O Jogo da Terra Feliz: um instrumento lúdico que promove a Educação Ambiental na Educação Infantil

Raianni Xavier

Licencianda em Ciências Agrícolas (IFC - Câmpus Araquari)

Talita Cardoso dos Santos

Licencianda em Ciências Agrícolas (IFC - Câmpus Araquari)

Grasiela Voss

Professora (IFC- Câmpus Araquari)

Katia Siewert

Professora (IFC- Câmpus Araquari)

“Fala-se tanto da necessidade de deixar um
planeta melhor para os nossos filhos e
esquece-se da urgência de deixarmos filhos
melhores para o nosso planeta”.

Clint Eastwood

A Educação Ambiental, pode-se dizer, tem sido amplamente discutida em vários âmbitos sociais. Essa temática ocupa espaço em salas de aula, debates, discussões políticas e conferências em âmbito mundial. Também a mídia e as diferentes formas de comunicação atuais possuem papel importante na difusão do conhecimento da Educação Ambiental, juntamente com diversas instituições escolares, docentes, grupos e ONGs (organizações não governamentais) que espalham mensagens de preservação dos recursos naturais e da vida animal, orientando pessoas para a construção de uma mentalidade consciente sobre o mundo em que vivem (Dias; Marques; Dias, 2016).

Entretanto, o que prevalece é o consumo exacerbado de recursos naturais produzidos com materiais sobressalentes que dificilmente são separados e descartados de forma correta, gerando acúmulo de resíduos sólidos que contribuem para a degradação ambiental. A produção de resíduos sólidos e orgânicos descartados incorretamente decorrentes do consumismo são, de fato, inerentes à condição de desenvolvimento do ser humano, porque, ao longo dos anos, este interfere na natureza de forma a satisfazer as próprias necessidades (Mafort; Cantalice; Gomes, 2019). Contudo, essas ações não podem ser tratadas como algo comum e normal, uma vez que existem meios pelos quais a produção pode ser reduzida, seja aumentando o uso de biodegradáveis, seja destinando os resíduos de forma correta aos aterros sanitários e empresas de reciclagem.

Existem diversas práticas de ensino que tratam da separação do lixo e dos cuidados necessários com o meio ambiente; a própria escola se torna o local ideal para trocar experiências, rever conceitos e entender a responsabilidade social do ser humano (Mafort; Cantalice; Gomes, 2019), porém ainda assim o quadro de degradação ambiental continua aumentando. Isso demonstra que há uma lacuna entre o que é ensinado e o praticado, o que não significa dizer que seja culpa de apenas um grupo de pessoas. Há todo um contexto histórico a ser levado em consideração, podendo-se destacar fatores relativos às desigualdades sociais, a prioridade para a subsistência e fatores econômicos e culturais que fazem com que a temática ambiental seja desconsiderada. Trata-se de um equívoco multiplicado por milhões de pessoas no mundo que pode causar sérios danos à saúde e às condições de vida no planeta Terra.

O desinteresse por parte de diferentes grupos também pode estar relacionado à descontinuidade do ensino da Educação Ambiental durante o desenvolvimento do ser humano (Cunha, 2019). Se durante a trajetória acadêmica e o crescimento pessoal a Educação Ambiental for vista superficialmente, sem entendimento dos conceitos e da prática, as ações sustentáveis continuarão indiferentes. Por isso, a assiduidade de práticas sustentáveis deve acompanhar o crescimento do ser humano, ser ensinadas, praticadas, revistas, construídas e desconstruídas a fim de criar o hábito constante de pensar no meio ambiente como parte importante da sobrevivência e do desenvolvimento humano, criando um cidadão consciente e crítico.

Nesse sentido, buscando fechar algumas lacunas que separam as pessoas da prática sustentável diária, o Instituto Federal Catarinense (IFC) - Câmpus Araquari, pelo Projeto de Extensão Jogue o Lixo e Acerte na Lata, realizou diversas atividades de sensibilização com a comunidade interna da instituição e estendeu as práticas ao Centro de Educação Infantil (CEI) Vovó Brandina, localizado na cidade de Araquari, no norte de Santa Catarina. O objetivo do projeto foi levar a Educação Ambiental para os níveis iniciais da trajetória escolar dos estudantes, buscando instigar um olhar mais sensível e crítico sobre o meio ambiente desde a infância.

