Relatos de experiência sobre a produção da aguardente de cana-de-açúcar: uma prática contextualizada para o ensino de Química Orgânica

Isabel Soares de Melo Santos

Licencianda em Química (Certec/IFMA/UAB)

Débora Silva Santos

Doutora em Nanociência e Nanobiotecnologia, pesquisadora e professora formadora (IFMA)

O conhecimento sobre a produção da aguardente a partir da cana-de- açúcar e dos processos químicos envolvidos pode ser uma boa alternativa para trabalhar conceitos de Química Orgânica voltados para as funções oxigenadas – os álcoois. A produção da aguardente de cana é uma das principais fontes de renda da região de Sucupira do Norte. A bebida é obtida do mosto fermentado e destilado da cana-de-açúcar, com processos e reações químicas envolvidos.

Durante a fermentação do mosto da cana, além da formação do álcool etílico (também chamado de etanol) ocorre a formação de vários outros compostos orgânicos, tais como; aldeídos, ésteres e ácidos orgânicos, estes conhecidos como compostos secundários (Venquiaruto; Dallago, 2018). Entre os compostos voláteis encontrados na bebida, os álcoois e os ésteres são os principais responsáveis pelo seu sabor (Cabral, 2019).

A presença desses compostos na bebida pode indicar diferentes procedimentos ou fatores durante o processo de produção; por exemplo, a formação excessiva de compostos voláteis pode estar relacionada a fatores edafoclimáticos como solos, clima ou ainda diferentes procedimentos no método de preparação da bebida, como a matéria-prima, os microrganismos utilizados, as condições de fermentação (temperatura, pH, aeração), o equipamento e o tempo de destilação e o volume do contêiner empregado no processo de envelhecimento, entre outros (Cabral, 2019). A aguardente de cana é considerada um produto genuinamente brasileiro e nas últimas décadas ganhou notoriedade social e novos significados.

A cidade de Sucupira do Norte, situada a 524km da Ilha de São Luís, apresenta como destaque no setor da economia a produção de aguardente da cana-de-açúcar; a produção da bebida constitui fonte de sustento e tradição entre os moradores: a região possui atualmente mais de 80 pontos de fabricação. A cana-de-açúcar in natura é cultivada principalmente na zona rural do município, e o processo de fabricação é rústico; no entanto, as operações unitárias que englobam as etapas de moagem que antes eram realizadas de forma mais tradicional agora acontecem de forma motorizada.

Em relação ao teor alcoólico, a aguardente da cana deve possuir teor de 38 a 54% (v/v) a 20°C, podendo ser adicionados no máximo 6g/L de açúcares. Esse álcool tem que ser proveniente do destilado alcoólico simples ou pela destilação do mosto fermentado da cana-de-açúcar (Venquiaruto; Dallago, 2018). Por isso, a bebida é enquadrada como destilo-retificada ou fermento-destilada (Brasil, 2009); o produto é regulamentado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Vários parâmetros são especificados para diferenciar a aguardente e a cachaça; entre eles têm-se o teor alcoólico, a acidez volátil, a quantidade de extrato seco, açúcares e outros parâmetros de qualidade. Todos esses parâmetros devem estar de acordo com a legislação vigente e atender aos padrões de qualidade estabelecidos por ela (Cabral, 2019).

Além do que foi exposto, é importante destacar que o processo de produção da aguardente nos engenhos situados na cidade de Sucupira do Norte constitui uma boa alternativa para conduzir conteúdos de Química Orgânica, relacionando conceitos sobre reações orgânicas, funções oxigenadas e obtenção de álcoois, oportunizando assim a teoria com a prática e a vivência. Este trabalho teve como objetivo desenvolver e aplicar uma proposta pedagógica a partir da investigação dialógica apresentando como abordagem a produção da aguardente da cana-de-açúcar para alunos da rede pública de ensino. Nesta pesquisa, descrevemos como resultado um relato de experiência e discussões sobre temas geradores.

