A Libras e a escrita de sinais

Ana Kelly da Silva

Graduada em Letras - Libras (UFPB)

Eduardo Beltrão de Lucena Córdula

Doutorando e Mestre (Prodema/UFPB)

Introdução

No Brasil, a Língua Brasileira de Sinais – Libras é reconhecida legalmente como meio de comunicação e expressão entre os cidadãos (Brasil, 2002).

Entende-se como Língua Brasileira de Sinais – Libras a forma de comunicação e expressão em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de idéias e fatos oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil (Brasil, 2002, p. 1).

Porém só em 2005, o Decreto n° 5.626 regulamentou a Lei n° 10.436/02, que define como “pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais – Libras” (Brasil, 2005, p. 1).

Portanto, a Língua de Sinais é considerada a primeira língua utilizada pelo surdo. O uso dessa língua representaria a palavra da língua falada, ou seja, uma resposta apresentada a estímulos do meio, sejam eles verbais ou não (Pereira; Verdu, 2012). A sua importância pode ser exemplificada pelo fato de ela permitir que o surdo se comunique com indivíduos em condições semelhantes à sua e com os demais que utilizam a língua portuguesa.

Há que se considerar que a criança surda não pode construir a modalidade escrita da língua portuguesa majoritária, à qual está submetida pela via da oralidade, ou correlacionando aspectos da oralidade com outros da escrita (Araújo; Lacerda, 2008). Sendo assim, a segunda língua utilizada pela pessoa surda é a língua portuguesa, e ela é essencial para que o surdo se comunique com os ouvintes que não sabem Libras. Portanto, o Surdo
acaba tornando-se bilíngue para que possa interagir com todos à sua volta.

Dizeu e Caporali (2005, p. 2) fazem referência aos novos aspectos relacionados ao assunto ao afirmar que “a discussão sobre surdez, educação e língua de sinais vem sendo ampliada nos últimos anos por profissionais envolvidos com a educação de surdos, como também pela própria comunidade surda”. De acordo com Silva (2009), a educação de surdos tem passado por constantes mudanças pedagógicas e linguísticas ao longo da história humana. O Oralismo Estrito foi a filosofia educacional de maior impacto da história dos surdos, sendo responsável por boa parte das mudanças ocorridas na língua de sinais.

Oralismo e língua de sinais

O Oralismo surgiu e foi desenvolvido por volta do século XVIII na Europa, evoluindo para a linguagem de sinais para pessoa surda (Capovilla, 2000). Nesse contexto, o Surdo era condicionado a oralizar para poder se engajar socialmente; entretanto, a metodologia do Oralismo Estrito (como única forma de o Surdo se comunicar) era ineficiente para prover a comunicação e a interação linguista, o que fez com que os sujeitos portadores de surdez fossem considerados cognitivamente inferiores (Capovilla, 2000). Porém a metodologia inadequada e a forma impositiva como era exercida fizeram com que o Surdo ficasse à margem da sociedade. A partir de então, a comunidade surda vem engajando-se em inúmeras lutas e reivindicações para ter reconhecidas sua cultura e sua linguagem, para ter acesso e interagir de forma igualitária e sem discriminações em sociedade (Capovilla, 2000).

No início do século XIX foram reconhecidos os sinais gestuais para comunicação entre pessoas surdas e entre surdos e ouvintes (Stumpf, 2005). Aproximadamente 100 anos se passaram para a evolução da linguagem de sinais para os surdos, seguindo por diversos modelos desenvolvidos em outros países, até chegar, em 1974, ao SignWriting (SW), com toda sua complexidade gramática, semântica, fonêmica etc., avançando ao desenvolvimento da sua escrita (Stumpf, 2005, p. 51).

Pessoas surdas possuem todas as qualidades e dificuldades de qualquer cidadão; possuem uma linguagem própria, a qual não é levada em consideração quando se trata da escrita dos símbolos utilizados na comunicação entre elas. Com isso, são forçadas a se adaptar a uma linguagem que não é natural delas e com que possuem muitas dificuldades para entender e utilizar (Rocha, 2003).

Um fato a ser ressaltado é que a surdez distingue-se de outras deficiências não pela deficiência física propriamente dita, mas pela dificuldade de estabelecer comunicação entre pessoas: os problemas de comunicação no cotidiano dos surdos são uma condição permanente que acarreta graves consequências no seu desenvolvimento social, emocional e cognitivo (Chaveiro et al., 2014).

