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As neoamazonas e o moderno mundo econômico em transformação: onde surgem?

Prof. Dr. Eduardo Marques da Silva

Mulher valente
Roberto Barcellos e André Renato

A mulher tá danada fazendo sucesso, ganhando dinheiro,
E não tem corpo mole brigando mandando no mundo inteiro,
Conquistando lugar que só homem chegava, a mulher tá chegando primeiro.
Era discriminada, sofria calada no seu dia-a-dia,
Ela mudou de vida, está protegida, tem delegacia,
Hoje exerce poder de fazer tanta coisa que muito machão não faria.
Tem mulher, (refrão)
Tem mulher, (refrão)
Tem mulher. (refrão)
Dando show no gramado, apitando, jogando, batendo um bolão.
Tem mulher, (refrão)
No congresso brigando, buscando a saída pra nossa nação.
Tem mulher, (refrão)
Que não foge da luta encara uma obra, virando concreto de calo na mão.
Tem mulher, no avião. (Breque)
Tem mulher, (refrão)
Turbinada, com mimo, botox e lipo que arrasa geral.
Tem mulher, (refrão)
Que é chefe da casa, trabalha domingo e acha normal.
É mulher! (refrão)
Verdadeira parceira, que agente guerreira, mudando os conceitos da vida real.
Tem mulher, Tem mulher, Tem mulher. (refrão)

(Grupo Fundo de Quintal, CD Samba de todos os tempos, gravado no Credicard Hall em 7 de junho de 2008)

A presença da mulher no mundo do trabalho

São mesmo os velhos tempos socioculturais vivificados nos novos tempos modernos; nem no velho semba surgido nas senzalas se assistiu a tal fenômeno.

O velho semba e o atual samba são uma inesgotável fonte de informações sobre os corpos socioculturais autônomos. A professora Luiza Cortezão, daUniversidade de Coimbra, fala dos estranhos, necessários e modernos diálogos entre os globalismos locais, o todo e os localismos globais, o tudo. Também a professora Helena Katz e o professor esloveno Evgen Bavcar (2003) tratam dessa maneira o que denominam “espelho partido da história”. É difícil não esquecer!

O professor Luiz Alberto de Oliveira modernamente denomina “valores deslizantes” (2002, p. 200-201) e afirma que, no “Brazil multicultural”, a historiografia sociocultural recheia nossas observações de surpresas e novidades. Para as produções científicas no trato da composição social popular da cultura brasileira, podemos facilmente verificar que se trata de algo inexorável de excluir.

Não podemos negar-nos à leitura do popular do meio sociocultural, principalmente à do Rio de Janeiro de todos os Brasis, sua relação e influências e até mesmo máculas na relação com o que denominamos todo, que nos abrange de maneira centrípeta e centrifuga, tanto nacional quanto internacionalmente. Para tanto, optamos por observar; começaremos por dizer que, em uma época em que o embate de indivíduos versus empresas se configurou como a nova roupagem da dança do capital, a partir do pós-guerra, começou-se a presenciar o início de uma fase de mudanças verdadeiramente revolucionárias, que acabariam resultando na presença inconteste da mulherno cenário das relações interpessoais.

Havia, naquela época, uma verdadeira corrida ao ourono mundo. O domínio das organizações sobre a vida das pessoas estava moldando um novo padrão. Nós, por mimese pura, aos poucos, sem que percebêssemos, passávamos de um Brasil para um Brazil e, ainda por cima, mal feito. Passávamos de um autêntico país de raiz para o mundo da complexidade que se globalizava.

Do espaço exterior e até do nosso entorno, muitas vezes sem que entendêssemos direito, Upton Sinclair, Charles Lamb, Walter de la Mare, P. G. Wode House, H. G. Wells evidenciavam a insignificância do trabalhador. Já vivíamos a paulatina morte da velha mão-de-obra e sua substituição pelo cérebro-de-obra, no rumo da automação. Era a época da impessoalidade absoluta nas relações entre trabalho e capital. O interesse estava no quantitativo, na produtividade, e nisso o humano ficava cada vez mais de lado. Nesse cenário surgia, então, a mulher, presença novidadeira no mundo moderno, que trazia um novo jeito de enfrentar desafios. A música citada expressa a estupefação; para nosso espanto, podemos ver que a cultura popular já percebia e as nossas elites, não.

“A mulher tá danada, fazendo sucesso, ganhando dinheiro/E não tem corpo mole, brigando, mandando no mundo inteiro./Conquistando lugar que só homem chegava, a mulher ta chegando primeiro.”

As mudanças nas organizações

O indivíduo era absolutamente irrelevante, sem perspectivas, repetitivo; talvez fosse necessário ser (re)formatado para um futuro como esse. O problemático de tudo era que as organizações se apresentavam de várias maneiras: as monopolistas, em que se destacava a conhecida Standard Oil, de J. Rockfeller. Era a fase da sistematização industrial de Henry Ford, que criava verdadeira transformação no fazer.

Na sua empresa, usou-se o taylorismo, as administrações verdadeiramente científicas, compostas pelos denominados gerentes cientistas, os quais viam o ato de gerenciamento como fonte de autoridade contra as regras arbitrárias e intuitivas, geralmente não fundamentadas em premissas concretas. Eram estratégias de vendas marcadas pela conquista, muito praticadas por Thomas Watson na IBM, organização monopolista como a de J. Rockfeller, criada no último quartel do século XIX. Tal comportamento representou um verdadeiro marco inicial dos famosos trusts.

Instituíram-se conceitos verdadeiramente inovadores para a época, que deram início a uma verdadeira quebra de paradigmas no mundo científico (como o de sede distante do ponto da produção) que estavam espalhados na época e assim continuaram pelo país e por todo o cenário dos países subdesenvolvidos. Talvez fosse consequência do casamento do manomecanicismo com a automação nipônica. Os conceitos de administração colegiada e constituição societária não familiar, de associação no lugar do velho individualismo – filho e razão do liberalismo – foram e são princípios extremamente atuais.

Com a sistematização industrial de Henry Ford, materializava-se a ditadura de produção e do consumo, com a primeira sendo feita em massa, em que a sujeição do homem à máquina no processo fabril era quase absoluta. Promoveu-se a estratégia de cooptação dos velhos artesãos, introduzindo-os em nichos especializados de produção; acelerou-se a extinção do modelo anteriormente praticado; o consumo e a produção se padronizaram. Portanto, não foi à toa que denominamos o século XX de “século do não” após a leitura do trabalho de Sevcenko (2001, p. 11-23), pelo fato de ter sido convulsionado ao extremo. O homem ficou refém da máquina quase que definitivamente.

A Ford, com as características marcadas por um certo particularismo de pessoalidade,  bastante despótica e autocrática, traduziu uma administração individualista e absolutamente desumana em uma organização fabril totalmente mecanizada. Era comum se ouvir que “Enquanto seus carros eram todos pretos, seus gerentes eram todos cinzentos”. Adous Huxley, em seu romance Admirável mundo novo,e Charles Chaplin, no filme Tempos modernos,satirizaram esse sistema de produção. Nesse contexto das relações sociais, a mulher se apresentaria, pouco a pouco, como algo que revolucionaria o fazer no espaço do trabalho. Contrapor-se-iam coisas que nelas já faziam diferença, como o escondido jogo do feminismo versus feminino, o tormento da já aludida montanha russa, a criada e transformada vida capitalista com significativas revelações. E para completar, a avalanche de mudanças do tudo no todo; tínhamos também o porquê do que nos afeta de perto todo esse surpreendente mundo: a trajetória da tipologia de um Brazil no século do não, rebento da “mimese mal feita” no perfil de um país de economia periférica já de longeva história.

As estratégias de vendas da época guardam até hoje o caráter de territorialidade, comportamento animalesco que impulsiona o ser humano a defender sua geografia de poder. Como veremos isso no futuro? Fica difícil não considerar tal peculiaridade na cidade do Rio de Janeiro de hoje, pois continua uma prática comum.

Ainda hoje temos vasta população de excluídos socioculturais. No jornal O Globo de 07/09/2008, no caderno Niterói, consta que:

Um promotor perguntou a uma senhora, na audiência, por que ela se benzeu quando passou por um busto na entrada do Fórum de Niterói. Ela respondeu que era para receber a proteção do santo na Justiça. Ele esclareceu que aquele era Rui Barbosa, famoso jurista brasileiro.

O papel da educação

Não se trata apenas de uma população desinformada, mas absolutamente sem registro de passado, despreparada para a vida cidadã. Quantos estariam nessa situação? Assim, é necessário “animar o sujeito cidadão”, como falou Antoine Garapon (2001). Não é apenas uma inclusão cidadã, marcada pela ingenuidade na ação; é necessário educar para uma vida comum e de liberdade futura, o que leva a uma forte mudança em todo o sistema. Tudo isso, hoje, pode estar no cerne de toda forma de exclusão social, como ilustravam John Roemer (1982, p. 376-383), Max Weber (1968, v. 1, p. 321-328) e a professora Marli Diniz (2001).