Bebidas fermentadas e destiladas: informações técnicas e regulamentações quanto ao teor alcoólico

O termo “bebida”, segundo a Legislação Brasileira – Lei nº 8.918, de 14 de julho de 1994 (Brasil, 1994) –, refere-se a todo produto industrializado destinado à ingestão humana, em estado líquido, sem finalidade medicamentosa ou terapêutica. A bebida deverá conter a matéria-prima natural, vegetal ou animal responsável por sua característica organoléptica predominante.

De acordo com o Decreto nº 6.871, de 4 de junho de 2009 (Brasil, 2009), as bebidas são classificadas em:

I - Bebida não alcoólica: é a bebida com graduação alcoólica até 0,5% em volume, a 20°C, de álcool etílico potável; e

II - Bebida alcoólica: é a bebida com graduação alcoólica acima de 0,5% em volume até 54% em volume, a 20°C, assim categorizada:

a) bebida alcoólica fermentada: é a bebida alcoólica obtida por processo de fermentação alcoólica;

b) bebida alcoólica destilada: é a bebida alcoólica obtida por processo de fermento-destilação, pelo rebaixamento do teor alcoólico de destilado alcoólico simples, pelo rebaixamento do teor alcoólico do álcool etílico potável de origem agrícola ou pela padronização da própria bebida alcoólica destilada;

c) bebida alcoólica retificada: é a bebida alcoólica obtida por processo de retificação do destilado alcoólico, pelo rebaixamento do teor alcoólico do álcool etílico potável de origem agrícola ou pela padronização da própria bebida alcoólica retificada; ou

d) bebida alcoólica por mistura: é a bebida alcoólica obtida pela mistura de destilado alcoólico simples de origem agrícola, álcool etílico potável de origem agrícola e bebida alcoólica, separadas ou em conjunto, com outra bebida não alcoólica, ingrediente não alcoólico ou sua mistura (Brasil, 2009).

As bebidas alcoólicas deverão ter no rótulo a graduação alcoólica expressa em porcentagem de volume de álcool etílico, a 20°C; na bebida, seja ela alcoólica ou não alcoólica, que contiver gás carbônico, deve-se expressar a medida da pressão gasosa em atmosfera (atm) a 20°C (Brasil, 2009).

Para a produção de bebidas fermentadas podem ser utilizadas diversas fontes ricas em açúcares, entre as quais podemos citar: cana-de-açúcar, beterraba, extratos de mandioca, arroz, milho e celulose de eucalipto. Dessas matérias-primas, sabe-se que a principal utilização da cana-de-açúcar é para a produção de açúcar e etanol, pois seus caules são ricos em sacarose.

É importante ressaltar que em muitos municípios brasileiros o processo de obtenção de bebidas fermentadas e destiladas ainda se baseia em técnicas manuais, sem a utilização de tecnologias mais sofisticadas, sendo também uma fonte de renda em muitas comunidades (Figueiredo, 2011). Os tipos de bebidas com teor alcóolico que temos a partir da cana-de-açúcar são: a aguardente, a cachaça e o destilado alcoólico.

A aguardente de cana é uma bebida que apresenta graduação alcoólica na faixa de 38% a 54% de álcool em sua composição a uma temperatura de 20ºC. Ela pode ser preparada a partir do destilado alcoólico simples de cana-de-açúcar ou pela destilação do mosto fermentado do caldo de cana-de-açúcar. Pode conter até 6g de açúcar por litro em sua fabricação. A cachaça apresenta graduação alcoólica que varia de 38% a 48% de teor de álcool à temperatura de 20ºC. A bebida é obtida apenas da destilação do mosto fermentado do caldo de cana-de-açúcar, podendo conter também até 6g de açúcar a cada litro produzido. O destilado alcoólico simples de cana-de-açúcar é destinado à produção da aguardente de cana e possui graduação de álcool acima de 54% e inferior a 70% a 20°C (Agrosaber, 2021).