Para instruir as crianças do CEI sobre ações prejudiciais ao meio ambiente, as proponentes do projeto desenvolveram uma atividade denominada Jogo da Terra Feliz, que foi realizado com a participação de todas as turmas do CEI Vovó Brandina; são cerca de 80 crianças das turmas de Jardim e Pré I, na faixa etária de 4 a 6 anos. Diante do exposto, o objetivo deste relato de experiência é mostrar a construção do Jogo da Terra Feliz e divulgá-lo como ferramenta para trabalhar a conscientização ambiental com os alunos da Educação Infantil.

Referencial teórico

A Educação Ambiental é assunto de extrema importância a ser tratado, pois, devido aos inúmeros problemas ambientais ocorridos nos últimos anos, o meio ambiente vem sofrendo constantemente. Enchentes, queimadas, rompimentos de barragens e excesso de lixo produzido são alguns acontecimentos que prejudicam diretamente a natureza e a saúde pública. Com isso, vê-se a importância de conscientizar as novas gerações acerca da preservação do meio ambiente, destacando a necessidade de trabalhar a temática ambiental desde o início da vida escolar (Grzebieluka; Kubiak; Schiller, 2014).

Sabemos que a sobrevivência do ser humano sempre esteve ligada ao meio natural; entretanto, com a expansão do capitalismo e dos padrões de desenvolvimento humano cada vez mais altos, aumentou-se consideravelmente a degradação da natureza. Para atender às necessidades e aos desejos humanos, recursos naturais são retirados do ambiente muito além do necessário, o que acarreta desequilíbrio na relação homem-natureza (Sauvé, 2005). Dessa maneira, faz-se cada vez mais necessário que a conscientização seja constante e abranja o maior número possível de pessoas contribuindo para ações diárias de preservação do meio ambiente. Uma forma eficiente de conscientizar as pessoas é por meio da Educação Ambiental, pois, segundo, Dias (2004, p. 523), trata-se de um

processo permanente no qual os indivíduos e a comunidade tomam consciência do seu meio ambiente e adquirem novos conhecimentos, valores, habilidades, experiências e determinação que os tornam aptos a agir e resolver problemas ambientais presentes e futuros.

Para tornar-se um processo efetivo, que inclua no dia a dia das pessoas ações responsáveis e reflexivas, a Educação Ambiental deve ser baseada em estudos constantes. Para isso, é importante conhecer o mundo ao redor, observar que a natureza humana está ligada ao ambiente e entender que novos valores ambientais serão formados mediante práticas sustentáveis.

Para auxiliar na construção de um novo olhar sobre a natureza, foi promulgada a Lei n° 9.795, de 27 de abril de 1999, que instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental que, em seu Art. 2º, considera a Educação Ambiental um "componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo” (Brasil, 1999, p. 1). Por essa Lei, todos têm direito à Educação Ambiental, e é necessário engajamento da sociedade para conservar e proteger o meio ambiente. Para fortalecer a discussão social acerca da temática, no Art. 9º, essa Lei dispõe que a Educação Ambiental deve estar presente e ser desenvolvida no âmbito dos currículos das instituições de ensino público e privado, abrangendo:

  1. Educação Básica: Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio;
  2. Ensino Superior;
  3. Educação Especial;
  4. Educação Profissional;
  5. Educação para Jovens e Adultos.

Verifica-se, portanto, que, para a formação de cidadãos conscientes, a Educação Ambiental deve estar presente em todos os níveis e modalidades da educação formal, de tal maneira que seja desenvolvida como uma prática educativa integrada, contínua e permanente, assim como afirma o Art. 10° da referida Lei (Brasil, 1999). Um olhar mais atento para a Educação Infantil pode indicar que essa modalidade é um caminho apropriado para atuar com a Educação Ambiental, uma vez que se trata de futuros cidadãos atuantes, com a consciência em formação.

Segundo a Resolução n° 5, de 17 de dezembro de 2009, que trata das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, o currículo da Educação Infantil possui um conjunto de práticas pedagógicas que visam promover o desenvolvimento de crianças de 0 a 5 anos de idade. Tais propostas devem respeitar princípios éticos, priorizando a responsabilidade e o respeito ao meio ambiente (Brasil, 2009).

