A Covid-19, o retorno às aulas e o custo social do fechamento das escolas - o que pode ser feito?

Paulo Cesar de Almeida Barros Lopes

Licenciado em História (UNIRIO/Cederj/Cecierj), pós-graduando em Ensino a Distância (Faculdade Internacional Signorelli)

Considerações iniciais

A crise amplifica a necessidade de estarmos conectados. Essa mudança deve partir da própria comunidade educativa. Os bons líderes não estão nos gabinetes decretando ordens, estão envolvidos na solução, de forma ativa. O governo, afinal, está muito longe de ter um efeito sobre o que acontece nas salas de aula.
Andreas Schleicher, responsável pelo relatório do Pisa (2020)

Andreas Schleicher considera que o custo social pelo fechamento das escolas durante o período de pandemia tomou tom dramático. Por que esse pesquisador estatístico no campo da educação tem essa preocupação? Em entrevista ao jornal El País em 23 de abril de 2020, ele esclarece alguns pontos que fazem refletir sobre o que poderá ser feito para que o retorno às aulas não torne ainda mais agudo o abismo social que existe no mundo, pois, de acordo com seu conceito, a escola é o maior igualador social; na sua opinião, “é o único lugar onde todas as crianças recebem o mesmo tratamento, independentemente da situação pessoal que cada um tenha em casa”.

Uma das suas maiores preocupações reside justamente no fato de muitos alunos serem desprovidos de recursos tecnológicos para acompanhar de forma igualitária os conteúdos escolares, em comparação com os alunos que possuem tais recursos. Desse modo, para Schleicher, a situação é paradoxal, ou seja, alunos que tiveram melhor acesso aos conteúdos online voltarão entusiasmados e com ampla gama de aprendizagens, enquanto aqueles que não tiveram apoio da família nem condições de acesso às plataformas de ensino provavelmente não terão a mesma motivação. Nesse prognóstico, Schleicher refere-se, na entrevista, ao retorno às aulas em países europeus; o que isto significa?

Analisando friamente a questão, se na Europa, onde existe uma estrutura mais sólida no sistema educacional, este especialista fez tal previsão sombria, é de se refletir em como será esse retorno nas escolas no Brasil, tendo em vista que estamos muito atrasados em comparação aos países europeus na estrutura da educação de base e no Ensino Médio. Para agravar a situação, não há em nosso país uma política eficiente de saúde pública no combate ao coronavírus, pois cada estado é uma “ilha” no combate à pandemia. O Brasil é um país de dimensões continentais, o que torna mais difícil a unificação de políticas públicas sanitárias para estancar a “sangria” da ineficiência governamental em todas as esferas no combate à pandemia, apesar dos incontáveis esforços dos profissionais da saúde, principalmente, e das demais categorias envolvidas nesse combate, bem como no estabelecimento de diretrizes básicas para o retorno seguro dos alunos das redes pública e particular. No entanto, além de focarmos na questão de saúde, é importante considerar os outros fatores que estão envolvidos no processo de retorno às aulas no durante a flexibilização e no pós-pandemia.

No primeiro fórum Ler e Pensar realizado pelo Instituto GRPCOM, no dia 30 de março de 2019, na Universidade Positivo, em Curitiba, foram tratadas as questões sobre conexões para uma educação transformadora; o objetivo desse ciclo de palestras foi evidenciar práticas inovadoras em sala de aula, as quais visam incentivar os professores a usar as mídias digitais dentro da sala de aula como instrumento pedagógico. Não obstante, é importante lembrar que as mídias digitais não irão substituir o processo de aprendizagem inserido no contexto da criação e do saber, pois esse recurso torna-se uma alternativa aos métodos tradicionais; no entanto, pode-se destacar que o uso de mídias é importante no processo de ensino-aprendizagem. É bem sabido que vários profissionais da Educação estão procurando se adaptar ao uso de mídias digitais no ensino; também as escolas em geral têm feito adaptações para o uso de novas tecnologias; ainda assim, vale ressaltar que ainda faltam muitos passos a serem dados para a efetivação do uso desse recurso pelos professores em sala de aula, tendo em vista que grande parte dos professores não possui treinamento e/ou não tem interesse pela utilização desses recursos. Segundo Camila Fattori, psicóloga e coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac, “é necessário dar ao professor o mínimo de conhecimento e treinamento”.

A discussão na sua generalidade

Com relação ao acesso dos alunos à tecnologia da informação, pode-se destacar o pensamento de Pierre Bourdieu, que trata da questão do capital cultural. É imperativo afirmar que, segundo Pierre Bourdieu, esse capital é adquirido antes mesmo de o aluno ir para a escola, pois é fornecido pelo meio no qual a pessoa vive; sendo assim, é responsável pela desigualdade social. E a ausência do capital cultural é um grande impeditivo para a mobilidade social, por meio da qual o indivíduo supostamente ascenderia de uma classe para outra, fato que segundo ele é praticamente improvável devido ao fato de a elite ainda ser a mantenedora desse capital cultural, e não permite a absorção desse capital pela classe menos favorecida, conforme destacou Manuel Hespanha (2006) em seu artigo A mobilidade social no Antigo Regime.

Maria da Graça Jacintho Setton, professora de Sociologia na Faculdade de Educação da USP, afirma que

Bourdieu argumenta que essas instituições seriam a família e a escola; seriam elas responsáveis pelas nossas competências culturais ou gostos culturais. De um lado, chamou a atençãopara o aprendizado precoce e insensível, efetuado desde a primeira infância, no seio da família, e prolongado por um aprendizado escolar que o pressupõe e o completa (aprendizado mais comum entre as elites). De outro, destacou os aprendizados tardio, metódico e acelerado, adquiridos nas instituições de ensino, fora do ambiente familiar, em tese um conhecimento aberto para todos (2019).