Sabe-se que o nome “cachaça” é uma marca registrada de indicação geográfica e uso exclusivamente dos brasileiros; o Decreto nº 4.062, de 21 de dezembro de 2001 (Brasil, 2001), é a lei que define as expressões "cachaça", "Brasil" e "cachaça do Brasil" como indicações geográficas. O °GL (grau Gay Lussac) é a unidade de medida de teor alcoólico.

Etanol a partir da cana-de-açúcar, classificação química e propriedades

A palavra álcool é de origem árabe, Al-kuhul, que significa do ar, do espaço. Os álcoois são substâncias orgânicas cujas moléculas possuem em sua estrutura um ou mais grupos funcionais OH- (hidroxilas) ligados a átomos de carbonos saturados. Sua fórmula geral é R-OH, sendo R um grupo alquila; os álcoois podem ser considerados derivados dos alcanos, em que um dos hidrogênios da cadeia (cíclica ou acíclica) foi substituído por um grupo hidroxila (Santos, 2016).

Quando a hidroxila está ligada a um carbono de um anel aromático (Ar-OH) ou a um carbono que faz uma ligação dupla C=C, característica dos alcenos, denominamos tais substâncias como fenóis e enóis, respectivamente (Santos, 2016). A classificação dos álcoois em primários, secundários e terciários é adotada no estudo da Química Orgânica em função da previsão de suas propriedades químicas e físicas, já que elas variam de acordo com as características do carbono ao qual a hidroxila está ligada. O etanol ou álcool etílico (C2H5OH) é um exemplo de álcool primário.

O etanol ou álcool etílico é o álcool mais comum e mais utilizado para diversas finalidades; por essa razão é popularmente chamado simplesmente de álcool. Ele é uma substância líquida nas Condições Normais de Temperatura e Pressão (CNTP), com temperatura de fusão Tf = –118ºC e temperatura de ebulição Te = 77ºC, incolor e inflamável, que queima com chama clara. Seus efeitos aos humanos podem causar irritações nas vias de exposição e sua ingestão pode ocasionar danos à saúde se em grandes quantidades, principalmente ao fígado e aos rins. Sua inalação prolongada pode causar deficiência respiratória e intoxicação. Em contato com os olhos, pode provocar forte irritação (Martins, 2013).

Apesar de ser possível sintetizá-lo em laboratório, a legislação determina que o etanol utilizado em bebidas alcoólicas seja obtido a partir da fermentação natural de frutas, grãos ou da cana-de-açúcar (Brasil, 2009). A produção de etanol por meio da fermentação de fontes ricas em açúcares é uma prática conhecida desde a Grécia Antiga. No Brasil, a maior parte do álcool é produzida a partir da fermentação alcoólica da cana-de-açúcar (Sales, 2010).

A fermentação alcoólica do caldo da cana-de-açúcar é um processo exotérmico de transformação química de açúcares (C6H12O6) em etanol (C2H5OH) e gás dióxido de carbono (CO2) como produtos finais. A fermentação ocorre basicamente em dois processos: hidrólise da sacarose e processo bioquímico de fermentação alcoólica mediada pela ação de enzimas de leveduras e outros microrganismos que fermentam a glicose (Rodrigues et al., 2000).

A cana de-açúcar contém um dissacarídeo, a sacarose, que pode sofrer hidrólise quando reage com ácidos diluídos ou sob influência de uma enzima chamada invertase. Quando hidrolisada, a ligação glicosídica da sacarose é rompida, resultando em dois monossacarídeos: a glicose e a frutose (o açúcar invertido). Essa reação é chamada de inversão da sacarose, sendo essas as substâncias (a glicose e a frutose – o açúcar invertido) que sofrem o processo de fermentação alcoólica (Rodrigues et al., 2000).

Na etapa do processo bioquímico, microrganismos, como as leveduras usualmente da espécie Saccharomyces cereviseae, ao se alimentar, produzem enzimas (zimase) que aceleram a transformação do açúcar em álcool (Eckelberg, 2001). O açúcar invertido ou xarope de açúcar invertido é um líquido muito mais doce do que a sacarose em si e apresenta esse nome por conta de suas propriedades ópticas (Figura 1).