A preocupação com a temática ambiental ainda é um assunto novo e, devido à lacuna existente entre o ser humano e o meio ambiente, é preciso reacender nas pessoas o sentimento de pertencimento à natureza, entendendo que são as relações interpessoais e com o meio que definem quem somos. Esse “patriotismo ambiental” pode ser construído desde a Educação Infantil, por meio da conscientização expressa em práticas e alternativas pedagógicas que oportunizem às crianças entender que a Terra é a nossa casa, por isso necessita de nossos cuidados (Sauvé, 2005). Para melhor compreensão da criança, as práticas devem ser desenvolvidas sob a perspectiva da interação, por meio de brincadeiras que, conforme o exposto no § X do Art. 9° da Resolução nº 05/09, “promovam a interação, o cuidado, a preservação e o conhecimento da biodiversidade e da sustentabilidade da vida na Terra, assim como o não desperdício dos recursos naturais” (Brasil, 2009).

A interação das crianças com as práticas pedagógicas desenvolvidas pelo educador fortalece a ideia de preservação e cuidado com o meio ambiente; mediante essas práticas, as crianças podem reproduzir em casa o que aprenderam na escola. Nesse sentido, a Educação Ambiental no processo de ensino da Educação Infantil pode ser entendida como uma troca de conhecimento e experiência. Simultaneamente, tem-se o desenvolvimento da criança pelo aprendizado dinâmico, lúdico e psicomotor, ao passo que ajuda no progresso de uma pessoa consciente sobre a relação que estabelece com o meio ambiente.

Um aspecto importante para a discussão da Educação Ambiental, quando aplicada na Educação Infantil, é a relação entre a prática pedagógica e o fruto que se quer obter. É preciso que as atividades sejam dinâmicas e as práticas diferenciadas para que sejam estimulados a criatividade, o companheirismo e o sentimento de pertença do sujeito ao meio ambiente. Desse modo, pode-se trabalhar em conjunto na construção de valores e abordagens sobre a realidade socioambiental (Grzebieluka; Kubiak; Schiller, 2014).

Para Sauvé (2005), a aplicação da Educação Ambiental não se resume a ações simples, consistindo, então, num exercício que estimula a resolução de problemas e a tomada de decisão para prevenção de futuros problemas ambientais. Segundo o autor, “o desenvolvimento de competências nessa área fortalecerá o sentimento de que se pode fazer alguma coisa, e esse sentimento, por sua vez, estimulará o surgimento de uma vontade de agir” (2005, p. 318). Reforça-se, portanto a imprescindibilidade de

desenvolver projetos voltados para a Educação Ambiental nas turmas de Educação Infantil. Quanto mais cedo o tema for abordado com as crianças, maiores as chances rumo à mudança de atitude em relação à preservação do meio ambiente, por um planeta melhor. É fundamental proporcionar às crianças vivências enriquecedoras, a partir da mediação de formas sistemáticas e prazerosas (Grzebieluka; Kubiak; Schiller, 2014, p. 3.888).

Os autores fortalecem os dizeres de Sauvé (2005) sobre o uso da Educação Ambiental para estimular futuras ações positivas, conscientizando a população desde jovem, mostrando que essa alternativa é um meio eficiente para a mudança de hábitos (Grzebieluka; Kubiak; Schiller, 2014). Entretanto, é preciso mencionar que a Educação Ambiental nas escolas não raras vezes se resume à reutilização de materiais – os reciclados –, sem abordar de fato as mudanças de atitude e promover a consciência ambiental.

Ao analisar o foco da Educação Ambiental nas instituições de ensino infantil, percebe-se que, mesmo amparada por lei, sendo discutida de forma abrangente e possuindo competências para mudar o modo de vida da população, essa área do conhecimento ainda não é trabalhada de forma a promover mudanças de hábitos. Mais do que ensinar a reutilizar, o que de fato auxilia no desenvolvimento do estudante e ameniza a situação do acúmulo de resíduos sólidos, é preciso conscientizar para diminuir a produção, para o descarte correto desses materiais, a fim de que se possa respeitar aquilo que o planeta tem de precioso. Significa entender a importância de agir como um único organismo vivo, como uma rede de relações dependentes umas das outras para funcionar (Cunha, 2019).

Procedimentos metodológicos

A construção do Jogo da Terra Feliz se deu em razão da necessidade de conscientizar crianças de 4 a 6 anos em processo de escolarização sobre a importância do planeta Terra e os cuidados necessários para manter limpo o meio ambiente. Por estudos em referenciais teóricos, compreendeu-se a relevância de utilizar temáticas lúdicas no momento da explicação aos estudantes e, sucessivamente, na atividade desenvolvida.