A escrita de sinais

A educação de surdos no Brasil, assim como nosso sistema educativo em geral, segue tendências mundiais, discutidas em eventos e convenções internacionais sobre as teorias e metodologias de ensino (Pires, 2014). Cotidianamente, quando pensamos em alfabetização, a ideia mais comum está relacionada à decifração do código escrito (Figura 1).


Figura 1: Escrita de sinais - SignWriting
Fonte: Stumpf (2005, p. 92).

Na escrita de sinais – SignWriting, todos os gestos com as mãos (posição das mãos, rotações, posição dos dedos e movimentos), faciais (olhos e boca) e a rotação da cabeça, ombros e demais partes do corpo utilizadas na comunicação possuem símbolos próprios que, combinados, promovem a formação da linguagem escrita (Figura 2).


Figura 2: Alguns dos inúmeros códigos da escrita de sinais e sua decodificação.
Fonte: Adaptado de Stumpf (2005, p. 59-92).

Essa escrita pode ser realizada manualmente – manuscrito – pelo surdo (Figura 3) ou utilizando recursos digitais, como sugere Stumpf (2005, p. 226) em sua tese; a Universidade Católica de Pelotas (UCPel) desenvolveu na época um software para essa finalidade (SW-Edit). O projeto SignNet foi descontinuado e o software não está mais disponível para download

. Felizmente, um ganho para a comunidade surda e, na atualidade, infelizmente, uma perda, já que o programa da UCPel não está mais disponível.


Figura 3: Criança realizando a escrita de sinais.
Fonte: Stumpf (2005, p. 181).

A educação dos surdos é permeada por dificuldades e construções linguísticas atípicas que essa população apresenta em relação à modalidade escrita da linguagem. Atualmente, um número significativo de surdos vem sendo classificado equivocadamente como iletrados, pelo fato de fazer uso da escrita sem ter conhecimento da realidade oral da língua portuguesa, tampouco da língua de sinais. Guarinello et al. (2007, p. 2) afirmam que “é preciso considerar que esse desconhecimento não se deve a questões individuais, pois no Brasil a grande maioria dos surdos adultos não domina a língua portuguesa”.

Entende-se que a língua de sinais é a língua acessível ao Surdo por não impor a ele obstáculos sensoriais e poder ser adquirida por imersão linguística em ambiente adequado, ou seja, na convivência espontânea com usuários dessa modalidade linguística (Silva; Bolsanello, 2014).

Gesueli (2006, p. 4) esclarece que

a questão da língua de sinais, portanto, está intimamente relacionada à cultura surda. Esta, por sua vez, remete à identidade do sujeito que convive, quase sempre, com as duas comunidades (surda e ouvinte). Nesse contexto, importa analisar o modo como os sujeitos inseridos em escolas bilíngues se narram como sujeitos da comunidade surda. Assim, o papel do professor surdo e da língua de sinais no ambiente escolar é essencial para que haja construção da identidade surda e, consequentemente, para chegarmos a uma educação eficiente.

Segundo Peixoto (2006, p. 3),

dentre esses processos relacionados à escola e à aprendizagem, a escrita e a leitura parecem ser os que mais demandam essas novas reflexões, principalmente porque (e às vezes exclusivamente) é por meio desses dois processos que a condição bilíngue do surdo se constrói e se revela.

Segundo Rocha (2003, p. 28-29) o sistema de escrita SignWriting é um sistema complexo e adaptável às gramáticas das línguas de sinais. O que se chama alfabeto nas línguas orais é denominado configurações de mão na Língua Brasileira de Sinais. Seu desenvolvimento ainda está em fase inicial no Brasil, tendo como lócus, principalmente, as instituições de ensino superior, em estudos de grupos de pesquisa, projetos científicos e de extensão (Stumpf, 2005).

Portanto, cabe ao sistema educacional, além de incorporar a língua de sinais em seu sistema de ensino como elemento de inclusão para que ocorra a comunicação entre ouvintes e surdos (Brasil, 2002; 2005), no caso específico dos Surdos, propiciar o contato e o ensino da escrita de sinais como elemento inerente à sua comunidade e à sua cultura.

Considerações finais

A comunidade surda busca sua inclusão na sociedade; o principal entrave discutido na atualidade é o reconhecimento de sua cultura própria, que engloba uma percepção única do mundo que os cerca; para interagir entre si e com os demais sujeitos da sociedade, foram sendo desenvolvidas formas de comunicação, iniciando com o oralismo estrito – falível e ineficaz – e chegando à língua de sinais, atualmente no Brasil reconhecida legalmente.