Tendo em vista essa linha de pensamento, é mister destacar que o capital cultural enfatizado por Bourdieu pode ser aplicado no tocante ao acesso à informação que nossos alunos possuem. Para entender esse capital cultural, é interessante fazer uma abordagem da pesquisa do IBGE no que diz respeito aos dados sobre o uso das Tecnologias da Informação e Comunicação – TICs, no Brasil em 2017, que trata das questões relativas ao acesso à internet, à televisão e à posse de telefone móvel celular para uso pessoal.

Em 2017, a internet era utilizada em 74,9% dos domicílios brasileiros, estando disseminada na maioria dos domicílios em todas as grandes regiões. Em relação aos domicílios localizados em área rural, a pesquisa destaca a indisponibilidade do serviço de internet na área (21,3%). Entre os brasileiros de 10 anos ou mais de idade, 69,8% utilizaram a internet no período de referência da pesquisa. Os menores percentuais foram observados nas Regiões Nordeste (58,4%) e Norte (60,1%). De acordo com a pesquisa, ficou evidente que o celular é o recurso mais usado para acessar a internet. Os números da pesquisa demonstraram que, em 98,7% dos domicílios com acesso à internet, o telefone móvel celular era utilizado para esse fim. Na sequência vem o microcomputador (52,3%). Com um número mais modesto, vem a utilização da televisão, que chega a um percentual de 16,1% dos domicílios em que havia acesso à internet, e o tablet com 15,5%.

Outro ponto importante da pesquisa diz respeito à finalidade do uso da internet; o uso para enviar ou receber mensagens de texto, voz ou imagens perfaz 95,5% das pessoas de 10 anos ou mais de idade que utilizaram a rede. Na sequência, estão as conversas por chamadas de voz ou vídeo, que anotaram um percentual de 83,8% das pessoas, além de assistir a vídeos, inclusive programas, séries e filmes, com 81,8%; por último, está enviar ou receber e-mails, que anota 66,1%.

A pesquisa também abordou a posse de microcomputador, tablet, telefone fixo e celular; nessa análise foi constatado que 43,4% dos domicílios brasileiros possuem microcomputador e apenas 13,7% possuem tablet. Percebe-se que a televisão faz parte de quase todos os domicílios, pois só em 3,3% dos domicílios do país não havia televisão em 2017, sendo que a Região Norte detém o maior percentual de domicílios sem televisão (7,2%), enquanto a Região Sudeste permaneceu com o mínimo desse indicador (2,2%).

Mesmo a pesquisa indicando que a grande maioria da população possui TV, infelizmente são poucos os programas educacionais disponíveis em TV aberta, pois a maior parte de tais programas está em canais de TV por assinatura. Outro fator preponderante nessa questão é o acesso à internet, pois, apesar de aparentemente ser democrático, muitos jovens não usam a internet para fins educacionais, e a grande maioria não possui computador pessoal para esse fim. Deste modo, esta situação torna-se um empecilho na implantação e utilização do ensino a distância tanto no Ensino Fundamental como no Ensino Médio. Isso mostra também que existe desigualdade dentro do espaço educacional, identificada por Bourdieu como a falta do capital cultural, que se acentua ainda mais por essa crise sanitária que acometeu quase toda a população mundial.

Levando em consideração, de acordo com especialistas da Europa, que a cada mês o fosso da desigualdade vai aumentando de forma exponencial, logo o combate errôneo da epidemia vai aumentando o abismo social entre os alunos. É de suma importância que os políticos brasileiros não só observem a situação como também se comprometam, se envolvendo a fim de que tenhamos capacidade de desenvolver um protocolo de retorno que, além das orientações sanitárias, possua também diretivas pedagógicas justamente para que não se acentue o fosso da desigualdade social que a pandemia já está causando em progressão geométrica, ajudando assim gradativamente na diminuição desse fosso. E, como nada será como antes, é preciso urgentemente que se desenvolvam estratégias para que o retorno às aulas, principalmente as presenciais, possa ser o menos traumático possível. Bruno Leal Pastor, editor da Revista Eletrônica de História, traduzindo uma matéria de Laura Chaparro cita as palavras de Hetan Shah , diretor executivo da Academia Britânica, que diz: “Se quisermos superar esse vírus, precisaremos da experiência e do conhecimento de uma ampla variedade de disciplinas, desde Ciências Sociais e Humanas até Medicina, Biologia e Engenharia”. Esse artigo destaca o papel das Ciências Humanas para tentar impedir o aumento da pandemia. O artigo menciona o papel importante de antropólogos, psicólogos e sociólogos, deixando clara a seguinte situação: mesmo que o trabalho desses profissionais não seja objeto de manchetes na mídia, suas atuações devem ser levadas em consideração, principalmente por conta das experiências de epidemias e pandemias anteriores.