Nas duas semanas que antecederam a visita ao CEI Vovó Brandina deu-se início à construção do jogo, que é composto por dois desenhos do planeta Terra, um deles representando uma Terra “triste” e poluída, o outro caracterizando uma Terra “feliz” e limpa. Outro item são os adesivos com desenhos que simbolizam coisas ruins no planeta Terra, como poluição, resíduos sólidos em céu aberto e queimadas; e os que retratam coisas boas, como árvores sadias, resíduos sólidos organizados, meio ambiente limpo e animais saudáveis.

Os desenhos do planeta Terra foram confeccionados em papel craft com a representação esférica da Terra, como está na Figura 1. O planeta Terra “triste” foi pintado com tinta guache nas cores azul escuro e verde musgo para simbolizar um ambiente morto, poluído e sem vida. Já a Terra “feliz” foi colorida com tintas nas cores azul e verde claro, atribuindo um aspecto vivo ao desenho. Em ambas as representações foi adicionado um rosto, confeccionado com papel cartão preto e branco; tudo foi contornado com caneta permanente preta.

Figura 1: Representação do planeta Terra saudável e “feliz” (à esquerda) e do planeta Terra poluído e triste (à direita).

Os adesivos para complementar o jogo foram construídos visando a durabilidade do material com o manuseio dos alunos. Para essa etapa, foi necessário efetuar uma busca por imagens que simbolizassem ações boas e ruins que o ser humano desempenha sobre o meio ambiente ao longo da vida. Essas imagens foram impressas, recortadas e plastificadas com papel Contact transparente, conforme apresentado na Figura 2. Uma parte dos materiais para construção do jogo foi disponibilizada pelo IFC – Câmpus Araquari, através do projeto de Extensão; outra, pelas orientadoras do projeto.

Figura  2: Adesivos plastificados, caracterizando coisas boas e ruins no planeta Terra

No dia da realização da atividade presencial no CEI Vovó Brandina foi necessário organizar a dinâmica em dois momentos. Primeiro, foi realizada uma conversa com a turma e, posteriormente, a execução do jogo. Como a atividade foi aplicada com todos os estudantes do CEI, foi primordial a organização das turmas, iniciando pelos estudantes do Jardim e terminando com as crianças maiores, das turmas do Pré I.

A conversa inicial ocorreu pela interação da professora orientadora do projeto com as crianças de cada turma. Para isso, usou uma imagem que representava o fundo do mar poluído com materiais não degradáveis e contaminado com esgoto, levantando a discussão sobre os resíduos que são descartados de modo indevido no meio ambiente (Figura 3).

A discussão abrangeu situações cotidianas que deixavam as próprias crianças tristes ou felizes; em seguida, a conversa se estendeu para as situações que poderiam deixar a Terra “triste” ou “feliz”. Essa menção aos próprios sentimentos e ao sentimento do planeta Terra contribuiu para trabalhar a empatia, associando os sentimentos vividos pelas crianças aos “sentimentos” da Terra. Após a discussão sobre as figuras, as crianças foram direcionadas para a parte externa do CEI Vovó Brandina para colocar em prática o Jogo da Terra Feliz.

Figura  3: Momento anterior ao Jogo da Terra Feliz: discussão com os alunos sobre o lixo erroneamente jogado nos rios e no meio ambiente

A dinâmica do jogo pode ser resumida em dois grupos de estudantes em fila indiana com um objetivo comum: cada um na sua vez deve escolher, dentro de uma caixa com diversos papéis picados (os papéis eram para descarte e foram coletados em outra ação do projeto), uma figura com situações que deixam a Terra “feliz” ou “triste” e tentar acertar a respectiva Terra a que elas pertencem, conforme mostra a Figura 4. O grupo de estudantes que terminar primeiro a atividade vence o jogo.

Figura 4: Foto panorâmica do momento em que os alunos realizavam o Jogo da Terra Feliz. Turma dividida em dois grupos para a competição e a representação do planeta Terra no centro da atividade

Resultados e discussão

A realização da atividade contou com a participação dos membros do projeto e das professoras parceiras do CEI Vovó Brandina que auxiliaram na dinâmica do jogo e participaram de todas as ações. O CEI ficou com o jogo, a fim de retomar a atividade quando fosse necessário e continuar o trabalho de conscientização ambiental com seus estudantes.

Um aspecto importante a ser discutido quando se fala em Educação Ambiental para crianças é a utilização de um recurso didático mais dinâmico e diferente. Isso possibilita que os estudantes se expressem, façam questionamentos, associem ações praticadas em casa ou pelos familiares e construam conexões entre o que é certo e o que é errado fazer.