Já tivemos a oportunidade de pontuar que “a estrutura tradicional da escola estava voltada para a classe média (burguesia), sendo que a escola primária servia à classe popular”, mas não nos esqueçamos de que ninguém é lixo, ou se faz de lixo todo o tempo, como se tivesse uma finalidade em si mesma, e “a escola secundária ou de 3º grau não forma apenas o reduto dos interesses da classe dominante, ela esteve e está criando e mantendo o dualismo dos sistemas escolares”, como dizia o Manifesto dos Pioneiros da Educação.

Podemos atribuir essa situação também à globalização, que normalmente é associada a processos econômicos mas trata de um fenômeno também político, social e principalmente ideológico, que se insere na parte do globalismo social. Segundo Liszt Vieira (1998, p. 72), a globalização se divide em econômica, política, social, ambiental e cultural. A que abordamos aqui é a social, que se nutre de exclusão social e degradaçãoambiental. Contudo, vale registrar a luta comum dos países mais pobres por melhor redistribuição do poder e da riqueza mundial, o apoio dos organismos internacionais e a ajuda solidária eventual das grandes potências e dos organismos não-governamentais. A resposta ao desafio da pobreza e da desigualdade segue sendo uma responsabilidade de cada um dos Estados nacionais onde os “pobres do mundo estão ‘estocados’ e, onde se geram e acumulam os recursos capazes de alterar a distribuição do poder e da riqueza entre os grupos sociais” (Fiori e Medeiros, 1999).

Os novos empregos

Então, por que não pôr a mão na massa de uma vez por todas e executar toda a tarefa devida? No exterior, o mundo empresarial estaria com a responsabilidade de gerar maior número de emprego e a juventude descobria-se inserida em um universo de envelhecida mão-de-obra, obsoleta para as novas tecnologias, universo este inaugurado, no nível empresarial do pós-guerra, pela IBM.

A gigante da informática teve em Thomas Watson o maior iniciador desse comportamento. O mundo capitalista pululava de novidades no entorno do terceiro mundo. Em uma visão mais detalhista, iniciava-se a presença, no cenário concorrencial, de um tipo de ‘vendedor agressivo’. Embora esse comportamento tenha sua história iniciada antes mesmo da IBM, não podemos esquecer que foi John H. Patterson, na National Cash Register (Cash), que deu início a tudo.

O mundo capitalista desenvolvia técnicas de vendas baseadas em persuasão, adulação de clientes e difamação dos concorrentes, num pesadíssimo jogo do capital. Aí estava uma nova ética ou talvez apenas etésios pela mimese praticada, o que era absolutamente novidade. O toque do mais emocional do ser humano, sua razão sensível e a própria emoção corporal das pessoas constituir-se-iam no grande cavalo-de-troia da fase que se iniciava no jogo do capital. O ritmo das revoluções acabaria por ser diferente nos países direta e indiretamente envolvidos. Vivíamos coisas como a Guerra Fria, capitalismos de periferia etc., o que marcava também uma nova trajetória da e para a economia capitalista no mundo do pós-guerra.

Mas a surpresa maior foi a introdução do cérebro-de-obra, principalmente o da mulher, no cenário da produção. Realmente, foi um grande toque de qualidade com que o gênero feminino, imbricado e escondido no enganador feminismo, definitiva e rapidamente mudou tudo no mundo de então. E o popular, por aqui, percebeu isso, como podemos ver no samba da epígrafe.

Criou-se, então, uma empresa independente, com o único propósito de concorrer e absorver as empresas rivais da Cash. Criou-se também o senso de compromisso com ela. Cultivava-se, de lá para cá, as lealdades irrestritas com a compensação de segurança vitalícia para um mundo de incertezas; talvez fosse a única saída visível para o torpor por que a mão-de-obra passava no mundo naquele momento, sem falar dos países do chamado terceiro mundo. O que soaria como uma troca, que suprimia do liberalismo a ferramenta de livre escolha do propalado individualismo, não tinha oportunidade de se fazer ouvir, dado o gigantismo das empresas monopolistas. Mas, como um castelo de areia, tudo viria a se desmoronar em um futuro bem próximo.

Watson fez da IBM um ícone de um mercado bilionário, que perdura até os dias atuais muito mais pela coerência da estratégia de vendas do que pelo domínio. Estava inaugurada a nova fase do jogo sistêmico no cenário contemporâneo mundial. Todos acertavam na diagnose, mas erravam na prognose! Como conceber uma sociedade de iguais e para supostos iguais onde havia, como há, a marca inconteste da competitividade?

Em um mundo marcado por calamidades como a Segunda Guerra Mundial, tendo que encontrar um novo paradeiro de modelo para viver, não se podia submeter à tragédia da verdadeira anomia social e sociocultural. Iniciava-se uma trajetória de recuperação econômica e sociocultural que necessitava urgentemente de um misto de amparo e incentivo para superar etapas fundamentais que se configuravam como os velhos ranços de uma extemporânea escravidão, agora marcada pela anunciada e ameaçadora pós-escravidão, que, pelo mosaico que compunha seus pesados conflitos internos, anunciava-se explosiva e extremamente complexa. Mas, não nos esqueçamos de que a mimese aqui praticada nos persegue insistentemente. Aqui se vivia – e de certa forma ainda se vive – mimeticamente a Europa e os EUA.

Não havia mais espaço para os pensamentos vaticinados pelo velho Adam Smith, como a mão invisível, que equilibraria as forças de oferta e procura do mercado. O jogo do capital teria se complexificado por demais. Tratava-se agora da efetiva contrapartida mão visível, misturada em um jogo que envolvia o insensível/sensível, como se coisificassem o ser humano, respingando fortemente no trabalhador-operário, que em muitos países ainda amargaria a síndrome da morte anunciada da velha mão-de-obra’, em um mundo já marcado pelo cérebro-de-obra, em nome do fazer produtivo, surpreendida pela tecnologia que fazia e passaria a comandar as cores da nova revolução, a tecnológica. O fato é que, demonstrando que estava sendo conduzido pela eficácia da administração, em contraponto à inércia frente às forças de mercado; a questão agora seria deslindar o novo diálogo do capital. Seria a hora de uma absoluta inversão de papéis, pois, se antes era apenas o mercado, agora eram também as forças de mercado que comandariam tudo. O mercado, dividido e classificado de maneira multiplicada em forças, era a (re)conceituação paradigmática de tudo, acobertada por um todoholístico, mas sem a presença cristalina e plenamente decodificada do diálogo existente entre o tudo e o todo. É nesse contexto que surge a presença da mulher, alterando comportamentos e anunciando que não estava sozinha, pois tudo estava rebocado pelo seu lastro, como a própria revolução sexual, que tocava de maneira contundente também o masculino.

Esse sinuoso trajeto era extremamente desafiador. Principalmente para que fossem feitas melhores diagnoses e prognoses de tudo naquele momento histórico. A realidade das novas grandes empresas reformulou todo o contexto socioeconômico e, especificamente, o social do século XX.

As mudanças do capitalismo e a mulher

Em relação ao capital e seu implacável desenvolvimento, no plano externo, tudo sofria significativas mudanças. O crescimento do trabalho em escritórios tipicamente urbanos e o surgimento de máquinas inovadoras, como a de escrever, acabaram sendo responsáveis pela introdução da mulher no mercado de trabalho. Tudo evoluía rapidamente. Aqui amargávamos a pós-escravidão, difícil de decodificar, formando sociedades paralelas, como disse Jean Claude Schmith (1990). No exterior, o capitalismo seguia sua trajetória inexorável de mudanças sociais e socioculturais, que se configurava cada vez mais em miméticas camadas sociais, como internamente no Brasil. A mulher foi quem representou o dado novo, quem processava a verdadeira mudança social nas relações. Contudo, aqui seus sinais se refletiam apenas em fragmentos de um certo segmento social. Mas grande contingente delas continuava ainda a enfrentar uma vida de reclusão, sob a égide e o peso quase sempre de um casamento machista, o qual, de certa forma, ainda podemos ver por aí. E, se pudermos observar pela lente da afro-descendência, deparar-nos-íamos com um verdadeiro quadro de abandono social e sociocultural de cores deploráveis, mas eram artimanhas do próprio serpenteio no jogo/caça/disputa do capital.

As mulheres que denominamos neoamazonas começavam a desenhar uma nova forma de comportamento, que levaria a abalos profundos na vida matrimonial. Tratava-se de um novo tipo de liberdade, e “a liberdade é (sempre) o que você faz do que for feito a você”, como já dizia Jean Paul Sartre. Elas, antes governantas, professoras, acompanhantes, penetraram definitivamente na atividade comercial e econômica da sociedade de maneira diferenciada, abrindo novas rotas de fuga do lar. Na passagem do século XIX para o XX, os escritórios estavam situados nas fábricas. A cidade abrigava o setor terciário, serviços como bancos, seguros etc. Havia convergência de interesses para esses centros urbanos. Nesse contexto, a mulher surgia como agregadora de funções; o invento que trouxe essa, diríamos, permissão foi a máquina de escrever, em que a palavra de ordem daqueles tempos – aprodutividade – tinha o trabalho da mulher superior ao masculino. O telefone completava o cenário favorável para a penetração da força de trabalho feminina e, ao mesmo tempo, ampliava a convergência das empresas para os centros urbanos, longe das fábricas. Portanto, não podemos esquecer que era grande a distância que separava a realidade vivenciada na Europa e nos EUA da vivida no Brasil.