Tendo em vista a situação urgente, é importante destacar que a preocupação das pessoas no tocante ao retorno às aulas é bem latente. E isso vem se evidenciando através dos números de uma pesquisa recente realizada pelo Datafolha, que mostra que, para 76% dos brasileiros, as escolas deveriam continuar fechadas. Na opinião dos entrevistados, que estão inseridos em todas as faixas etárias, faixas de renda e pesquisados em todas as regiões do país, ficou claro, com os números da pesquisa, que a maioria da população não deseja que as aulas presenciais sejam retomadas. Percebemos alguns estados brasileiros tomando a iniciativa de desenvolver projetos de retorno dos alunos às aulas, mas, como não há fórmula mágica, esse processo de retomada é mais espinhoso do que parece, porque o retorno não envolve somente as escolas públicas, mas também as escolas particulares.

Além disso, envolve o transporte público, a capacidade dos hospitais no atendimento aos doentes da Covid-19 e o entorno dos alunos – seus parentes, professores e colegas de classe. Como podemos perceber, o caminho a percorrer é bastante árduo.

As ideias de retorno são muitas, mas a praticidade na efetivação delas é muito complexa. Por isso, entendo que, para conseguir um mínimo de coerência necessária para que esse retorno aconteça, é preciso ir além do campo saúde. É mister destacar que muito se fala sobre protocolos de saúde que deverão ser implantados nas escolas, fala-se também dos prejuízos financeiros que as escolas particulares estão acumulando por conta dessa situação ímpar e em especial destaca-se a crise econômica que sobrevém em virtude do isolamento social, necessário, é claro, pois, por enquanto, é a única alternativa para conter o avanço da pandemia. Não obstante, dentro daquilo que lemos e ouvimos diariamente, fala-se muito pouco das perspectivas pedagógicas, do abismo social e intelectual que acometerá os alunos e de soluções práticas, as quais, sabemos, nunca atingirão o desejo da igualdade, mas que poderão diminuir o impacto de mal que sobreveio a todos sem quaisquer distinções, mas que ao final tem seu maior impacto sobre as pessoas consideradas desassistidas na aplicação plena da palavra.

Como estão reabrindo e como reabrirão as escolas em alguns países da Europa? Conforme destacou o jornal Folha de Pernambuco, o retorno será da seguinte forma:

Na Holanda, a solução para permitir a volta das aulas foi dividir as turmas em dois turnos, um pela manhã e outro à tarde. Na França, as turmas terão no máximo 15 alunos quando as escolas reabrirem. O número é a metade da ocupação média das classes antes da pandemia de coronavírus. A retomada das aulas vai começar com crianças entre 5 e 11 anos de idade, em 12 de maio. A partir do dia 17, começam a voltar alunos a partir de 12 anos, até a reabertura total, em 25 de maio (2020).

O jornal A Gazeta, do Espírito Santo, abordou o retorno às aulas na Dinamarca, onde foram adotadas medidas de distanciamento mínimo de dois metros entre cada aluno nas salas de aula, intervalo para o recreio em pequenos grupos; foram proibidas as reuniões de professores e entrada dos pais nas escolas; os alunos precisam lavar as mãos a cada hora. Na China, que tem dimensão continental, as regras variam de acordo com o grau de contaminação, mas algumas medidas adotadas são comuns à maioria das regiões, tais como uso obrigatório de máscaras, medição da temperatura na entrada, desinfecção com tendas instaladas nas escolas, proibição sistemática de aglomerações, distância mínima de um metro entre os estudantes nas salas de aula. Em Israel as medidas básicas adotadas foram: uso da máscara; na hora do recreio, manutenção do distanciamento mínimo estabelecido pelos órgãos de saúde e a proibição de divisão de lanches entre os alunos.

Vimos aqui que os procedimentos são muito semelhantes, mas isso não significa que terão efetividade plena. A situação de cada país varia em muitos sentidos, não obstante atentar para tais medidas é de suma importância para criar um “norte” na tentativa de retomar as aulas no Brasil. De qualquer forma, é notório mencionar que a questão cultural e econômica são fatores fundamentais que diferenciam as decisões de vários países europeus e asiáticos e as decisões que serão tomadas no Brasil.

Schleicher, em sua entrevista, abordou uma questão que precisa ser levada em consideração. Ele deixou claro que sem educação não tem como existir a economia, tendo em vista que, segundo seu conceito, “o futuro dos nossos países depende da educação; as escolas de hoje serão a economia de amanhã”.Conceito razoável, pois quando vem acompanhado de fatos deixa clara a sua eficácia. Tanto que, a título de exemplo, ele mencionou a China. Esse país asiático teve a ideia de lançar uma plataforma de aprendizagem, disponibilizada gratuitamente, que possui na nuvem 7.000 servidores e 90 terabytes de banda larga. Toda essa capacidade oferece a oportunidade de acesso a mais de 50 milhões de pessoas simultaneamente. É um exemplo sério a ser levado em consideração. De onde veio o dinheiro para erguer toda essa estrutura? A maior parte foi doada por companhias de tecnologia. Isso mostra que, para que conseguir um retorno às aulas de forma menos impactante negativamente, será necessário o comprometimento de toda a sociedade na empreitada, incluindo empresas particulares, públicas e principalmente o governo.

Quando falamos de governo, é imprescindível mencionar que estamos nos referindo a todas as esferas, pois todos têm suas responsabilidades nessa questão. O Governo Federal tem o Ministério da Educação, que é responsável pela estruturação do processo educacional na criação e manutenção das diretrizes pedagógicas e na condução e fiscalização na questão da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), atuando no desenvolvimento de políticas públicas educacionais, principalmente em caráter de excepcionalidade por conta do momento atípico que vivemos. Os governos estaduais e municipais atuam na execução e prática dessas diretrizes; os poderes legislativos, Câmara Federal, Assembleias Legislativas Estaduais e Câmaras Legislativas Municipais fiscalizariam essas ações. E o Poder Judiciário e o Ministério Público, em todas as suas esferas, fazendo valer a execução das tarefas sem os desvios de objetivo para que os recursos destinados a esse fim sejam bem empregados.

