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Mulher

Luiz Alberto Sanz

Há pouco mais de noventa anos, em São Petersburgo, começava a Revolução Soviética, em sua fase registrada na História como Revolução de Fevereiro. Seu estopim foram as manifestações pelo Dia Internacional da Mulher, que, no calendário juliano (então em vigor no Império Russo), caía em 23 de fevereiro. Foram as mulheres, as tecelãs, que tomaram a iniciativa do processo que resultaria na vitória dos sovietes em 7 de novembro (24 de outubro pelo calendário juliano). Como começou?

A wikipedia registra, recolhendo informações do sítio http://www.historyguide.org/europe/lecture5.html:

Trabalhadoras têxteis em passeata apedrejaram janelas de outras fábricas para chamar os operários a se juntarem a elas, gritando "Abaixo a fome! Pão para os trabalhadores!". Depois começaram a virar bondes e saquearam uma grande padaria. Este tipo de agitação não era novidade. O que houve de novo – e foi notado pelas testemunhas da época – foi que a polícia não os reprimiu. Os grevistas não procuraram esconder seus rostos sob o casaco, como de costume. Um oficial cossaco gritou a alguns grevistas liderados por uma velha: "Quem vocês seguem? Vocês são liderados por uma velha bruxa!" A mulher respondeu: "Não por uma velha bruxa, mas pela irmã e mãe de soldados no front". Alguém gritou: "Cossacos, vocês são nossos irmãos, vocês não podem atirar em nós". Os cossacos, símbolos do terror czarista, foram embora.

As manifestações continuaram, sem que os soldados tomassem a defesa do Estado czarista. Quatro dias depois, soldados, operários e camponeses invadiram o prédio da Duma (parlamento), onde se constituíram dois poderes paralelos: em um salão instalou-se um governo provisório, formado sobretudo por liberais, mencheviques e social-revolucionários; em outro instalou-se o Soviete de Petrogrado, integrado por todas as tendências revolucionárias: principalmente bolcheviques e anarquistas, mas também com a participação de mencheviques e social-revolucionários.

Essa história pode ser facilmente pesquisada. O que interessa agora é lembrar o papel fundamental que as mulheres e seu dia internacional tiveram nesse processo. Têm papel sempre marcante nas grandes revoluções dos trabalhadores, em que têm a coragem e o valor de partir na vanguarda, como fizeram na Derrubada da Bastilha (Revolução Francesa, 1789), que tem como símbolo Marianne, a costureira; na Comuna de Paris, em que a professora e jornalista libertária Louise Michel e a cantora e prostituta Gabriella Pucci estão entre as principais referências. A primeira, fuzil na mão e mente consciente e educada; a segunda, voz poderosa, beleza física e peito aberto,  enfrentaram as tropas de Versalhes dando exemplo ao povo de Paris.

Também lá, num primeiro momento, os soldados confraternizaram com o povo. Um general insistiu na ordem de atirar e perguntou: “vocês querem se render a esses canalhas?” Conta-se que Pucci teria cantado:

Na velha cidade francesa
Existe uma raça de ferro,
Cuja alma, como uma fornalha,
Com seu fogo bronzeou a pele.
Seus filhos nascem sobre a palha,
Por palácio eles só têm um casebre.
É a canalha...
Eu sou também!

Se é verdade, não me interessa. Essa é a versão do romance gráfico (em quadrinhos) O grito do povo, de Jacques Tardi e Jean Vautrin (Conrad Editora).

A todas que fizeram, fazem e farão nossas histórias de amor e sangue, do nascimento à morte, repletas dos prazeres mais prazerosos e da sabedoria mais sábia e menos sabida, a humilde homenagem de um homem que ama as mulheres, agregada à mensagem de meu irmão Leri Faria, que por elas é apaixonado.

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Esta homenagem vai pra as mulheres deste grupo que conheço e para as que não conheço: para todas!

Dizem que hoje é o Dia Internacional da Mulher de todo dia! Aproveito pra enviar beijo pras que são de beijo, abraço pras que são de abraço, afeto e respeito pra todas as que lutam pra viver com dignidade neste mundo tão pouco digno.

Quero mandar um abraço terno pras mulheres que me amaram e eu não soube receber, mas me fizeram crescer e manter a esperança de um dia aprender. Um beijo molhado e gostoso pras mulheres que me deram prazer e me ensinaram a compartilhá-lo, um afago praquelas que me deram colo e embalsamaram momentos de dor, um puta-que-pariu pras que me fizeram rir quando tudo parecia perdido, que me ofereceram amizade sem falsear o desejo, sem querer fazer de conta que me aceitavam do jeito que imaginavam que eu fosse.

Quero homenagear aquelas que me ajudaram a ser gente, homem e a gostar tanto das mulheres!

Esta manhã sairei pelas ruas saudando em gesto e memória todas as mulheres que me geraram, que me criaram e que alimentam em mim a esperança de que homens e mulheres encontrem o equilíbrio e a igualdade na sua diferença. A este maravilhoso arco-íris de diversidade dedico esta canção!

Um abraço carinhoso e fraterno,

Leri

COBRA CORAL

Leri Faria

Oi, abre a gira na roda do mundo que eu tô no terreiro
Sou rezadeira, vidente, cambona desse candomblé.
Sou mãe-de-santo, cunhã, carpideira.
Eu sou a força que move a maré.
Sou companheira, mulher brasileira, só vivo da fé.
 
Sou quitandeira, feirante, parteira, sou dona de casa.
Eu sou mucama, cigana, vedete desse cabaré.
Sou sacoleira, sou contrabandista,
sou a passista do samba no pé.
Sou lavadeira, eu sou a baiana do acarajé!

Eu sou a lua, efêmera, nua, sou a natureza,
sou odalisca, eu sou a rainha do maracatu.
Sou a memória de tantas marias, sou coralina, sou cobra coral,
Eu sou enredo e alegoria desse carnaval!
 
Eu sou gazela, sou anjo da guarda, sou suçuarana.
Eu sou a santa, eu sou a falada na boca do povo.
Sou feminista, sou mãe de família! Sou a medusa que te enfeitiçou.
Ô abre alas que eu tô na parada, meu bloco chegou!
 
Eu sou esfinge, sou Marilyn Monroe, sou Madre Teresa.
Sou madalena, sou dama da noite, eu sou o desejo,
eu sou guerreira, sou mulher da vida.
Sou uma estrela, sou favo de mel.
Eu sou a culpa! Eu sou Joana D’Arc na porta do céu.
 
Eu sou a lua, efêmera, nua, sou a natureza,
sou odalisca, eu sou a rainha do maracatu.
Sou a memória de tantas marias, sou coralina, sou cobra coral.
Eu sou enredo e alegoria desse carnaval!

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Publicado em 3 de março de 2009

Publicado em 03 de março de 2009

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