Figura 1: Hidrólise enzimática da sacarose e fermentação alcoólica por ação das zimases para produção de etanol a partir do caldo da cana-de-açúcar

Fonte: Produzido e adaptado de Rodrigues et al. (2000) e Santos (2021).

A etapa que envolve a multiplicação celular das leveduras (microrganismos responsáveis pela fermentação alcoólica no caldo de cana) vai depender também da presença de compostos nitrogenados, como as proteínas e os ácidos nucleicos, os quais são fundamentais à biossíntese da estrutura celular (Polastro, 2001).

Conforme Gonzaga et al. (2019), o microrganismo é introduzido no caldo de cana-de-açúcar e permite-se que ele atue dando início às reações enzimáticas por determinado tempo. Após esse período, o caldo passa a conter uma mistura de compostos: açúcar, água, etanol, metanol, isopropanol, ésteres e outras substâncias. Essa mistura é chamada de mosto, que é filtrado e passa por um processo de destilação, que pode ser simples ou fracionada, dependendo do objetivo da produção – se é obtenção de álcool ou de cachaça.

O processo de destilação consiste basicamente no aquecimento da amostra (mosto filtrado) até a sua ebulição. Os vapores produzidos são direcionados para um condensador (tubo resfriado), no qual são condensados e coletados. Esse líquido coletado pode ser a cachaça ou álcool etílico destilado, dependendo do tipo de destilação que foi realizada. Se o objetivo for produzir etanol com alto grau de pureza, deve-se fazer uma destilação fracionada; para produzir cachaça, pode ser realizada uma destilação simples. A diferença na produção de cachaça ou de álcool etílico está na forma como o mosto (mistura produzida pelo microrganismo) é destilado (Gonzaga et al., 2019).

Segundo Sakai (2021), da Agência Embrapa de Informação Tecnológica (Ageitec), a cachaça é produzida em todos os estados brasileiros; mesmo naqueles em que o cultivo da cana-de-açúcar não é favorável, a produção é feita a partir de uma destilação simples, geralmente em um alambique; alguns produtores costumam envelhecer a cachaça em barris de carvalho. Esse procedimento faz com que a cachaça extraia da madeira algumas substâncias que alteram suas propriedades organolépticas de cor e sabor, agregando assim valor ao produto.

A qualidade da bebida é inspecionada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e os padrões de qualidade estão de acordo com as normas exigidas pela legislação brasileira (Brasil, 2009). De acordo com Bortoletto e Alcarde (2013, apud Cabral, 2019), as propriedades sensoriais relevantes da cachaça incluem aspectos que são influenciados por sua qualidade química. O efeito sensorial das moléculas químicas é observado na intensidade da cor, no aroma e no sabor. A cor está relacionada à cachaça envelhecida em diferentes madeiras, tempo de envelhecimento e barris reutilizados. 

O processo de envelhecimento estimula as interações físico-químicas entre a madeira e a cachaça, melhorando à qualidade química e sensorial do produto. As principais interações são baseadas na migração de substâncias não voláteis da madeira e na produção de outros componentes por oxidação (Cabral, 2019). Embora a etapa de envelhecimento não seja obrigatória para a cachaça, a lei brasileira estabelece que, caso seja realizado, esse processo aconteça por um período não inferior a um ano (Brasil, 2005).

Algumas denominações de bebidas como cachaça artesanal, cachaça de alambique, cachaça orgânica, cachaça industrial ou cachaça de coluna, apesar de serem usadas por muitos produtores, consumidores e outros integrantes da categoria, não são reconhecidos pelo MAPA, considerando não possuir um regulamento técnico com critérios e procedimentos para produção e comercialização (Sebrae, 2019).