É claro que a situação mencionada no parágrafo anterior pode parecer utópica em virtude da instabilidade política que vivemos atualmente, mas não é impossível torná-la real, porque temos mais atores (professores e a comunidade escolar) envolvidos nesse processo, mas que ainda não foram inseridos de forma plena. Exemplificando: no universo educacional é perceptível o receio para retornar às aulas sem ter no mínimo uma segurança plausível, receio esse que é coerente e tem bastante sentido. No entanto, fica claro também que, na sua grande maioria, os profissionais de educação ainda não perceberam que seu papel é de importância crucial para esse retorno, pois mesmo que se possa criar um milhão de procedimentos sanitários para o retorno das aulas, tudo será inócuo se os profissionais da educação não souberem na prática implementar esses procedimentos. Sem dúvida nenhuma a questão da saúde é importantíssima, mas a questão pedagógica precisa urgentemente ser discutida de forma mais abrangente, envolvendo, se possível, todos os atores mencionados neste artigo. Não há como voltar. A pandemia é real; ou faz parte da nossa nova realidade, não existe uma vacina a ser aplicada até o presente momento e não existe fórmula mágica para solucionar esse problema de forma imediata. É peremptoriamente importante aceitar o “novo normal” e nos adaptarmos a ele. Não conseguiremos resolver todas as questões de um dia para outro, por isso precisamos começar a desenvolver estratégias para que o processo de retorno às aulas presenciais tenha um início seguro tanto no contexto da saúde quanto no contexto pedagógico e no psicossocial.

Precisamos pensar em projetos de curto prazo para aparelhamento tecnológico das unidades educacionais e capacitação dos profissionais de Educação; e de médio e longo prazo para a implantação mais eficiente possível do retorno às aulas objetivando o menor impacto possível nas perdas que infelizmente os alunos terão. Precisamos amenizar o máximo que pudermos essas perdas. É interessante observar também, por causa da questão cultural e ouros fatores que não precisam ser mencionados aqui, que o povo brasileiro, em sua grande maioria, infelizmente, pensa em soluções a curto prazo; por esse motivo temos uma Constituição Federal promulgada em 1988, mas que já sofreu inúmeras mudanças; atualmente são 106 emendas, sendo a última datada de 7 de maio 2020. Ou seja, o “jeitinho brasileiro” está arraigado em nossas mentes quer voluntariamente quer involuntariamente. Então, para que possamos ser livrados dos grilhões desse “jeitinho”, precisamos agir, senão o que já está muito ruim se tornará bem pior.

Então o que fazer? Investir nos atores principais? Quem são eles? Os profissionais da Educação, com destaque para os docentes, e os alunos. Começando pelo docente, temos que ser capazes de responder à seguinte pergunta: qual a importância do processo de formação do docente na aplicação do uso das tecnologias de informação disponíveis? A formação do docente também contribui para a dificuldade de desenvolver atividades que necessitam do uso das tecnologias, porque ainda não existe um investimento significativo dentro das universidades para a implantação do ensino com o uso de mídias eletrônicas. Isso se dá porque, além de o Estado (em todas as esferas) não investir pesadamente esses recursos, existe também a resistência de grande parte dos docentes na aplicação deles, levando em consideração que a maioria não está qualificada para utilizá-los, então sua aplicabilidade fica mais difícil, principalmente neste período de pandemia.

Para piorar ainda mais a situação, as medidas tomadas para conter e pandemia jogaram por assim dizer no “colo” dos docentes o ensino a distância. E isso ocorreu de forma abrupta, dificultando ainda mais o processo de retomada das aulas, pois é digno de nota que a realidade dos profissionais de ensino e alunos da rede pública de ensino não é compatível com o EaD, em especial no Ensino Fundamental. Falando sobre o segundo segmento do Ensino Fundamental, em conversa por WhatsApp com Gabriela Laurindo, professora de Artes nas turmas de 6º ao 9º ano no município de Duque de Caxias/RJ e que paralelamente atua como coordenadora geral do Sindpefaetec no Estado do Rio de Janeiro, perguntei qual era a opinião dela sobre o uso do EaD como opção de ensino; ela respondeu:

