os critérios de avaliação

“Houve um tempo em que se pensou ser possível a criação e manutenção de instituições de ensino superior em que os seus estudantes pudessem lidar com o trabalho teórico de forma que não houvesse engajamento legítimo, ou seja, de modo que a conivência e a complacência de professores, aliadas ao mau uso da liberdade acadêmica por parte dos alunos, criavam um sistema de ensino que mantinha a pretensão de carregar o nome de “universidade” sem ter as condições suficientes para isso.

Nesse tempo, houve um professor que, por conta de sua juventude e pouca experiência, acreditava ser possível, mesmo no interior de um ambiente que não é propício, realizar em sua disciplina a nobre tarefa das origens da universidade moderna: humanizar as pessoas. Seu respeito pela instituição da universidade, junto de seu ímpeto de educador, fazia com que ele se esforçasse para cumprir a tarefa de sua disciplina, cuja origem é o pilar fundamental da universidade: a filosofia. Por conta disso, numa mistura de ingenuidade com boa vontade, ele preparava aulas com cuidado e muito dispêndio de energias. Ao mesmo tempo que, por considerar o “contexto” específico de alunos de outra ciência, que têm somente um período de aulas de filosofia – como herança de um tempo em que a filosofia tinha de fato o lugar privilegiado entre as áreas dos saberes, assumindo para si a tarefa de fazer com que os diversos saberes pudessem conquistar ligação e coerência entre si – e por conta de seu interesse de educador de cumprir o seu papel “sem esperar nada em troca”, iniciou sua experiência na carreira docente pretendendo ser tolerante quanto aos problemas de desempenho teórico de seus alunos, para que eles pudessem seguir livremente seus caminhos, tendo boas lembranças somente de aulas de filosofia em que fora possível vivenciar algo frutífero. Mas, diante de um desabafo por conta da desilusão em função do resultado de alguns trabalhos apresentados, em meio ao qual, esse professor se viu na posição de colocar em questão o seu método de aulas expositivas, o sentido da instituição que se chama universidade e o sentido do que os professores e alunos estão afinal fazendo no interior dessa instituição; no meio desse desabafo e dessas questões, postas de forma tão sincera e franca, ele ouve: “vai tomá no c...!”, dito num altíssimo tom de voz e de forma agressiva. Em meio ao seu discurso, um aluno pronunciou esse imperativo para alguém que insistia em ligar em seu celular.

Diante desse acontecimento, houve um momento muito peculiar no decorrer das coisas, o professor continuou a falar, mas percebeu que já não conseguia ter a atenção dos alunos, pois muitos deles demonstravam de forma inevitável que foram tremendamente afetados pelo acontecimento, numa mistura de sinais de desaprovação, riso, indignação e descrença na realidade do que tinha acabado de acontecer. A partir desse momento, o professor percebeu a necessidade de mudar os rumos de tudo, desde o planejamento do conteúdo daquele curso até sua postura de complacência e tolerância para com os possíveis resultados dos testes aos quais ele submeteu e ainda submeteria seus alunos.

O ato desse aluno ilustrou o próprio mote da fala do professor: qual é o sentido, no fim das contas, dessa instituição que chamamos de universidade? O que estamos fazendo aqui? Esse fato intensificou no professor a sensação de que a esperança é difícil, pois, diante da pergunta: o que é a universidade? A resposta poderia ser dura e desagradável: a universidade era ele mesmo como um professor contratado numa forma de subemprego ganhando menos que pouco; a universidade era o conjunto de textos de alunos que, por muitas vezes, não têm condições de desenvolver o trabalho teórico, alguns, próximos ao que se chama analfabetismo funcional; a universidade era “vai tomá no c...”; a universidade era a falta de financiamento mínimo para que seus futuros professores legitimamente concursados (como o caso aqui do provável futuro de nosso professor em questão) possam, durante sua formação, se dedicar exclusivamente às suas pesquisas, ao invés de precisar lutar pela sobrevivência ao mesmo tempo que pesquisam. Pensando friamente, haveria mais lógica caso ele se comportasse do modo a que o próprio Estado praticamente induz para que ele aja: dar aulas sem muita preocupação com o nível teórico, como um ganha-pão mal pago, para que assim ele ainda tivesse algum tempo cansado para se dedicar parcialmente à sua pesquisa. Mas ele não o faz, por motivações completamente pessoais sobre a preocupação com a existência de algum sentido e verdade naquilo que ele está se dedicando a fazer.