Estimular o conhecimento da Libras como segunda língua para o ouvinte e primeira língua para o Surdo, via sistema educacional em todos os níveis de ensino e modalidades, sensibilizará a sociedade para uma relação igualitária entre todos e extinção da descriminação com o Surdo.

Ao mesmo tempo, estimular o desenvolvimento e o aprendizado da escrita de sinais ampliará as formas de comunicação e expressão utilizadas pela comunidade surda, devendo haver um esforço conjunto do sistema educacional brasileiro, juntamente com o fomento e a aplicação de políticas públicas para que esse ideal não fique apenas num plano demagógico. Para tanto, novos investimentos financeiros devem ocorrer para o incentivo a projetos e pesquisas que continuem desenvolvendo a gramática da escrita de sinais e meios digitais para facilitar sua grafia, a exemplo do como o SignNet da UCPel.

Referências

ARAÚJO, Claudia Campos Machado; LACERDA, Cristina Broglia Feitosa de. Esferas de atividade simbólica e a construção de conhecimento pela criança surda. Rev. Educ. Espec., v. 14, nº 3, p. 427-446, 2008.

BRASIL. Lei n° 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras e dá outras providências. Brasília: Senado Federal, 2002.

______. Decreto n° 5.625, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei n° 10.436/02. Brasília: Senado Federal, 2005.

CAPOVILLA, Fernando C. Filosofias educacionais em relação ao surdo: do oralismo à comunicação total ao bilinguismo. Revista Brasileira de Educação Especial, v. 6, nº 1, 2000.

CHAVEIRO et al. Qualidade de vida dos surdos que se comunicam pela língua de sinais: revisão integrativa. Interface - Comunicação, Saúde, Educação, v. 18, nº 48, p. 101-114, 2014.

DIZEU, Liliane Correia Toscano de Brito; CAPORALI, Sueli Aparecida. A língua de sinais constituindo o surdo como sujeito. Educ. Soc., Campinas, v. 26, nº 91, p. 583-597, maio/ago. 2005.

GESUELI, Zilda Maria. Lingua(gem) e identidade: a surdez em questão. Educ. Soc., Campinas, v. 27, nº 94, p. 277-292, 2006.

GUARINELLO, Ana Cristina; MASSI, Giselle; BERBERIAN, Ana Paula. Surdez e linguagem escrita: um estudo de caso. Revista Brasileira de Educação Especial, v. 13, nº 2, p. 205-218, 2007.

PEIXOTO, Renata Castelo. Algumas considerações sobre a interface entre a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e a língua portuguesa na construção inicial da escrita pela criança surda. Cad. Cedes, Campinas, v. 26, nº 69, p. 205-229, maio/ago. 2006.

PEREIRA, Veronica Aparecida; VERDU, Ana Cláudia Moreira. Avaliação do ler e do escrever de surdos pela Língua Brasileira de Sinais. Psicologia: teoria e prática, v. 14, nº 2, p. 15-27, 2012.

PIRES, Vanessa de Oliveira Dagostim. A aprendizagem coletiva de língua portuguesa para surdos através das interações em língua de sinais. Rev. Bras. Linguística. Aplicada, v. 14, nº 4, p. 987-1.014, 2014.

ROCHA, Fabiana Zafallon Ferreira. Proposta de um padrão manuscrito para reconhecimento automático dos símbolos do sistema SignWriting (SW). Tese (doutorado). Universidade Católica de Pelotas, 2003.

SILVA, Fábio Irineu da et al. Analisando o processo de leitura de uma possível escrita da Língua Brasileira de Sinais: SignWriting. Dissertação (mestrado). Programa de Pós- Graduação em Educação, Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências da Educação. Florianópolis, 2009.

SILVA, Tânia dos Santos Alvarez da; BOLSANELLO, Maria Augusta. Atribuição de significado à escrita por crianças surdas usuárias de língua de sinais. Educ. Rev., nº 2, p. 129-142, 2014.

STUMPF, Mariane Rossi. Aprendizagem de escrita de língua de sinais pelo sistema SignWriting: língua de sinais no papel e no computador. Tese (doutorado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2005.

Leia mais sobre esse assunto.

O termo Surdo, com inicial maiúscula, está sendo utilizado aqui para retratar o sujeito historicamente constituído e que está inserido na sociedade, construtor das mudanças socioeducativas rumo a uma humanidade igualitária e harmônica.

Fonte: http://rocha.c3.furg.br/index.php?Itemid=2303&option=bloco_texto&id_site_componente=3530.

Publicado em 02 de maio de 2017