Em tempos de uma pandemia histórica, a Covid-19, o EaD é visto por muitos como a solução para a educação em quarentena, já que, em se tratando de Ensino Fundamental, podemos dizer que é um equívoco pensar nos protocolos sanitários de combate ao vírus em conjunto com a rotina de um ambiente escolar. Podemos falar também nos rodízios de alunos propostos com a lógica de reduzir, com razão, a quantidade de pessoas por metro quadrado e imitando realidades escolares tão diferentes de outros países. Nossa grade escolar no segundo segmento, assim como nossos horários, por exemplo, é extremamente picotada, assim como o horário desses docentes. Dependendo do rodízio que se faça no segundo segmento, dificilmente professores I e alunos se encontrarão, mantendo a sua carga horária obrigatória ou mesmo razoável. Como falar em rodízio em que os alunos iriam às segundas e quintas-feiras, e outro grupo às terças e sextas-feiras com os horários de um professor I, por exemplo? Falamos também sobre a imensa inacessibilidade da maioria de nossos alunos, que, por muitas vezes, dividem um aparelho celular com dados móveis com várias pessoas de sua casa. Existem casos em áreas rurais em que um aluno caminha por quilômetros para conseguir acesso à rede wi-fi de algum estabelecimento ou pessoa que possa lhe ceder. Um EaD real e sério necessita plataforma e um mínimo de banda larga para acessar dados. Dependendo da região da qual falemos, vários de nossos alunos não contam sequer com água encanada ou mesmo escolas, muitas ainda contam com água de poço artesiano. Várias falas apontam para a ideia de que é melhor atingir um público de 60% do que nada fazer, mas, quando se faz parte dos 40% excluídos, a visão é outra. A educação já tem sido um grande poço de exclusão. Também não vejo como combinar a realidade de nossas escolas públicas a tudo isso. O vírus não espera pelas promessas de governo com as quais a escola pública convive. Não há como entrar em uma escola e esperar por uma máscara que não chega, assim como esperamos meses por diários de classe que chegam, muitas vezes, quase no meio do ano. E, somente por esses primeiros questionamentos, ouso dizer que a Covid-19 e escolas públicas não podem conviver nesse país nem o ensino remoto, a não ser que os investimentos para educação sejam revistos assim como as prioridades. Proporcionar acesso remoto neste país tornou-se atividade essencial (o grifo é meu).

A fala da professora Gabriela Laurindo externa de forma sóbria a questão do EaD, pois esse sistema se tornou outra problemática para a efetivação do retorno as aulas. O Estado de São Paulo tem sido um exemplo notório dessa situação. E como São Paulo é o estado mais rico da Federação e possui uma rede escolar de tamanho significativo nos três níveis, analisar o caso desse estado poderá nos dar condições de desenvolver algum procedimento que esteja ao alcance da maioria ou senão de todos os estados da Federação.

Acompanhando o desenrolar da progressão da quarentena de São Paulo, foi percebido que a incerteza era a ordem do dia. Os paulistas pensaram na antecipação das férias escolares porque eles, da mesma forma que todo o Brasil, tinham em mente que o problema seria passageiro e que logo voltaríamos à normalidade. Como isso não aconteceu, o plano seguinte foi a implantação do EaD. O empenho da Secretaria de Educação de São Paulo foi muito grande para se adequar ao EaD, implantando uma plataforma de tamanho considerável. Mesmo assim o sucesso não aconteceu, por quê? A reportagem da Dani Borges, da BBC News Brasil de 11 de maio de 2020, declara: “A iniciativa, porém, esbarra em uma dura realidade: dificuldades dos alunos, seja pela falta de internet ou estrutura familiar, e a falta de preparo dos professores para lidar com a plataforma e todas as mudanças na forma de ensinar”. Essa declaração que converge com o entendimento do pesquisador Schleicher e da professora Gabriela Laurindo.

Por que o modelo implantado não foi suficiente para cobrir as demandas? Segundo a professora Maria Izabel Noronha, presidente da Apeoesp (Sindicato dos Professores da Educação Oficial do Estado de São Paulo), "para os professores, que estão na ponta do processo, está claro que esse modelo não funciona. Ele não é inclusivo e aumenta ainda mais as desigualdades". Para piorar a situação, segundo ela, essa proposta cria uma demanda sufocante, sobrecarregando os docentes e os deixando estressados e exaustos. Isso faz sentido porque, até certo ponto, estas condições causam também uma profunda depressão em alguns deles por conta da frustração causada pela ineficiência ou não cumprimento da proposta.

Vários fatores contribuíram e ainda contribuem para o fracasso da implantação do EaD nas escolas de São Paulo; dentre eles podemos enumerar, de acordo com a reportagem da BBC News Brasil e segundo as informações da professora Neuza Ribeiro, coordenadora da subsede da Apeoesp em Araraquara: “acesso à tecnologia, falhas na programação, falta de recursos, seja internet ou celular para dar conta das atividades". Infelizmente, parece que os desenvolvedores da metodologia não levaram em consideração a realidade dos professores e alunos. O mais interessante da reportagem é que ela menciona que o EaD também não funciona de forma plena nas escolas particulares.

Apesar das inúmeras tentativas e de projetos desenvolvidos para ajustar o EaD aos alunos paulistas, ainda são perceptíveis as enormes barreiras para a implantação desse sistema de ensino, principalmente no primeiro segmento porque ainda existe a dificuldade de implantação tanto na forma como no conteúdo. Do mesmo modo que está ocorrendo em São Paulo, a pressão para que o EaD emplaque ocorrerá em outros entes da unidade federativa brasileira. A resistência ao EaD ainda é muito grande na educação, com destaque para o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. No que diz respeito às dificuldades relatadas, a reportagem da BBC News Brasil destaca as observações do professor Fabio Fonseca, diretor acadêmico da Fael, em São Paulo. A implantação do EaD não é fácil, apesar de essa ferramenta de ensino ter um valor de grande significado; no entanto, é importante observar que, para a implantação dessa ferramenta, se fazem necessários organização e treinamento dos docentes. Isso não ocorreu no caso de São Paulo. Fabio Fonseca disse, de acordo com a reportagem: "Viemos de um modelo presencial, numa mudança abrupta. Mas certamente é uma mudança sem volta. O processo online veio para ser uma ferramenta importante". Apesar de a faculdade na qual ele é diretor ter disponibilizado gratuitamente para os docentes cursos sobre EaD, o tempo de absorção aliado à implantação “a toque de caixa” com certeza dificultou a eficácia do EaD nesse período de pandemia. Então, o que pode ser feito no caso dos professores para enquadrá-los nessa nova realidade, que, segundo o entendimento do professor Fabio Fonseca, não haverá volta?