Diante disso, houve uma conversa inicial com os estudantes sobre os resíduos sólidos erroneamente jogados no meio ambiente e nos rios. Eles foram questionados acerca da “tristeza” da Terra em ter um meio ambiente sujo e se gostariam de viver em uma Terra “triste”. As respostas foram bem claras: as crianças preferem viver na “Terra Feliz”, ou seja, aquela na qual o lixo é descartado de forma correta; portanto, não tem poluição ambiental. Nesse momento, pôde-se explicar a eles que, para se viver em um ambiente limpo, o lixo produzido deve ser descartado de forma correta.

Nesse caso, o jogo permitiu que o espírito competitivo, as brincadeiras e as interações das crianças com os pares e com os adultos oportunizassem momentos de troca de experiências e a apropriação de novos conhecimentos. Isso é precisamente o que a Educação Infantil busca para o desenvolvimento e a aprendizagem do estudante. São momentos em que o convívio, a brincadeira, a participação, a exploração de coisas novas e o conhecer-se resultam no processo educativo, sob a mediação do professor.

Após a discussão em sala de aula, os estudantes se dirigiram para a área externa do CEI para praticar o Jogo da Terra Feliz. Inicialmente lhes foi explicado como deveria ser realizado o jogo (Figura 5). Para essa dinâmica, os estudantes foram divididos em dois grupos: cada estudante de um dos grupos, na sua vez de jogar, deveria procurar dentro de uma caixa figuras com representações que poderiam deixar a Terra “feliz” ou “triste”. Depois, deveria correr até o cartaz e colocar o objeto escolhido em uma das duas Terras, como mostram as Figuras 6A e 6B.

Figura 5: Explicação do Jogo da Terra Feliz para os estudantes do CEI Vovó Brandina

Figura 6: A) Momento em que a estudante procura dentro da caixa uma imagem para colocar na Terra feliz ou Terra triste. B) Aluna já com a imagem em mãos colocando na “Terra feliz”

O projeto de extensão contou com bolsistas do Ensino Médio integrado ao Curso Técnico e do Ensino Superior, além de voluntários que auxiliaram as turmas com estudantes mais novos, perguntando o que achavam das figuras escolhidas e em qual Terra era correto colocá-las. Dentro da caixa havia figuras que representavam garrafas plásticas, vidros quebrados, sacolas plásticas, animais, árvores poluídas e árvores saudáveis com frutas, empresas e carros poluindo o meio ambiente, restos de alimentos, pneus, pessoas etc. Os acertos e erros dos estudantes foram utilizados no momento do jogo para promover a Educação Ambiental e a construção de conhecimentos sobre o tema.

Outro aspecto a considerar é o uso do sentimentalismo, da prosopopeia, para atribuir felicidade ou tristeza ao planeta Terra. Essa situação destaca-se como ponto positivo para o ensino da Educação Ambiental, uma vez que permite representar o aspecto vivo da natureza planetária. Apesar de os estudantes terem conhecimentos a respeito de seres vivos que habitam o planeta, não é corriqueiro tratar a Terra como um organismo vivo que funciona perfeitamente. Então, a atribuição mais visual do sentimentalismo do planeta Terra, por meio dos rostos aparentando tristeza e felicidade, contribuiu para fortalecer a ideia de cuidado com um planeta vivo e instigar uma mente consciente sobre as ações tomadas no dia a dia.

Considerações finais

A construção de material lúdico para utilização na Educação Ambiental é de extrema valia, pois oportuniza o desenvolvimento do estudante da Educação Infantil por meio do movimento, do raciocínio e da relação com os pares, construindo conhecimentos e valores importantes para a vida. Isso também inclui o modo como o professor trabalha os conceitos em sala de aula, pois tudo deve ser bem pensado para, ao final da ação, sobressaírem as boas práticas de conservação do meio ambiente.

A mudança de hábito é algo muito subjetivo e difícil de mensurar; por isso é importante manter a assiduidade no ensino da conservação do meio ambiente para que a teoria e os conhecimentos se tornem costumes. Nesse sentido, o Jogo da Terra Feliz contribuiu de forma positiva para o ensino da preservação da natureza, cumprindo seu objetivo como propagador de ideais sustentáveis e auxiliando também na construção do pensamento crítico dos estudantes.