Outro fator importante da ocupação da mulher no mercado de trabalho foram as diferenças visuais e auditivas. Elas se tornaram secretárias, transformando-se inicialmente esposas de escritório, escapando de mãos dominadoras e dos lares repressores para uma atmosfera mais racional e comum. Notava-se que, para elas, os novos empregos eram mais limpos e delicados que o trabalho fabril, ou mesmo que o velho trabalho doméstico. Contudo, havia ainda o caráter servil que as fazia dependentes do cargo. Mas no Brasil não evoluíamos tanto assim. Com raras exceções, vivia-se na maioria das vezes um quadro aterrador, em que a mulher era relegada à condição de ineficiência; raramente seu mérito era reconhecido, e quando o era certamente havia por traz algo que retratava um tipo conhecido de soberania masculina. Porém, tal coisa se dava somente nos escalões sociais beneficiados pela inclusão social (Perrot, 1991, 238) e, principalmente, sociocultural. A inclusão social acabava sendo uma farsa urbana para os egressos da velha escravidão brasileira. Na Europa não foi facultado às mulheres o ingresso imediato nos trabalhos gerenciais, o que somente viria a acontecer no último quartel do séculoXX.

Contudo, essa nova composição do mercado de trabalho permitiu grande mudança da vida social tanto na Europa como nos EUA, marcando o início da denominada revolução sexual. Por lá assistíamos a uma mulher que se impunha mais. Por essa razão insistimos no olhar mais agudo nessas transformações. O samba, inclusive hoje, revela e afirma, com ar de estupefação masculina, que “Era discriminada, sofria calada no seu dia-a-dia,/Ela mudou de vida, está protegida, tem delegacia,/Hoje exerce poder de fazer tanta coisa que muito machão não faria./Tem mulher...” No início, elas tinham que aceitar a supremacia dos valores masculinos sobre os femininos, mas com o tempo isso foi mudando.

A segunda e a terceira fases da Revolução Industrial, com a manomecânica e a automação tecnológica dos nipônicos, deram origem, no primeiro caso, a uma nova mulher, à qual chamamos “neoamazonas”,que começava a saborear os prazeres do poder. Surgiam as gerentes, que se transformariam, algumas, em verdadeiras déspotas. Durante a Primeira Guerra Mundial, surgiu o homem de negócios, treinado e profissionalizado para resolver problemas de autoritarismo e tiranismo administrativos, muito comuns naqueles tempos, notados até hoje por aqui. Surgiu também uma nova profissão, de consultor de negócios, gerente específico para buscar novos mercados e produtos. Contudo, Howard Scott previu que, nesse mesmo período, o crescimento da tão desejada produtividade geraria o desemprego permanente, que traria problemas sociais graves. Os empresários viram que não haveria espaço para empresas familiares, pois seu nepotismo deixava de ser privilegiado, coisa que também se nota ainda por aqui. Foi tudo fruto de uma pesada carga que trouxemos da escravidão engendrada na pós-escravidão? O fato é que nessas empresas exigia-se do profissional o mesmo que da família – como se exige ainda, de maneira que lembrava o velho senhor/senhora de engenho.

Os modelos administrativos dos anos 1920 tiveram a General Motors como modelo, contratando um gerente-chefe chamado Sloan, que seria responsável pela descentralização administrativa e, por mais de vinte anos, tornou-a vitoriosa diante da concorrência. Tal sistema provou sua importância tendo um líder forte, capaz de maquinar e submeter, fazendo com que um contingente de trabalhadoresconseguisse sucesso. Já se pode imaginar o que aconteceu por aqui, quando esse modo de agir chegou. Para um país acostumado à submissão escravistapor quase quatrocentos anos, não seria nenhuma novidade. Prática de comandar que se nota claramente como modelo até extemporâneo para nós e que ainda continua a ser vista e respira livremente no Brasil até hoje, salvando-se raríssimas exceções.

Assim, naquele tempo, a IBM de Thomas Watson estabeleceu o modelo de administração em que os empregados eram “treinados para pensar”. Direcionando-lhes a ação, não lhes dava o direito de vontade própria, gerando assim a dependência e o conformismo. Na empresa Lever foram demitidos funcionários considerados ineficientes e, numa segunda fase, D´Arcy Cooper descentralizou a estrutura da empresa, dando autonomia em cada país. As mudanças aconteciam em profusão em busca da garantia do quê de produtividade. A Shell acreditou na racionalização, não queria seus executivos numa competição mutua. Assim, foi criado um perfil britânico, com estilo e confiança para eles. Para os coronéis de indústria foram criados os cartéis para os proteger e tornarem-nos mais sólidos. O capitalismo não só avançava como também buscava se reinventar sempre, mas por aqui a coisa caminhava com brutal lentidão.

Em 1922, o romancista Sinclair Lewis lançava o livro Babitt, que tratava da história de um corretor de imóveis que traduzia a visão de homem de negócios moderno, um homem versátil que dava ordens e dirigia seu próprio carro; era a visão de total independência socioeconômica. Considerava seus negócios mecânicos, desgarrados de coisas e pessoas; visando sempre os bons negócios, usava de todos os meios possíveis. Representava o mais microscópico dos reflexos das mudanças sofridas na vida das pessoas mergulhadas no jogo, ou seja, os fatos do dia-a-dia, plenamente quantificáveis, um sinal de que as aparências realmente enganavam desde aquela época.

Nos anos 1920, Henry Miller criou e apresentou uma proposta de que o mensageiro tinha de ter consciência de que era uma peça da engrenagem da companhia. Desafiando a proposta racista da empresa, contratou judeus, negros, índios e até ex-presidiários. Concluía-se que não se deveriam aturar formas desumanas de comando dentro de uma empresa, com a visão de que era preciso ganhar a vida. Assim, como conclusão, os grandes empresários passaram a viver enjaulados, produzindo e criando dentro de um mundo restrito, sufocado. Por outro lado, geravam fracassados. Para as pessoas das tais organizações, um novo modelo de nomear tal pessoa surgia: era gente da organização.

O modelo da guerra

A Segunda Guerra Mundial trouxe para as empresas novos e inesperados comportamentos, como o senso democrático, em que qualquer tipo de ditadura era rejeitado. Estimulou a formação de comissões, o que denotava maior participação, e foram ainda reforçadas como instituição permanente. Sentiam-se desafiadas pela proposta comunista e influenciadas pelo sistema de planejamento militar. Reorganizaram-se e planejaram funções governamentais em escala muito maior e multiplicada, ajudando a trazer novos empregos. Sem consultar os empregados, impuseram regras como a disciplina, o planejamento e a logística de longo prazo dos modelos militares. Em muitos países, os cargos de diretoria e presidência foram ocupados por generais e almirantes; as empresas eram dirigidas por indivíduos decididos que insistiam na manutenção de um poder centralizado. Enfim, tudo mudava rapidamente, e o resultado foi que os EUA lideraram o que denominaríamos milagre industrial. Tudo consequência da mobilização de gente – e não de recursos.

Era tudo comandado por uma verdadeira revolução gerencial, em que os donos das empresas, na maioria fundos de pensão e companhias de seguros, apresentaram-se in totum. A prática política de não-ação, as ações dos diretores e gerentes não eram mais contestadas, significava a constante centralização do poder. Surgia, assim, uma nova sociedade: a gerencial, que representava reflexos nas reuniões gerais e anuais, em que o presidente proclamava decisões equânimes e nomeava diretores escolhidos pelos atuais dirigentes. Diminuiu muito o número de acionistas, tornando mais difícil a intervenção nos planos corporativos. A falta de prestação de contas e a existência de funcionários autoperpetuantes fizeram surgir formas de gerenciamento antidemocráticas. Não se assumiam mais riscos e responsabilidades coletivas. Não eram importantes coisas como qualidade pessoal da gerência, mas sim o nome da firma. A conduta conformista do novo executivo se fez notar claramente, pois estava em jogo seu emprego, sua sobrevivência. Tudo isso acabou por gerar a ausência do espírito independente. Foram, portanto, novos tempos em tudo, até nos hábitos e costumes individuais e coletivos. No Brasil, ainda amargávamos um quadro desalinhado do que se observava na Europa e nos EUA, tomando o quadro da internacionalidade, do tudo.

Retomando nossa linha de exposição: a IBM, com seu lema tradicional com respeito ao indivíduo na década de 1960, superou a General Motors em modelo de organização e motivação em larga escala e com motivação positiva, com novas unidades, laboratórios e vendedores ambiciosos, agressivos, que se assemelhavam aos rides... Thomas Watson, aproveitando essa verdadeira explosão da tecnologia para aqueles tempos dos computadores, da infomotricidade, restabeleceu relações com a universidade nova, criando um campo para a informática se instalar definitivamente. Chamava seus funcionários de “patos selvagens”; queria identificá-los como não acomodados. Apresentava-se com um slogan bem sugestivo: “Pense”. Nem de longe se poderia pensar, por aqui, em algo assim, pois nossa população destinada ao trabalho estava na mais absoluta exclusão social e, em sua grande maioria, transformar-se-ia em um caldo respeitado pela desocupação e pela criminalidade, fruto de uma pós-escravidão mal-resolvida.