Em um artigo falando sobre o uso de jogos no ensino (2020), abordei a importância do professor no processo de ensino-aprendizagem focando a tarefa do professor no fazer pedagógico. Peña (2001, p. 330) destaca que o docente não pode ser aprisionado pelo medo e comodismo porque, segundo ela, “é dialogando com outras áreas do conhecimento que podemos ampliar o conhecimento científico”. Pelo que fora destacado, é importante ressaltar que a preparação do docente se torna uma questão primordial em quaisquer reformas pedagógicas, como ressalta Piaget (1994, p. 25-26).

Neste artigo, salientei que infelizmente nas próprias faculdades os alunos são tratados de forma retrógrada, com avaliação punitiva. Lembrei também que no Brasil o processo de formação do docente é “engessado” e por causa disso as aplicações desse processo nas outras esferas da educação sempre serão contraproducentes, tendo em vista a má formação do docente nesse aspecto. Por isso, é imperativo afirmar que é de suma importância para nós, docentes, parar e refletir sobre como melhorar as grades e os currículos escolares, ou seja, o acompanhamento pelos docentes das inovações metodológicas para melhorar o desenvolvimento do aprendizado dos alunos, principalmente porque estamos vivendo em tempos difíceis, nos quais as mudanças estão ocorrendo em velocidade inimaginável tempos atrás. Para que consigamos acompanhá-las, precisamos, e muito, nos livrar dos grilhões do tradicionalismo retrógrado. Infelizmente precisamos com urgência tornar isso uma realidade prática, mesmo que façamos debaixo de muita tristeza em virtude da dor e de muitas perdas que presenciamos atualmente.

Além das dificuldades dos docentes, é válido lembrar também que as escolas ainda não estão equipadas adequadamente para o uso de recursos tecnológicos; isso faz com que haja enorme dificuldade na aplicabilidade dessa alternativa pedagógica, quer em salas de aula, que seja de fora, como vem acontecendo com muitos docentes; para piorar, o uso dos equipamentos eletrônicos, principalmente o computador, tem sido dividido por toda a família, levando em consideração que cada membro possui suas necessidades específicas. Temos que repensar rapidamente a dinâmica e mudá-la para estabelecer uma ordem de natureza infraestrutural mais eficaz voltada em especial para a capacitação do docente no uso dos recursos tecnológicos. Nesse caso, a mudança necessitaria ser de caráter emergencial, levando em consideração que o tempo não para e não volta.

A gravidade da questão da capacidade dos docentes ao uso de recursos tecnológicos é tão premente que na última edição do relatório sobre Educação, a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis) mostrou que os professores brasileiros acabam perdendo muito tempo durante as aulas com questões de disciplina, gastando assim um terço desse período aproximadamente com questões não pedagógicas, sobrando 67% paras estas. Ou seja, se tivéssemos um direcionamento de esforços mais pontual, acredito que o tempo perdido poderia ser usado para a capacitação do profissional de educação no uso das tecnologias. Precisamos agir, pois este é o momento.

O que pode ser feito? Olhar com atenção o que o Estado de São Paulo está fazendo. Não existe fórmula ideal, mas inúmeros fatores devem ser levados em consideração para fazer com que esse retorno dos alunos não seja aplicado de forma banal e visando somente o interesse econômico dos empresários do setor educacional privado que têm exercido um forte lobby para que esse retorno ocorra o mais rápido possível.

Levando em consideração que o Brasil ostenta os piores índices educacionais do mundo, é muito perigoso tratar a educação em todos os níveis, cidades e regiões conjuntamente como está fazendo São Paulo; isso pode beirar o absurdo. É preciso analisar algumas arguições: o que tem em comum uma criança de até cinco anos de idade na Educação Infantil com um adulto de 18 anos saindo do Ensino Médio e indo para o Ensino Superior? Como recuperar o atraso de seis meses de uma criança de até cinco anos? Não seria bom escutar outros especialistas que possam somar no processo pedagógico para o retorno das aulas, tais como: psiquiatras, psicólogos, psicopedagogos sobre quanto pode ser afetada uma criança que tem seu desenvolvimento em confinamento, sem verdadeira sociabilização? O uso do computador, a videoconferência, enfim, o ensino a distância para alunos do Ensino Fundamental, principalmente o primeiro segmento não seria muito mais que uma mera repetição, dificultando esses alunos a ter capacidade de socialização? É importantíssimo lembrar que a socialização é fundamental para a formação afetiva e emocional da criança.

Em vista disso, vale ressaltar que a aprendizagem é uma experiência social mediada pela utilização de instrumentos e signos e pela interação entre a linguagem e a ação; destarte, esse sistema muda a forma social e o nível de desenvolvimento cultural da humanidade; em todas essas atividades está o “outro”, parceiro de todas as horas, é ele que diz o nome das coisas, a forma certa de se comportar; é ele quem explica o mundo, quem responde aos “porquês”, atuando como grande intérprete do mundo. Esse pensamento nos leva ao importante papel da escola, pois é o espaço onde o contato com a cultura é feito de forma sistemática, intencional e planejada e onde o professor deve mediar a aprendizagem possibilitando um grande avanço no desenvolvimento do indivíduo. A aprendizagem é, portanto, um processo essencialmente social, que ocorre na interação com os adultos e os colegas. O desenvolvimento é resultado desse processo, e a escola, o lugar privilegiado para essa estimulação.