É assustador perceber uma instituição com uma história tão nobre se assemelhar a um dos vários instrumentos de controle de um macrossistema, assim como o exército, a religião, os manicômios, as perícias médicas, a escola. O professor se pergunta: “será que não é perceptível aos meus alunos que o Estado me outorga poder sobre eles? Não se trata somente de status social, trata-se de poder político. Será que não percebem que, em última instância, a minha palavra tem mais valor que a deles? E é o Estado quem me concede isso. Tenho o poder de interferir nos seus planos, de avaliá-los e reprová-los”.

A partir dessas reflexões, o professor pensou na necessidade de mudar de postura e, já que o Estado lhe concede esse poder, decidiu-se por reprovar, sim, aqueles que não alcançassem minimamente o rendimento acadêmico. E teve um pensamento ainda mais radical: poderia reprovar desconsiderando contextos, pois sentiu que não podia ser conivente com alegações que colocam em questão razões sociais, familiares, psicológicas ou cognitivas para justificar um desempenho insatisfatório e possibilitar o alcance das mesmas metas de outros alunos como se estivesse tudo bem. Pois, caso fizesse isso, estaria somente contribuindo para o funcionamento da grande máquina de produção de diplomas que não se ocupa em proporcionar condições minimamente adequadas para o desenvolvimento intelectual – e mesmo moral – de seus estudantes. Um alto índice de reprovação no interior da universidade não seria algo seriamente sintomático? Um alto nível de reprovação em qualquer instituição de ensino não é altamente sintomático, apontando sintomas de que existem coisas erradas nas bases, nos fundamentos da instituição em questão?

Em suma, o professor se decidiu por não participar da perpetuação de uma mentira. Pois, segundo o seu modo de ver as coisas, nessa altura da história da humanidade, as revoluções mais decisivas não se dão com mudanças macro, estatais, coletivas, mas sim no micro, no individual, no pequeno. Então ele se decidiu por continuar a tentar cumprir seu papel existencial em prol da verdade, ainda que em meio a um ambiente desfavorável.”

Uma autoavaliação

Após a leitura desse texto junto com os alunos, que tinham cópias individuais, houve um debate muito frutífero, em que foram suscitadas questões pertinentes, como o radicalismo de minha afirmação “desconsiderando contextos” e da necessidade de eu aprender a lidar com a realidade do possível no lugar onde estou. É óbvio que práticas de ensino e avaliação não são independentes de contexto, mas com isso eu quis, na verdade, além de expressar um sentimento de desconforto, problematizar os próprios contextos que a realidade que vivemos nos impõe, como a tolerância maior com baixos rendimentos acadêmicos daqueles que trabalham o dia todo e ainda arrumam tempo para cursar a universidade e que, por conta disso, não podem vivenciar o ócio fundamental para o trabalho teórico; ou mesmo a necessidade de lidar com os problemas cognitivos e formativos dos alunos, decorrentes de uma má formação básica.

Infelizmente me é muito difícil pensar em possíveis rumos para solucionar problemas tão antigos e tão arraigados nas bases de nossas instituições de ensino. No caso do aluno trabalhador, só consigo pensar em meios que me parecem não muito viáveis em nossa realidade política e econômica, como a redução da carga horária de trabalho semanal daquele que está matriculado em curso superior, com o complemento do tempo faltante financiado pelo governo ou algo do gênero. Quanto ao problema da formação básica ruim, a coisa fica mais difícil de ser solucionada, pois se trata de correr atrás de um prejuízo difícil de ser saldado plenamente ou satisfatoriamente numa altura tão adiantada do caminho.

Mas o mais importante dessa experiência discursiva com os alunos foi que pude perceber claramente maior cumplicidade deles para comigo, menor distanciamento, menor impessoalidade, mesmo daqueles que não se interessavam muito pela disciplina; talvez por perceberem sinceridade e preocupação séria com algo cuja reflexão não recebe merecida atenção e é um problema inegável: para que fins existe ou deve existir a universidade? Em que consiste a peculiaridade de uma formação superior? O que significa na vida de alguém passar pelo ensino superior? O que deveria significar?

Publicado em 24/11/2009

Publicado em 24 de novembro de 2009