Tudo era a dança dos sinais da futura tecno-estrututra,como Kenneth Galbraith chamava essas empresas americanas na década de 1950 e 1960, “o novo Estado industrial”, formado por organização tecno-estrutural, feita pelos gerentes; os engenheiros e especialistas e a organização produtiva controlavam os mercados. Galbraith dizia que as empresas iludiam os consumidores por meio da publicidade e possuíam suas estruturas dependentes da manutenção dos desejados lucros.

As empresas no mundo e no Brasil

Em 1970 deu-se um surto de competição internacional. As empresas se conscientizaram de que estavam fazendo produtos errados com pessoas erradas. Começava uma nova contenda, envolvendo famílias versus burocratas. A Inglaterra, fortalecida com a Segunda Guerra Mundial, continuava presa a seu antigo sistema industrial. Homens de empresa eram considerados agora secundários. Tudo mudava rapidamente e passava ao largo da realidade vivida pelo Brasil na época, que, pelo fenômeno da mimese,transformar-se-ia em Brazil. Em lugar dos empresários entravam os militares. Muitas empresas eram controladas por descendentes das famílias fundadoras e careciam de sabedoria administrativa. A falta de mão-de-obra e a expansão de empresas norte-americanas em seu continente provocaram a aceitação da administração científica no seu processo de condução. Foi o que fez a Shell: após a ditadura de um presidente militar, elegeu um presidente que acreditava na descentralização. Estabeleceu-se nela a diplomacia sensível para conter a nacionalização dos campos de petróleo pelos governos dos países onde tinha havido prospecção. Em busca da unidade, criou-se uma complexa burocracia com pessoas que se apresentavam como coordenadores que coordenavam coordenadores.

No pós-guerra, a Europa continental revivia com os militares nas empresas inglesas e confundia glórias militares com supremacia comercial, menosprezando seus concorrentes, achando que os mercados estavam garantidos. Os administradores alemães acabaram por mostrar que os recursos humanos eram mais importantes que os físicos. Na década de 1950 surgiram empresas leves e dinâmicas. A vantagem dos executivos alemães, naquele momento, era a existência de conselhos supervisores com participação de sindicatos, o que demonstrava claro objetivo de diminuir as tensões. O resultado foi o acirramento da concorrência com as empresas britânicas; as empresas germânicas eram mais profissionais no que concernia ao objetivo do lucro. Estávamos na metade do “século do não”!

Essas empresas nasciam de verdadeiros feudos familiares, dos quais a Fiat foi um belo exemplo. Na Europa havia famílias que controlavam companhias cujos empregados tinham sentimento de lealdade absoluta. A Fiat foi fundada em 1899 apresentando-se com um poder feroz e absolutamente centralizado. Na Europa continental prevalecia o estilo burocrático e o paternalismo familiar. Em 1965, superava-se esse triste modismo, que chegaria ao Brasil bem mais tarde, mas se constituiu em burocracias formais, como o caso dos britânicos e dos EUA, que chamaram a tudo isso de doença europeia. Espelhamos ainda, tardiamente, esses velhos retratos? Os intelectuais olhavam sempre com ar de superioridade para os burocratas das empresas, tudo fruto de um modelo exportado para os países em desenvolvimento e absorvido rapidamente como prática de comportamento mimético.

Surgiram então os impérios invisíveis da Rússia, onde a estrutura ideológica comunista e a confusão de sucesso militar com prosperidade comercial os tornavam também menos capazes de lidar com a factível e já inexorável competição global. O resultado foi falta de competição em seus mercados, pouco gerenciáveis, pois a vida das corporações era decidida pelo governo e por suas políticas. O mundo novo soviético jamais nasceu, mas o pesadelo burocrático era mais universal do que os ocidentais gostavam de pensar. Os executivos desenvolviam seus próprios impérios, cujas limitações só ficariam visíveis à luz da competição mundial.

As mudanças nos anos 1960

A revolta nos anos 1960 foi logo sentida; a relação indivíduo-empresa era bastante desconfortável. Os executivos eram acusados por estudantes radicais em rebelião contra governos, universidade e sociedade em geral. Foram anos marcados por instabilidade profunda, que caracterizaram o fim do consenso entre empresas e sociedade. Em 1964, os EUA, com espetacular abuso de poder empresarial, revelou a extrema arrogância e o isolamento da General Motors. Ralph Nader, advogado e defensor dos direitos do consumidor, investigou a insegurança dos seus carros (Nader, 1965). A reação da General Motors foi imediata: contratou Michael Danner, um ex-agente do FBI, para investigar o passado de Nader. A conclusão foi que a General Motors deveria aceitar que o big business era de fato afetado pelo interesse público, ou seja, a segurança dos clientes deveria ser um fato crucial para ela.

Eram sintomas de uma reação ao comportamento e aos valores das empresas. Os operadores financeiros, estimulados por uma nova onda de fusões devido ao boom do Vietnã, acumulando suas ações, compraram outras empresas para criar conglomerados, com ampla gama de negócios que centralizavam ainda mais o controle da indústria. Proclamavam a Teoria da Sinergia, que seria o mesmo que combinação; afirmavam que o desempenho após uma fusão era maior que a soma de suas partes, o que seria dizer que dois mais dois agora seriam cinco, como na canção de Caetano Veloso. Ensaiava-se o que teríamos com a futura visão holística. Executivos temeram as demissões em massa, que seriam a “sombra do medo” que os rondava no choque de complexas visibilidades. Ineficazes, os conglomerados aumentaram a burocracia dos negócios.

No Brasil amargava-se um período de início de pós-escravidão que nos tornava socioculturalmente complexos e próximos da calamidade. Era aí que pesava toda a nossa herança crioula, que continuava em nossos pequenos hábitos sociais e culturais. A vida era cada vez mais sofrida para os que tinham a descendência da velha prática de produção do passado. Para muitos deles, a sarjeta era o destino. A visão que se tinha de nosso “tudo” diante do todo era vergonhosa para os novos tempos capitalistas. A proliferação de favelas epalafitas (Guimarães, 2000; Preteceille e Valladares, 2000) trazia para os olhos da coletividade inserida socialmente o terror e a terrível pena (Chevalier, 1958), a insana consequência de tudo que amargamos ainda. Restava-nos, talvez,o mimetismo mal feito do quevinha de fora, como sesaboreássemos os prazeres dos outros.

Em 1969, em plena guerra-fria (Fiori e Medeiros, 1999; Fiori, 2004; Fiori, 2001, p. 139), o empresário Robert Towsend chegava a atacar as grandes empresas, dizendo “Se você tem uma boa empresa, não a venda para um conglomerado”. Em seu livro Levantando a organização, afirmava que as empresas acreditavam também que as pessoas odeiam trabalhar, precisam ser dirigidas e não gostam de responsabilidade, o que definitivamente não é verdade.

Os empresários preocupados com essas suposições foram Frederick Herzberg, consultor da AT&T, que pregava o enriquecimento do emprego e o desenvolvimento individual; Douglas Mac Gregor, que rejeitava a chamada Teoria X, que dizia que os trabalhadores tinham de ser coagidos e punidos para trabalhar; substituiu-a pela Teoria Z. Também dessa época, Abraham Maslow igualmente promovia a Teoria Z¸ a qual afirmava que os trabalhadores precisavam de estruturas seguras e um sentido de direção para manter padrões e objetivos altos. Mas ninguém se atrevia a pensar numa solução verdadeiramente coletivizada que privilegiasse as diferenças, que se baseasse na verdadeira união e no companheirismo, num ambiente de tolerância em que o trabalho faria a diferença sempre de maneira coletiva, com respeito às individualidades. Como podemos ver, foi uma dança absolutamente macabra de mandonismo pelo mundo afora; seus respingos inexoravelmente acabariam caindo sobre nós. Não se podia imaginar coisa contrária a isso, considerando nosso caráter sociocultural.

Assim, o resultado foi que as empresas adotaram o programa de desenvolvimento organizacional destinado a aumentar a produtividade porque tornariam mais felizes os empregados; mas suspeitamos que tenha sido uma felicidade mórbida. Os diretores executivos começaram a mandar seus gerentes para cursos de formação de equipes para dar-lhes treinamentos de sensibilidade. E tudo para que se empreendessem mutuamente e se comunicassem com mais facilidade. Mas, vemos hoje, tudo redundava apenas em uma mera troca de palavras, pois é muito difícil a tradução das emoções. Na Califórnia, foram implementadas experiências radicais sobre análise e terapia de grupo adaptadas para a tomada de decisões realistas de empresas voltadas para o lucro.