Em Piaget observa-se que é importante levar em consideração a idade do aluno para que a aplicação do uso das tecnologias de informação fique dentro da capacidade de compreensão de cada faixa etária estabelecida para a capacidade de absorção daquilo que lhe será ensinado; logo, o cuidado com o uso das tecnologias de informação precisa estar presente, é importantíssima a percepção do docente nesse sentido porque toda a estrutura para desenvolver o uso das tecnologias de informação dependerá exclusivamente de quão preparado está o profissional de educação para utilizar tal recurso.

É importante observar que as sugestões em teoria são mais fáceis de absorver, mas, e na prática? Como lidar com esse complexo retorno às aulas? É muito bem sabido por todos nós, principalmente os educadores, que na prática, muitas dúvidas permanecem nas cabeças de pais e educadores. Quais serão as prioridades no retorno às atividades escolares? De que modo o escalonamento desse retorno será feito? Como tornar efetivas as medidas sanitárias que são propostas por especialistas na área de saúde? E as crianças? Qual a melhor forma que poderemos usar para que elas mantenham, até que se consiga uma vacina para a Covid-19, o distanciamento social proposto? Como serão estabelecidas as prioridades escolares, tanto no setor público como no particular? Serão uniformes? Logo, por questão de coerência, sabemos que as medidas não poderão ficar restritas ao retorno durante as fases iniciais da flexibilização, mas a discussão precisa avançar para o período pós-pandemia. Como isso será feito, levando em consideração que os alunos não irão se tornar vetores do vírus e que a escola não se torne um ambiente de retransmissão da Covid-19?

Em conversa com Talita Rabelo, estudante de licenciatura de História da Uni Rio na modalidade semipresencial e auxiliar de Educação Infantil da rede pública do município de Volta Redonda/RJ no sul do estado, fiz a seguinte abordagem: como você proporia o retorno do funcionamento das creches e do primeiro segmento neste período de pandemia e no pós-pandemia, tendo em vista a discussão da flexibilização e a intenção do retorno às atividades escolares em todos os níveis? Ela respondeu à minha pergunta e ainda fez uma curta abordagem sobre outros pontos relevantes.

Quanto às creches, não imagino um retorno possível. As crianças exigem um cuidado e uma higiene maior que a de adolescentes ou crianças mais velhas. Ainda assim, a doença que nos assola exige afastamento. Não podemos propor um retorno se há muitas escolas que não são abastecidas com material de limpeza e higiene nem normalmente, antes da pandemia. Em relação ao após esse dilema social e higiênico, penso que será necessária uma adaptação curricular para recuperar o tempo escolar perdido. Uma reformulação dos planos de curso com uma nova forma de programar as sequências de aprendizagem, em ciclos maiores, talvez. Dessa forma, os alunos não serão prejudicados pelo ano ao menos, pois haverá uma adaptação curricular. Incluo a Educação Infantil nesse novo programa. Quanto à educação como um todo, prevejo a possibilidade de uma transformação educacional: o maior uso das ferramentas tecnológicas para formação dos estudantes. O ensino a distância se tornou uma nova tendência pedagógica. Os problemas e os dilemas didáticos se transformam, por um lado, nesse paradigma. Temos que trabalhar para que todos tenham acesso às ferramentas tecnológicas. Por outro, lado, teremos que refazer os métodos didáticos para funcionarem na dimensão online. A mesma pergunta que um educador se faz na aula presencial ele se fará para o ensino a distância: como posso fazer para ensinar isso? As respostas integraram outros recursos: um vídeo, uma conferência, um chat. Qual meio posso usar para estimular os alunos e enviar a mensagem educacional? O estímulo é cativar, despertar e provocar. A mensagem é o conteúdo, a informação e o conhecimento. Em relação à Educação Infantil temos um velho dilema: qual a função da creche? Muitos sistemas de ensino se afirmam como educacionais, mas na prática há necessidade de serem assistencialistas. O cuidado não se distancia da educação. A motivação das creches e pré-escolas é o cuidado, a brincadeira, o afeto (o carinho). Sendo assim, teremos que cativar os pais e a família, para que a distância os pequeninos recebam o trabalho educacional da creche. A família é a base de formação, é a referência e ensina os princípios que esse indivíduo irá ter. E aí temos outro dilema da sociedade que é a ausência da família, os responsáveis. Qual o cuidado que a família tem com a criança até três anos de idade (nas creches) ou até cinco anos (nas pré-escolas)? Dessa forma, as creches têm uma missão, trabalhar com a família, isto é, os responsáveis, para alcançar os alunos.

Em virtude do que fora discutido em todo este artigo até este momento, podemos perceber que a questão da reabertura das escolas, em todos os níveis, não é algo de fácil resolução, com exceção, é claro daquelas que já são especializadas em ensino a distância, as quais fizeram poucas adaptações para manter seu funcionamento, como o sistema Cecierj/Cederj. Para piorar, em 29 de junho de 2020 o jornal O Globo publicou uma matéria que pode tornar mais complicado o retorno às aulas, pois destaca: “Pandemia da Covid-19 está 'longe de ter terminado', diz diretor-geral da OMS: 'O pior ainda está por vir'”. Segundo a reportagem, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, além de ter feito o alerta que é o tema da reportagem disse também:

Todos nós queremos que isso acabe. Todos queremos continuar com nossas vidas. Mas a dura realidade é que isso não está nem perto de terminar. Embora muitos países tenham feito algum progresso globalmente, a pandemia está realmente acelerando (...). A maioria das pessoas permanece suscetível, o vírus ainda tem muito espaço para se movimentar.