Foi possível compreender mais a fundo a eficácia desse jogo lúdico através da devolutiva da diretora do CEI Vovó Brandina, ao retratar o ocorrido alguns dias após a aplicação da atividade:

Eu, Karol Grochowicz, e o professor de Educação Física estávamos fazendo para as crianças alguns barquinhos de papel para brincar no lago que temos em nosso CEI; logo após brincarmos e não mais estarmos próximos ao lago, as crianças nos chamaram a atenção dizendo que tinham jogado um barquinho novamente na água. Quando nos aproximamos, vimos que uma delas desfez o barquinho de papel em vários pedacinhos dentro do lago. Fizemos uma conversa com todos que estavam ali e começamos a retirar os papéis da água, quando uma criança disse: ‘Tem gente que tá deixando a Terra triste!’. Diante desse comentário, ficou claro que projetos como esse, de conscientização ambiental na Educação Infantil, trazem de forma divertida o entendimento de muitos sobre a importância de cuidarmos do planeta que habitamos e que também devemos continuar trabalhando para que possamos despertar esse entendimento e conscientização em todos.

Diante disso, para preencher as lacunas entre a teoria e as ações sustentáveis, é primordial que a Educação Ambiental seja apresentada aos estudantes ainda na Educação Infantil para que eles cresçam cidadãos conscientes e agentes de mudanças. E ainda, se naturalmente o meio ambiente consegue realizar o processo de reciclagem de materiais e reaproveitamento de recursos, é preciso ter uma visão positiva de que o ser humano racional e evoluído é capaz de aprender uma maneira ecologicamente sustentável de agir e de ser.

Por fim, é importante considerar a participação e a disponibilidade das professoras, da equipe do CEI Vovó Brandina e de todos os bolsistas e voluntários que auxiliaram na execução do projeto. Todos foram essenciais para difundir essa atividade voltada para a Educação Ambiental e são importantes para dar continuidade a projetos que educam crianças, jovens e adultos.

Referências

BARBIERI, José Carlos. Educação Ambiental. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/secad/arquivos/pdf/educacaoambiental/ealegal.pdf. Acesso em: 01 maio 2020.

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução nº 5, de 17 de dezembro de 2009. Fixa as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Diário Oficial da União, Brasília, 18 de dezembro de 2009, Seção 1, p. 18. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=2298-rceb005-09&category_slug=dezembro-2009-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 11 abr. 2020.

BRASIL. Lei nº 9.795, de abril de 1999. Dispõe sobre a Educação Ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 28 abril de 1999. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9795.htm. Acesso em: 11 abr. 2020.

CUNHA, Angélica Rangel do Nascimento. A Educação Ambiental aplicada na Educação Infantil: um estudo sobre o trabalho realizado em uma escola de Educação Infantil da cidade do Rio de Janeiro. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, a. 4, ed. 3, v. 7, p. 145-159, mar. 2019.

DIAS, Genebaldo Freire. Educação Ambiental: princípios e práticas. 9ª ed. São Paulo: Gaia, 2004.

DIAS, Leonice; MARQUES, Maurício; DIAS, Lucas. Educação, Educação Ambiental, Percepção Ambiental e Educomunicação. In: DIAS, Leonice; LEAL, Antonio; CARPI Jr., Salvador. Educação Ambiental: conceitos, metodologias e práticas. Tupã: Ed. Anap, 2016. p. 12- 44.

GRZEBIELUKA, Douglas; KUBIAK, Izete; SCHILLER, Adriane Monteiro. Educação Ambiental: a importância desse debate na Educação Infantil. Revista Monografias Ambientais, p. 3.881-3.906, dez. 2014. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/remoa/article/view/14958. Acesso em: 20 abr. 2020. doi: http://dx.doi.org/10.5902/2236130814958.

MAFORT, Marcela Eringe; CANTALICE, Aníbal da Silva; GOMES, Jacqueline de Souza. Educação para liberdade: a utopia de uma sociedade humanizada. Revista Educação Pública, v. 19, n. 32, dez. 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/19/32/educacao-para-liberdade-a-utopia-de-uma-sociedade-humanizada. Acesso em: 12 ago. 2020.

SAUVÉ, Lucie. Educação Ambiental: possibilidades e limitações. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, nº 2, p. 317-322, maio/ago. 2005. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/ep/article/view/27979/29759. Acesso em: 18 abr. 2020.

Publicado em 20 de julho de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

XAVIER, Raianni; SANTOS, Talita Cardoso dos; VOSS, Grasiela; SIEWERT, Katia. O Jogo da Terra Feliz: um instrumento lúdico que promove a Educação Ambiental na Educação Infantil. Revista Educação Pública, v. 21, nº 27, 20 de julho de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/27/o-jogo-da-terra-feliz-um-instrumento-ludico-que-promove-a-educacao-ambiental-na-educacao-infantil