Com as multinacionais, nos anos 1960, surgia um novo homem de empresa, movido pelo avanço tecnológico e pela expansão de mercado, de quem eram exigidos maior dinamismo e versatilidade. O mundo ficava sem fronteiras, principalmente movido pela infomotricidade e pela infotecnologia. Como exemplo: o rebelde podia atravessar sem escalas o Atlântico em sete horas, ir a um outro país por apenas uma noite e falar imediatamente com seu escritório central. Aproximava-se o que chamamos atualmente de just-in-time. Poder-se-ia perguntar onde se encaixariam ou em que categorias estariam os rapidamente antiquados caixeiros viajantes de nossa realidade histórica. Nisso tudo, nosso país rapidamente ficava mais velho em sua esmagadora maioria populacional de excluídos socioculturais.

Entre países e empresas

No mundo do capital, nos países desenvolvidos, todos se tornavam cidadãos do mercado, devendo mais lealdade a suas empresas que aos seus países. Com o Mercado Comum Europeu (MCE), em 1956, os norte-americanos acreditavam na venda do mesmo produto em qualquer parte do mundo que chamavam de Europa Meridional, sem diferenças nacionais ou locais. Com a mudança de velhos conceitos, o jogo do capital ensaiava uma nova dança, que envolvia novo diálogo, que envolvia localismos globais e globalismos locais (Cortezão, 2003), no qual o tudo não mais conseguia dialogar com o todo.

Nos anos 1960, os chefes de empresas buscavam um tipo de autoridade supranacional, temendo que as fronteiras políticas dos Estados-nações fossem estreitas e apertadas demais para definir o escopo e o alcance da empresa moderna. Para eles, o ideal seria uma empresa internacional que se desprendesse de toda identidade nacional. O Estado começava a ser um grande empecilho aos negócios. Em suma, esperavam negociar da mesma maneira em todo o mundo. Empresas norte-americanas continuavam, no exterior, sob controle firme de cidadãos americanos. Os europeus achavam mais espaço para promoção fora do país. Por exemplo: a Cruz Vermelha, a Legião Estrangeira. Mas não percebiam que uma revolução se configurava cada vez mais forte: a revolução feminina, mudando os hábitos, costumes, maneira de ver e sentir tudo.

Surgia um modelo novo de empresa global que passava a ser o agente mais poderoso da internacionalização da sociedade. Sendo assim, os homens de empresa começam a aparecer como gerentes mundiais. Do mesmo modo, as empresas exigiam sigilo e lealdade quando se defrontavam com revelações e reagiam com severas punições, como no caso da General Motors, perseguida por Nader. Havia poucos informantes sobre abuso do poder empresarial, mesmo quando centenas de funcionários sabiam de algo. O conformismo era alarmante para os de fora. Por exemplo, o caso do famoso agente laranja, herbicida mortal, usado na Guerra do Vietnã.

Tudo aumentava as tensões entre empresas e governos. O ressentimento norte-americano foi caricaturado no filme Rede de Intrigas, de 1976, que abordava o aumento dos preços, da violência nas ruas, a depressão e a inflação. Os investidores depararam-se com um novo tipo de profissional, os executivos diferenciados, saídos diretamente das universidades, que formavam profissionais e grupos relacionados e sobretudo informados de questões industriais nacionais e mundiais, vitais para alimentar uma futura ação empresarial na concorrência.

A situação japonesa

O Japão amargava a falta de indústrias de defesa militar. Passou então a produzir novos bens de consumo, com novas tecnologias, para competir no mercado internacional, a conhecida indústria pacífica. Assim, suas indústrias, carentes de mercado interno substancial e de recursos naturais próprios, se voltaram para o mercado externo, valorizando a exportação e adequando seus produtos aos novos consumidores, os norte-americanos, que estavam voltados para seu rico mercado interno. Os executivos japoneses já estavam inseridos numa nova mentalidade de desenvolvimento, estando alguns passos à frente de seus competidores. Rapidamente o Japão já fabricava o carro, prova de sua capacidade competitiva. A Toyota, de Eiji Toyoda, precursor dessa nova forma de administração que ia do controle de estoque just-in-time a um novo tipo de relacionamento que apresentava a empresa como ambiente familiar, barateando custos e aumentando a produção, surgiu como uma competente competidora no mercado.

A cultura básica de uma companhia japonesa não derivava de modelos ocidentais, mas da antiga estrutura das empresas familiares feudais, com artesãos incluídos na família. Ela permitia a comunicação mais fácil entre seus membros e tinha extraordinária capacidade de compensar a estabilidade da velha geração com o vigor dos novos. Não eram empresas gerontocráticas, mas o importante era que, com poucos velhos, estavam agora no topo do jogo do capital. Conseguiam um convívio fértil entre experiência e dinamismo. Os gerentes seniores davam muitas oportunidades aos jovens nas tecnologias novas e permitiam o fluxo maior de ideias; e as sugestões para cima e para baixo acabavam sendo um gigantesco diferencial. Enfim, movimentava bastante a troca de experiências e, de maneira constante, tudo fluía melhor. Esse processo foi chamado de gerência média-acima-abaixo. As companhias japonesas, muito mais flexíveis, estavam preparadas para tomar decisões muito ousadas e rápidas.

Os anos 1970 foram caracterizados pelos produtos japoneses, que tomaram conta do mercado. Mas, nos anos 1980, a invasão das empresas construídas no exterior, como a Honda, de Ohio, EUA, em 1982, surpreendeu o moderno mundo capitalista. Os japoneses compraram propriedades nos EUA de maneira extremamente agressiva, como foi a compra da Columbia Pictures, a atual Sony, e da Universal, atual Matsushida. As multinacionais japonesas transformaram-se em verdadeiros espantalhos para os americanos, assustando até seu modelo e sua prática capitalista.

O impacto da invasão dos japoneses na Europa foi menos traumático, pois os europeus já haviam perdido sua predominância econômica. A Grã-Bretanha recebeu mais investimento, pois tinha trabalhadores mais baratos e mais bem preparados. O sucesso dos executivos japoneses causou tensões gigantescas (e os nipônicos relutavam em promover gerentes ocidentais). A própria conjuntura anunciava o retorno do capitalismo sem restrições. As eleições de Margaret Thatcher em 1979, na Inglaterra, e de Ronald Reagan, em 1980, nos EUA, foram uma oportunidade especial para a reabilitação do capitalismo puro. Utilizavam-se então metáforas da selva para justificar suas ações. O herói central de tudo agora era o raider, o investidor agressivo, defensor dos acionistas oprimidos, que exigia valores de ações mais altos e dividendos maiores. Os executivos ficaram subitamente vulneráveis aos raiders e aospolíticos, que os criticavam por só se preocupar com seu próprio conforto e com os interesses na empresa. O capitalismo selvagem manifestava-se através da guerra dos raiders, verdadeiros oportunistas, que compravam ações de empresas em baixa, após a inflação de 1970.

A consequência disso tudo foi a especulação acima da produção, um dos grandes males do capitalismo. Surgiram daí as fusões e aquisições, gigantes que competiam na guerra do mercado. A quebra da bolsa em 1987 enfraqueceu os raiders. O melhor retrato das divergências dentro do capitalismo foi do empresário Michael Albert, que distinguiu o modelo neo-americano de capitalismo,defendido porRonald Reagan, do modelo renano, praticado por Alemanha, Suíça e Holanda, que considerava a empresa uma instituição social e uma comunidade duradoura. Ignorava o modelo japonês de capitalismo, que combinava responsabilidade para com a comunidade, maior sensibilidade e flexibilidade. Observava que os raiders tinham ajudado a transformar o conceito de corporação, que surgira pela primeira vez na Renascença. As coisas mudaram muito desde o tempo em que a palavra companhia significava comunidade de interesses, sociedade mutuamente benéfica de empregadores, empregados e investidores. As companhias eram agora apenas máquinas de fluxo de caixa, sujeitas aos desejos e caprichos das finanças e expostas a especulação em bolsas de valores.

No Brasil, vivíamos ainda problemas de solução dificílima no plano sociocultural, pois amargávamos grande contingente de egressos da escravidão. A dominação garantida outrora pelos velhos senhores de engenho e seus latifúndios transformara-se, sem percepção in time por eles mesmos, em um mundo de diferenças assustadoras. A incompreensão e a insensibilidade dos governos garantiram a manutenção de uma situação de letargia quase absoluta com tudo que se avizinhava e com tudo que crescia velozmente.

Certos segmentos sociais mais bem aquinhoados pela herança socioeconômica e sociocultural brasileira se manifestaram absolutamente contrários a tudo que se formava na sociedade. Quase sempre transferiam a culpa de tudo para os governos, ora instituídos autoritariamente, ora eleitos pelo voto direto (prática pouco conhecida em nossa realidade política). Mas, “o século do não” marcou sua trajetória no nosso país, demonstrando que careceríamos de muita atenção. Primeiro, por nossas dimensões continentais; depois, por nossa presença crescente no cenário internacional, sem falar na nossa compleição e composição corporal de multicultura complexa. Ao largo de tudo isso, construiu-se um corpo social e sociocultural que coabita-nos, atormentando-nos em cidades (como o Rio de Janeiro moderno) repletas de favelas, palafitas, alagadiços. Esses excluídos socioculturais autônomos são absolutamente novidadeiros no agir e pensar e não têm amparo e educação adequados.