Todas estas informações demonstram que apesar de a discussão sobre o retorno das atividades escolares precisar ser ampla, precisa também, infelizmente, ser muito rápida, tanto na criação de protocolos para o retorno durante a flexibilização como no retorno no período pós-pandemia. Isso no leva uma outra questão: quando realmente reabrir as escolas?

A discussão de quando reabrir

Existe um momento certo para efetuar a reabertura das escolas? O que pode ser considerado para que esse momento possa ser direcionado no melhor interesse dos alunos, principalmente as crianças? Sabemos que as determinações sanitárias dos procedimentos estabelecidos pelos órgão de saúde devem ser levadas em consideração; no entanto, se faz mister, de forma mais urgente possível, considerar as questões pedagógicas e sociais que envolvem todos os atores dessa reabertura, avaliando todos os riscos e benefícios oriundos dela. Por isso é importante? Segundo a reportagem BBC News Brasil, na França, por exemplo, algumas escolas que reabriram tiveram de fechar temporariamente na semana seguinte, depois que surgiram 70 novos casos de Covid-19 no ambiente escolar. Na Coreia do Sul, do mesmo modo que na França, algumas escolas também tiveram de fechar suas portas bem pouco depois de reabrirem, pois ocorreram novos picos nos casos da Covid-19. Segundo os números da reportagem, mais de cem escolas sul-coreanas também adiaram sua reabertura. No Reino Unido, vários grupos consideraram o mês de junho como prematuro para a reabertura das escolas, dentre eles, cientistas e gestores escolares; assim, mesmo com a autorização das autoridades governamentais, algumas escolas mantiveram as portas fechadas. Na Escócia essa abertura está prevista para agosto, utilizando um modelo híbrido, no qual parte dos estudos será realizada em casa e a outra parte no ambiente escolar.

Diante destes exemplos, pode-se notar que reabrir as escolas no Brasil não será um processo muito fácil, bem como garantir medidas de segurança e distanciamento social. O documento elaborado pela ONU objetivando a reabertura das escolas possui orientações interessantes sobre protocolo de higiene, e o mesmo pode ser adaptado à realidade brasileira. Uma das diretrizes dessas orientações é: “que os protocolos de reabertura sejam claros e de fácil entendimento, que educadores de grupos de risco sejam preservados do ambiente presencial”. A ONU ressalta também que, dentro deste protocolo, “que exames escolares não essenciais sejam adiados, que pagamentos de salários sejam preservados e que a higiene pessoal ganhe novo protagonismo neste período de pandemia”.

Para completar a discussão sobre a reabertura das escolas aqui no Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz produziu no dia 29 de junho de 2020 um documento que discorre sobre o retorno das atividades escolares no município do Rio de Janeiro. Fica claro que:

Este relatório mostra que vários indicadores de saúde não foram atendidos para um retorno das atividades escolares de forma segura. Não atende a disponibilidade de leitos dentro da rede própria, não há uma queda sustentada na curva de casos e mortes, não apresenta indicadores para diagnóstico e testagem que garanta identificação de casos suspeitos, dentro do prazo preconizado pela OMS e ainda a cidade mantém risco de contágio acima de 1, fora dos padrões considerados seguros para reabertura de escolas. Diante do exposto e da possibilidade de aumento de casos e óbitos no município do Rio de Janeiro, não se recomenda a abertura das escolas, no atual momento da pandemia pelo SARS-CoV-2 (o grifo é meu).

Levando em conta que essa é uma das instituições mais respeitadas do mundo em área que envolve o desenvolvimento de pesquisas no combate contra vírus e bactérias nocivas ao ser humano, bem como especialista em combate às pandemias, epidemias, surtos e demais mazelas que afetam a saúde das pessoas, é preciso considerar com seriedade essa orientação. Por esse motivo, é importante fazer uma análise profunda, e mais urgente, para desenvolver as “fórmulas”, de acordo com as orientações sanitárias, para que as escolas não fiquem fechadas para sempre. Devemos considerar várias questões.

Como não existe fórmula mágica e de acordo com as várias informações, principalmente da Fiocruz, não teremos como retomar as atividades escolares neste ano de 2020, o que fazer? Que formas criaremos para educação das crianças brasileiras? De que maneira cuidaremos das nossas crianças e jovens para que a desigualdade social não se agrave de forma aguda? De que forma abordaremos este retorno levando em conta a socialização dos alunos? Até que ponto os pais, a comunidade escolar, as empresas, a imprensa e a sociedade civil em geral podem ser envolvidos neste retorno? A fala de Andreas Schleicher precisa ser levada em consideração, “sem educação não tem como existir a economia[...] o futuro dos nossos países depende da educação; as escolas de hoje serão a economia de amanhã”. O envolvimento de todos nesta questão é importantíssimo. Então o que pode ser feito agora? Desenvolvermos projetos para ajudar nesta questão tão emblemática. Quando falo de projetos, me refiro aos projetos da área de educação que tenham convergência com os protocolos sanitários, pois quem entende de educação são os educadores, e somos nós os principais atores na busca desta solução.

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Publicado em 04 de agosto de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

LOPES, Paulo Cesar de Almeida Barros. A Covid-19, o retorno às aulas e o custo social do fechamento das escolas - o que pode ser feito? Educação Pública, v. 20, nº 29, 4 de agosto de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/29/a-covid-19-o-retorno-as-aulas-e-o-custo-social-do-fechamento-das-escolas-o-que-pode-ser-feito