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Liberdade na guerra

Raquel Menezes

Diálogos Poéticos

Este ano, ao completar meus vinte e três anos, ganhei de presente de um querido amigo o livro Poesia liberdade, de Murilo Mendes. Confesso que até então nunca tive muito interesse pela poesia desse autor que começou seu percurso literário escrevendo nas revistas modernistas Terra Roxa, Outras Terras e Antropofagia. Mas, ultimamente, esse presente tem sido lido atentamente e, a cada dia, mais acolhido entre as minhas leituras constantes. No que tange ao contexto do livro, vale informar que, como alguns outros livros do poeta, foi publicado sob o impacto da guerra, refletindo a inquietação de Murilo diante da situação do mundo. Em poemas como “Naturezas mortas”, “Elegia nova” e “As lavadeiras” verificamos vestígios dessa reflexão, permitindo-nos pensar na convivência paradoxal da liberdade que propõe o poeta com a guerra que o mundo oferecia.

A respeito da estranha liberdade referenciada pelo poeta, fala-nos Murilo Marcondes de Moura, no prefácio de Poesia liberdade: “a ‘liberdade’ contida no título adquire também uma significação política, de contestação e desafio, (...) ele representa um dos momentos mais altos de nossa lírica socialmente interessada” (p. 10). Além da liberdade estética e do projeto ideológico, neste livro também se faz presente um corpo cristão que, associado a uma visão religiosa, como se dá no poema “A tentação”, coloca-se em um novo lugar de liberdade.

Este livro, um dos grandes da poesia brasileira do século XX, novamente segundo Marcondes de Moura, “contém uma enorme carga provocativa, passível de ser associada às experiências mais incisivas da poesia da modernidade” (p. 9). Isso o torna um interessante ponto da nossa literatura nacional, principalmente quando o tema é o Modernismo. Assim, quando o assunto é Modernismo, não só Poesia Liberdade como outros tantos livros de Murilo Mendes devem ser estudados ao lado de nome incontornáveis da nossa literatura,  como Drummond, Manuel Bandeira e Mário de Andrade.

Para aguçar a curiosidade de quem não conhece e incentivar os que já conhecem a continuar a ler, alguns poemas de Murilo Mendes, de Poesia liberdade:

A Tentação

Diante do crucifixo          
Eu paro pálido tremendo:
“Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz”. (p. 95)

O explorador

À procura de um elemento
De sinos brancos, de peixes
Só para contemplar, do diamante
Do Santo Graal, da morte
Épica pela altivez, das ossadas
De nuvens, do castelo de camélias,
Da túnica da ressurreição,
Assim, sem ontem nem amanhã:
Até que, bêbado de essência,
Eu role com o tempo maduro
Nos degraus da eternidade. (p. 83)

Pálido guerreiro

Ó pálido guerreiro,
A morte cobiçou tua pele
–– Profundezas de mulher ––,
Clamaste contra o inimigo
Que se agitava em ti mesmo,
No teu sangue navegador e confuso
Que teus pais construindo barreiras
Não resgataram.

(Chorai sobre vosso descendentes
Nascidos em berços de lágrimas,
Não choreis sobre mim.)

Ó pálido guerreiro,
És o próprio guerreiro que não fui:
Por ti eu me perdôo

E semeio crisântemos na campa. (p. 105)

Os pobres

Chegam nus, chegam famintos
À grade dos nossos olhos.
Expulsos da tempestade de fogo
Vêm de qualquer parte do mundo,
Ancoram na nossa inércia.

Precisam de olhos novos, de outras mãos,
Precisam de arados e sapatos,
De lanternas e bandas de música,
Da visão do licorne
E da comunidade com Jesus.

Os pobres nus e famintos

Nós os fizemos assim. (p. 117)

Pós-poema

O anteontem –– não do tempo mas de mim ––
Sorri sem jeito
E fica nos arredores do que vai acontecer
Como menino que pela primeira vez Poe calça comprida.

Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,
Trata-se de substituir o lado pelo centro.
O que é da pedra também pode ser do ar.
O que é da caveira pertence ao corpo:
Não se trata de ser ou não ser,
Trata-se de ser e não ser. (p. 129)

Fábula

Eu falei à fonte, ao pinheiro
E ao mesmo tempo à pastora dançarina:
“Acautelai-vos contra o lobo
tão sombrio quanto cruel.
Sabei, nem mesmo uma rosa
Na sua inocência virgem
Jamais conseguirá persuadi-lo
Ele revestiu-se de uma pele branca
E conspira contra os outros lobos.
Não ouçais também os aparentes cordeiros.”

Então a fonte, o pinheiro e a pastora dançarina
Perguntaram-me ao mesmo tempo:
“Homem exigente e difícil,
A quem haveremos de ouvir?”

Sereno respondo: “Ouvi vossa própria música”. (p. 47)

MENDES, Murilo. Poesia liberdade. Rio de Janeiro: Record, 2001.

 

Para conhecer mais:

Publicado em 3 de março de 2009

Publicado em 03 de março de 2009

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