A vez da China

No todo, a ascensão da China e a decadência do Japão tiveram como resultado a mudança radical do panorama. A estagnação econômica do Japão, no início dos anos 1990, relacionava-se a uma sucessão de escândalos político-financeiros no jogo do capital que distorciam a imagem austera de país produtivista do passado. A deterioração do sistema japonês como segunda potência econômica do mundo surgia agora como um importante dado da recente crise que se avolumava no cenário internacional, fonte inclusive de explicação do surpreendente colapso de sua esfera de influência regional.

Nos anos 1980, chegou-se a forjar uma teoria da hegemonia mundial da área econômica do Pacífico como sucessora histórica do Atlântico, dominante desde o século XVI, herdeira do Mediterrâneo, extremamente explorado na época. O Japão parecia estar agora no centro desse novo imaginário.

A  tese da “marcha do progresso histórico do Leste para o Oeste”, do despotismo asiático antigo para a modernização ocidental, proposta por Hegel no final do século XIX, prolongava-se para a conjunção da Ásia Oriental e a Costa Oeste dos EUA. Assim, o velho mundo burguês atlântico europeu e neoeuropeu encontrava novos horizontes para o velho capitalismo, agora revivificado ou emergente do Pacífico. O eixo Califórnia-Japão se convertia no centro da nova revolução, baseada na informática, na biotecnologia e em outras tecnologias de ponta.

Tudo se dissipava sob a era a informática. O Pacífico não era mais o paraíso do capitalismo, mas o espaço marcado por uma complexidade eivada de estranhos casamentos, contatos, diálogosentre o tudo e o todo. O Japão e seus sócios regionais deixavam de ser exemplos para se converter em sociedades enfermas. No Brasil, a elite respirava um ar de mímica e não conseguia ver o verdadeiro fosso que separava pessoas; perdia-se em discursos vazios, divorciados da realidade, como os dos socialistas, que continuavam acreditando em uma recuperação através aspecto econômico, somente.

A razão maior de tudo estava no surgimento da razão sensível, marcante para a época. Ela alterava o tudo no todo, ou seja, tratava-se de um novo arranjo orquestrado não mais pelos EUA e Japão, mas pela informática, que punha o homem em nova direção, pois agora “os menores sussurros poderiam ser ouvidos, apesar dos pesares, principalmente quando se falasse a verdade!”. A mimese praticada aqui carnavalescamente via sua consagração absoluta. Afinal, como explicariam Sunkel e Pedro Paz sobre a colonização da América Latina, caracterizávamo-nos como nações de “desenvolvimento para fora!”. Nosso caráter contemplativo era nossa marca maior (e, por isso, optarmos aqui por chamá-lo Brazil), pois em sua afro-descendência não conseguia se definir socioculturalmente, vivendo a pós-escravidão com opreconceito: a “cangalha pesada para carregar”, porque sem solução imediata.

No plano internacional, um protagonista inesperado entrou em cena: a China, que se mantém de pé desde o início década de 1990. Na época, as análises ocidentais se concentravam no ritmo de sua liberalização econômica, que presumivelmente a inseriria num processo similar ao soviético da era Gorbatchov, porém combinado com ensaios de capitalismo selvagem-exportador, no estilo dos chamados tigres asiáticos.

Porém nada aconteceu; pelo contrário, os chineses expandiram seu comércio exterior, suas áreas associadas ao capital multinacional e as transações mercantis internas, mas mantiveram um Estado forte, um partido comunista hegemônico e amplos setores econômicos e sociais alijados do mercado internacional. Seria uma nova maneira de orquestrar a contrapartida às crises do capitalismo? O “socialismo de mercado chinês” não pôde ser vendido pela propaganda liberal ao resto do mundo subdesenvolvido; suas feições estatistas, autonomizantes e a presença comunista convertem-no em um objeto que não se encaixava na ideologia dominante na época.

A China irrompeu como um fator decisivo em nível mundial. Até fevereiro de 1998, eram comuns opiniões como a de Thomas Friedman, que dizia que China, Japão e Estados Unidos, seriam os motores da economia mundial. O efeito global disso foi que, nos primeiros meses após o crack asiático, os analistas sustentaram que os ex-tigres começariam a vender sua produção, feita por trabalhadores com baixos salários e, portanto, barata, ao mercado internacional. Foi uma avalanche de exportações manufatureiras a baixos preços, mas a contração do poder de compra deles é que operaria como um superfator recessivo depressor de preços e investimentos no mundo.

Outros analistas consideravam necessária a decisão voluntária dos países ricos de absorver a avalanche exportadora asiática, ajudando tais economias a sair da recessão e a pagar suas dívidas. Alguns até embarcaram em um tipo de ultraliberalismo, no dizer do economista Milton Friedman, propondo deixar cair os bancos e grupos financeiros considerados incompetentes, livrando ex-tigres, obrigando-os a superajustes. Seria o capitalismo apresentando sua maior complexidade? O importante foi que o resultado previsível, a hiperdeflação mundial, aconteceu. A capacidade produtiva encolheu, ajustando-se em nível baixo, com demanda global declinante e chegando a um novo ponto de equilíbrio da economia mundial, a partir do qual se reconstruiriam os lucros empresariais. No futuro ouviríamos com insistência esses delírios extremistas, que poderiam convergir com discursos autoritários e ultraconservadores. Não é fora de oportunidade lembrar que o próprio Friedman foi admirador do general Pinochet. E, em meio a tudo, ainda havia o surpreendente surgimento de coisas como o ‘feminismo’, que encontrava seu oposto, o ‘feminino’, na revolução sexual que estava em curso. Esse foi o “século do não”, que conseguiu o ocultamento de novidades que pululam entre nós, surpreendendo-nos até o ethos. Com grande feeling, diz o samba: “Tem mulher! Dando show no gramado, apitando, jogando, batendo um bolão. Tem mulher! No congresso brigando, buscando a saída pra nossa nação. Tem mulher! Que não foge da luta encara uma obra, virando concreto de calo na mão”.

Contudo, em 1996, no campo econômico, ainda apareceram graves sintomas de saturação comercial, tomando por base a economia mundial globalizada, pois a queda de preços para produtos eletrônicos começou a ser também surpreendente. Ouvia-se que o Japão se deteriorava e a Europa Ocidental sofria de grave estagnação, com altos índices de desemprego e conflitos sociais como consequência. Repetia-se a velha ladainha do jogo do capital: o carma estava bastante pesado, tudo se anunciava aterrador. Contudo, como “gato escaldado tem medo de água fria”, já se pressentia que não era um momento muito confortável. Tanto a produção como as exportações mundiais de mercadorias se desacelerariam desde o início de 1994.

Constataram-se, após, fatos que marcaram um período de crescente descrédito do velho liberalismo na Europa, com evidentes impactos internacionais significativos. O PIB da América Latina teve em 1995 crescimento quase igual a zero! O PIB por habitante apresentava queda de 1,5%, depois de ter crescido no início da década. E o desemprego aumentou assustadoramente. Nos anos seguintes, os números oficiais da suposta recuperação, não se ocultaram à profundidade da deterioração social e ao aumento da fragilidade externa. Tudo mudava – até e inclusive a razão que de concreta se tornava sensível.

Dualidade de euforia e crise

Essa dualidade de euforia e crise, as duas imbricadas, que culminou com a derrocada asiática, inseria-se num processo internacional amplo em época semeada de depressões, explosões inflacionárias e distúrbios financeiros gigantescos, iniciados com a crise monetária de 1971 e o primeiro choque do petróleo em 1973 e seguidos pela estagflação. A crise da dívida periférica no início dos anos de 1980, a crise financeira de 1987, a crise mexicana do final de 1994 completariam o quadro crítico. O capitalismo não conseguiu se livrar de grande crise de três décadas de duração. Entretanto, novos perigos apareceram. Em março de 1998, Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve (Fed), quando muitos especialistas declaravam que o pior havia passado, perguntava: "por que haverá uma terceira crise?" Mas a surpresa foi grande quando da explosão tailandesa e seu impacto sobre o resto do Leste asiático. As explicações se concentraram nas manobras financeiras irresponsáveis, as quais passariam à corrupção governamental. Daí para a revalorização negativa dos modelos de crescimento desses países, desembocando nos efeitos mundiais depressivos da crise regional e na descoberta da emergência da China comunista, foi um passo.

O segundo passo foi a decadência estrutural do Japão. Com ela, todo o chamado mito da primavera capitalista do Leste asiático desabava também. As fantasias liberais globalistas sofreriam um duríssimo golpe. Contudo, o delírio conseguiu sobreviver. Surgia o supergigante Tio Sam, transbordando prosperidade, mostrando-se um imbatível modelo universal: fora o vencedor da Guerra Fria, com hegemonia política inconteste, havia reduzido o déficit fiscal e a taxa de desemprego, flexibilizando as normas trabalhistas e tendo liderança tecnológica. Em comparação com a Europa ocidental, com milhões de desempregados e economias em vias de estagnação, sua presença foi acachapante. Esses fatos pareciam demonstrar que a vitalidade histórica da livre empresa estaria, como o velho e conhecido capitalismo, trocando de pele novamente. Poderíamos perguntar se haveria melhor desculpa para uma ampla gama de regimes periféricos na e da América Latina – como na Ásia, África e Europa oriental – expressarem submissão à agora superpotência global, que a história acabou por denominar, com muita propriedade, de República Imperial!

Mesmo assim, ao longo do mês de abril de 1998 os meios de comunicação tornaram visíveis os preocupantes sinais de tudo. As primeiras linhas de um terceiro momento da crise começaram a ser escritas depois dos tigres e do Japão. No noticiário da CNN de abril, Paul Samuelson descrevia possíveis cenários da evolução econômica dos EUA. O primeiro era otimista; o segundo, sem maiores esperanças, com a perspectiva mais sombria, merecia detalhamento maior. Ressaltava que, diante de evidências de reaquecimento econômico, mais cedo ou mais tarde, os lucros empresariais seriam inexoravelmente afetados, as taxas de juros aumentariam e as ações despencariam, com os efeitos recessivos subsequentes – que respingariam em todo mundo, obviamente.

Samuelson advertia que, quando a bolha explodisse, seria perfurada a pretensão de invencibilidade dos EUA. A crise de identidade do Japão de 1990 a 1998 teria sua contrapartida na necessidade de pensar a vulnerabilidade do Tio Sam dos anos 1999 a 2001, mas ela chegaria ao novo milênio. O fortíssimo dólar poderia se tornar superfraco. A Ásia seria a mais afetada, mas a Europa não escaparia do impacto deflacionário. Também em 1998 apareceu nota na revista The Economist que assinalava a possibilidade de a economia dos EUA entrar em crise por causa do desenvolvimento desenfreado e da especulação financeira.

O capital financeiro apresentava e conduzia toda a dança da crise do jogo do capital, o responsável supremo. Segundo a publicação, existiam evidências generalizadas dos excessos especulativos. Eram quatro sintomas principais: as ações supervalorizadas, a febre das fusões, o aumento dos preços da propriedade imobiliária e o rápido crescimento da oferta monetária.

A matéria jornalística prosseguia dizendo que o mercado de valores dos EUA subia mais de 30% em 1997. Eram sinais de que se aproximava uma crise grandiosa. Os preços das ações continuariam aumentando, apesar de os crescentes indícios de ganhos empresariais se reduzirem nos doze meses seguintes. A  loucura das fusões, que também incluía onda de fusões bancárias, era característica notável das economias de tipo bolha, da qual todos queriam se salvar. Em 1997, as fusões de empresas chegariam, nos EUA, a um total de US$ 960 bilhões, gerando média mensal de US$ 80 bilhões. Mas entre 1º de janeiro e 13 de abril de 1998 havia mais de US$ 440 bilhões, significando média mensal próxima dos US$ 135 bilhões, quase setenta 70% a mais que em 1997. The Economist também assinalava que nesse século, ‘o século do não’, existiram quatro ondas de grandes fusões, as três primeiras terminaram nos crashes de 1904, 1929 e 1969, o boom de 1980 perdeu impulso e a economia deslizou para a temida recessão de 1990.

O terceiro sintoma da economia de bolha foi um mercado imobiliário que ainda continua a apresentar graves problemas. Em 1997, os aluguéis comerciais subiram 20% nos estados de San Francisco, Boston e Dallas. Em Nova York, chegou-se, inclusive, a oferecer o equivalente a US$ 180 por pé quadrado (o que representaria aproximadamente US$ 1.900 por metro quadrado) de área construída na famosa Times Square, o que era duas vezes o preço pago por um prédio equivalente apenas seis meses antes. E, por último, o indício mais evidente de uma verdadeira bolha foi o crescimento monetário acelerado. Diferentes indicadores assinalavam rápido crescimento da oferta monetária; o artigo acrescentava que

a bolha em que está a economia dos Estados Unidos sugere que o Federal Reserve tem de ajustar as torneiras monetárias. Mas isso pode ser mais difícil do que parece, já que o Federal Reserve, tem limitada sua capacidade de aumentar as taxas de juros para conter os excessos especulativos. (...) Perfurar uma bolha financeira é um assunto arriscado.

As ondas de fusões tendiam a ser estimuladas pelos mercados de valores, os quais estavam em rápida alta, e a compra especulativa de ações tornava-se extremamente favorecida pelo fácil financiamento, com taxas de juros inferiores às de crescimento de seu preço. Temerosos de que “o boom especulativo” terminasse de maneira catastrófica, começaram as veiculações favoráveis a um certo esfriamento financeiro, impulsionado mesmo pelo Fed, por meio de um aumento razoável das taxas de juros. O capitalismo novamente começava a se converter em um barco sem remos e todos sentiam isso.

A proposta de Samuelson era relativamente complexa: propunha combinar uma suave desaceleração nos EUA com forte impulso para o crescimento e a produção no Japão e na Europa. Contudo, a densa trama de interconexões entre produção, finanças e consumo tornava pouco viável essa alternativa. O esfriamento americano acabaria por bloquear as tentativas de reativação dos outros componentes do mundo desenvolvido, e a verdadeira avalanche especulativa no jogo do capital alcançava extensão e capacidade de ação muito superiores às prováveis tentativas de controle dos Estados dos países considerados centrais. Abrir para um novo viés seria a saída? Mas como? E ainda não se tinha focado o alerta para o toque dos direitos coletivos. E as sociedades multiculturais? Como reagiriam, uma vez que todas eram economias periféricas? Diante do fenômeno de transformação do capitalismo no Brasil-Brazil, pela mimese, como seríamos atingidos?

Direitos coletivos e sociedades multiculturais diante do fenômeno de transformação do capitalismo no Brasil

No mundo em que o Estado reconhece, protege e pretende transformar todos os direitos em direitos individuais, sabemos que é quase impossível aceitar coisas como a sobrevivência do multiculturalismo. E o Brasil está nesse métier. A construção do Estado contemporâneo e de seu Direito foi marcada pelo individualismo jurídico, pela transformação de um todo titular de Direito em um indivíduo. Assim também foi feito com os diferentes povos, criando a ficção de que cada povo indígena, por exemplo, seria uma individualidade, com seus direitos protegidos.

Os países latino-americanos sempre buscaram separar os indivíduos indígenas de seu povo, assimilando-os à sociedade nacional como um todo, unívoco, pois assim eles deixariam de ser povo diferenciado. O sistema pensou que a assimilação, socioantropologicamente falando, seria possível por meio de uma inclusão pura e simples no e do trabalho, não levando em conta que se tratava de uma cultura de alicerces profundos e fortes. Mais tarde foram reconhecidos os direitos coletivos, permitindo que os países se considerassem multiculturais e pluriétnicos. O colonialismo do tipo mercantilista teve em sua trajetória com os povos locais um relacionamento de profunda exploração. As desigualdades de condições e a crueldade marcaram as guerras de Portugal e Espanha. Os chamados índios eram ferozmente caçados nas selvas, treinados para serem escravos, cristianizados e transformados em força de trabalho para os capitais mercantilistas. Todos os povos da América sentiram a chegada dos europeus e, naquele tempo, quando tentavam fugir em busca de território, não os encontravam desocupados, mas em poder de outros povos com quem tinham sempre que guerrear para disputá-lo. O fato de a América ter se organizado em Estados nacionais não ajudou muito para mudar a sorte desses povos ou unidades socioculturais que aqui viviam com certa liberdade. Há uma dívida a saldar; que, pelo visto, será eterna.

As guerras de independência do início do século XIX não tiveram cunho libertador, apesar do esforço de homens como Tiradentes, Bolívar e Artigas, pois seus discursos não abrangiam a realidade em toda a sua complexidade. Fica difícil entendê-los separadamente e resta-nos atribuir-lhes a condição de coitados; mas isso seria apenas uma fuga da verdade e/ou a verdadeira herança do que os lusitanos nos deixaram, que temos ainda que carregar.

As guerras que tiveram apoio dos índios não conseguiram construir Estados livres na América Latina, até os dias atuais. O Paraguai acabou sendo uma exceção: Francia promoveu junto com os indígenas uma verdadeira independência, expulsando os proprietários de terra e os representantes dos interesses espanhóis e ingleses colonizadores durante a continuada fase de acumulação primitiva de capital (caso denominemos como capitalismo comercial o velho mercantilismo). O Paraguai se industrializou, garantiu excelente qualidade de vida ao povo, que estava alfabetizado, bem nutrido e profundamente nacionalista. Parecia que não pertencia ao bloco de países ou ao continente em que estava.

Essa experiência duraria varias décadas, até o momento em que a Inglaterra, inconformada, incentivou Argentina, Brasil e Uruguai a promover uma guerra de destruição e extermínio que durou até que o último homem paraguaio tombasse ou fosse dominado, arrasando o país que cada vez mais se apresentava oposto aos interesses das potencias do todo de então. Foi uma guerra de proporções inigualáveis, em se tratando do extermínio, como a história classificou. A imigração do século XIX e XX também trouxe povos muito diferenciados, expulsos de suas terras originais e iludidos por uma propaganda enganosa.

Aos imigrantes brasileiros de trabalho livre foram reservados tratamentos bastante desumanos, sem poder dirigir a própria terra. Sabemos que chegavam brasileiros, quase sempre vindos do interior ou egressos da Guerra do Paraguai, todos envolvidos em ação empreendida por empresa agrícola. A esses agrupamentos humanos foram negados os direitos coletivos, fazendo valer apenas os conhecidos direitos individuais. O ranço do atraso marcava-nos de maneira inconteste. Na América Latina como um todo também foi assim, guardando-se algumas particularidades. Não podemos esquecer que o vício da escravidão era algo que estava gravado na obra dela, fosse quem fosse o escravizado, como disse o abolicionista José do Patrocínio na ocasião da assinatura da Lei Áurea, em 1888. A reprodução seria nosso maior marco em termos de comportamento e prática vivida pelos colonizadores e colonizados, O que reverberou, de certa forma, na elite.

No Brasil do século XX, as leis indígenas sublinham a integração dos índios à comunhão nacional. Em outras partes do mundo, como Ásia e África, o colonialismo não deu o mesmo tratamento aos povos locais, mantendo as colônias sob uma espécie de política de apartheid, marcada por ações violentas, caso fosse maior a resistência do povo local. O que fazer?

É mesmo uma nova ética e/ou apenas etésios no mundo das regras? Falar sobre os resultados socioculturais que o Brasil adquiriu com a participação do preto escravo africano livre torna-se um verdadeiro um desafio, se insistirmos em apenas olhar para o problema econômico, por exemplo. Não podemos nos esquecer de que pobreza dá prejuízos sociais, políticos e até mesmo no plano das ideias, dada a sua inconteste complexidade. Um desses reflexos é aquilo a que estamos assistindo agora: as velhas crias resultando na sociocultura crioula. Teríamos que analisar os avanços e conquistas na construção das leis desde o século XIX.

O velho semba das senzalas foi construído como e para ser uma voz daqueles sem voz do processo de escravização brasileira e continua hoje a se multiplicar entre nós, oferecendo exemplos de uma vida vivida na diversidade da história social que temos em nossa cultura. O samba permite uma leitura mais próxima das heranças deixadas pela africanidade, dentre outras contribuições igualmente culturais: para constatar, basta olhar, com critério e acuidade, os detalhes que estão no dia-a-dia daqueles que conviveram e ainda convivem no todo de nosso caldo de cultura moderno.

O capitalismo na América Latina

A nova roupagem do capitalismo se apresentava. O estudo comparativo de experiências integracionistas tem grande valor e carga positiva na construção de um futuro processo, como o do Mercosul, por exemplo. Embora não se tratasse de mera comparação com os grandes processos de integração mundiais, mas com a fundamentação das bases verdadeiramente históricas, institucionais e econômicas de cada bloco em questão, acabou por ser fundamental. Assim como a questão das opções de cooperação, hipotéticas ou já existentes, presentes no contexto pós-blocos econômicos. O ‘século do não’ foi marcado por um velocíssimo processo de mudanças que parecia que viraria a lógica de ponta-cabeça.

O mais esperado/inesperado de tudo foi que, enquanto isso, o atraso causava suas terríveis sequelas em cada país sul-americano, especialmente no Brasil, com o fenômeno da exclusão social grassando toda a estrutura sociocultural, com formação de corpos socioculturais autônomos que se agigantavam paulatinamente. Era provocada por fenômenos econômicos e sociais como: desemprego crescente, inflação, miséria social etc., aparentemente longe dos olhares de governantes.

Essas características centrais do processo de expansão do capitalismo, tanto as endógenas quanto as exógenas, exigem leitura mais profunda. As aparências externas das inovações tecnológicas, as relações entre fatores de produção, as mudanças dos setores produtivos, a correlação de forças políticas, as estratégias de manutenção e concentração de poderes devem ser vistos com mais acuidade para que se possa juntar coerentemente os cacos desse espelho partido da história.

Sabemos que, após mais de quinhentos anos de expansão, com luta interna entre Estados capitalistas pela hegemonia do sistema e de conflito, competição e vitórias até sobre o modelo socialista alternativo oferecido pela União Soviética, o velho e sempre revivido capitalismo prosseguiu sua expansão eivado de renovações, mas sempre com base nas características e objetivos primários que ressuscitam velhas ferramentas como a mais-valia, a  acumulação, a concentração e a centralização de capital.

A primeira grande dificuldade e contradição do processo de expansão e de manutenção do sistema/jogo capitalista global é que ele traz em si fortes mecanismos de concentração de riquezas (que continuam a se acumular), e de poder (forte elemento de transformação radical que desequilibra os mercados de capitais e de trabalho). Como escreveu o educador John Dewey, “todo grande progresso da ciência resultou de uma audácia da imaginação”.

Não podemos nos dar ao luxo de entregar a história ao esquecimento, desconsiderar pessoas como o lúcido brasileiro Lima Barreto e o que ele viu e narrou sobre o social. Até a sua morte, em 22 de novembro de 1922, deixou uma leitura verossímil, moderna da passagem para a era da modernidade antes de ela chegar ao nosso país. Foi um moderno que criticava a sociedade brasileira. Sabemos que lê-lo é ler a sociedade brasileira que nascia colorida na nova brasilidade que nascia.

Ler Lima Barreto é descobrir um país de injustiças que nunca conseguiu se ver plenamente nos cacos do espelho partido de sua história. Ele conseguia ver nossa história social e cultural com grande lucidez. Onde todos olhavam o corpo como um todo, ele insistentemente observava suas tripas, ou seja, quando todos mimetizavam as coisas vindas do exterior ele conseguia entrar e participar dos espaços lúgubres da vida cotidiana, onde moravam coisas como a imundície e os repulsados. O resgate e a inclusão social e sociocultural se fizeram mais importantes e necessárias antes que fosse tarde demais. Não podemos nos esquivar de suas observações feministas e femininas. E hoje percebemos que a mulher ganhou cenário mais largo entre o fazer na nossa cidade principalmente. Já é possível vê-la dividindo espaços de trabalho com o masculino. Podemos pontuar a percepção disso no samba da epígrafe:

Tem mulher dando show no gramado, apitando, jogando, batendo um bolão. Tem mulher no congresso brigando, buscando a saída pra nossa nação. Tem mulher que não foge da luta, encara uma obra, virando concreto de calo na mão. Tem mulher, no avião. Tem mulher turbinada, com mimo, botox e lipo que arrasa geral. Tem mulher que é chefe da casa, trabalha domingo e acha normal. É mulher! Verdadeira parceira, que agente guerreira, mudando os conceitos da vida real. Tem mulher, tem mulher, tem mulher.

A globalização no Brasil deve rapidamente ser decodificada em seus múltiplos e diferentes diálogos. Caso contrário, vamos amargar por muito mais tempo ainda a trajetória da saga de um certo Brazil do desejo. O moderno mundo em transformação onde surgem as neoamazonas já começou sua surpreendente revolução, cujo enfrentamento social e cultural não tem forma passível de visualizar. Mas “tem mulher!” Que veio para mudar tudo no todo. Pode até parecer algo metafísico, seria como Voltaire buscou explicar ao dizer “quando aquele que ouve não sabe o que aquele que está falando quer dizer e quando aquele que fala não sabe o que ele próprio quer dizer, isso é metafísica”.

Conclusão

Em uma época em que indivíduos versus empresas configurariam uma nova dança do capital, presenciava-se uma corrida ao ouro no mundo da globalização. O domínio das organizações sobre a vida das pessoas molda um novo padrão de comportamento: as mulheres, em alguns casos, trazem o valor de seu lado emocional. Somente interessando aos homens o quantitativo, ou o tudo, o lado humano ficou de lado. O indivíduo passou a ser absolutamente irrelevante, sem perspectivas. A mimese, que foi vício nacional e historicamente marcante, perseguiria como faceta maior de nossa comportamentalidade.

Não havia, como ainda não há, mais espaço para o que Adam Smith vaticinara quando cunhou o liberalismo, afirmando que a “mão invisível” equilibraria as forças de oferta e procura do e no jogo do mercado, com comportamentos insensíveis, como se coisificasse o humano. E apareceu a “mão visível” que, pela leveza do fazer, poderia muito bem ser ocupada pela mulher. O trabalhador-operário envolvido na névoa do manomecanicismo/infotecnológico em nome da produção enfrenta hoje a mulher em um mercado de massa, demonstrando que tudo estava sendo conduzido por um novo organum. Estamos vivenciando a (re)conceituação paradigmática de tudo, acobertada por uns grandiosos todos holísticos, em que a presença do diálogo é fundamental e urgente.

A inserção social e sociocultural dos corpos autônomos se faz cada vez mais necessária no mundo globalizado em que vivemos. Temos que acabar definitivamente com coisas como a exclusão social (Perrot, 1991, p. 238) no urbano de nossa cidade.

Estamos envolvidos por um mar de novidades, no mundo do trabalho, em que a mulher faz a diferença. Será mesmo que “navegar é preciso, viver não é preciso?” Mas, ago, constate, nunca é tarde para rever.

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Publicado em 03 de março de 2009

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