Conforme citação de Liz et al. (2016), o brasileiro consome em média 11,5 litros de cachaça por ano; esse consumo é mais prevalente na população entre 18 e 59 anos. As bebidas destiladas contêm muito mais álcool do que as fermentadas; portanto, é preciso dosar o nível a ser ingerido para que a embriaguez indesejada não seja uma desagradável surpresa.

Contextualização do álcool etílico para o ensino de Química Orgânica

O álcool é uma substância química que está presente em vários produtos que utilizamos ou consumimos em nossa vida diária. A contextualização desse assunto dentro do âmbito da escola propicia aos alunos fundamentos necessários que lhes permitam construir e exercitar o raciocínio científico e a reflexão sobre
problemas diferenciados. Nesse sentido, discutiremos a seguir algumas aplicações do álcool na sociedade.

  • Bebidas. O consumo do álcool é uma prática antiga; segundo registros arqueológicos, estima-se que o consumo de álcool pelo ser humano data de mais de oito mil anos atrás. No teto da Capela Sistina, no Vaticano, temos um afresco, Embriaguez de Noé, do pintor renascentista Michelangelo Buonarroti, que se inspirou na leitura de registros bíblicos pertinentes aos primeiros casos do uso do álcool e os efeitos dessa bebida, como a embriaguez. Observa-se que o consumo de álcool é uma praxe que acompanha a humanidade desde os primórdios (Sales, 2010). Quanto ao uso do álcool como veículo em formulações medicinais, acredita-se que as primeiras produções de bebidas alcoólicas ocorreram na época da Antiguidade Egípcia, por volta do século I d.C., quando a bebida fermentada era utilizada de maneira medicinal na cura de moléstia, além de ser usada como bebida que proporcionava longevidade (Sales, 2010). Apesar de a bebida alcoólica possuir aceitação social por alguns grupos e seu consumo ser estimulado pela indústria de bebidas alcoólicas, é importante ressaltar que o álcool pode causar embriaguez e é considerado uma droga psicotrópica que atua no sistema nervoso central, podendo causar dependência e mudança no comportamento (Martins, 2013). Quando consumida em excesso, é vista como um problema de saúde (alcoolismo); esse excesso pode contribuir para outros fatores que comprometem não só a saúde de quem consome, mas geram problemas sociais que levam a consequências como acidentes de trânsito, violência doméstica etc.
  • Combustível. Diferentemente dos combustíveis derivados do petróleo, o etanol obtido a partir da cana-de-açúcar é fonte de combustível renovável. A queima do etanol desencadeia uma chama com desprendimento de calor e não produz fuligem, daí a possibilidade de usá-lo como combustível. Em termos ambientais, é considerado um biocombustível altamente inflamável e incolor, podendo ser empregado em motores de combustão interna; possui alto valor de octanagem (105, em média), em comparação com a gasolina comum, que é 87; sua toxidez é relativamente baixa. Quanto mais alto for o índice de octanagem, menos impacto negativo recai sobre o meio ambiente, ou seja, menos gases poluentes são lançados na atmosfera (Leite; Leal, 2007).
  • Limpeza doméstica, desinfeção de superfícies e higienização. Quando se fala de higienização, limpeza e assepsia, o álcool aparece como um dos produtos mais usados; no Brasil, se refere especificamente às substâncias químicas etanol (álcool etílico) e isopropanol (também conhecido como álcool isopropílico). Essas substâncias são bastante solúveis em água e em termos biológicos, em especial o álcool etílico hidratado, apresenta-se como agente de ação biológica de largo espectro, podendo agir sobre bactérias, fungos e vírus, devido à sua composição química, que interfere nas interações químicas e rompe, por exemplo, ligações de hidrogênio, favorecendo a desnaturação das proteínas que compõem bactérias, fungos e vírus (Lima et al., 2020; Andrade et al., 2007). Um estudo sobre avaliação da eficácia do álcool comercial para desinfecção de superfícies apontou que o potencial microbicida do álcool etílico em gel é mais eficiente que o álcool etílico líquido contra a Escherichia coli e Staphylococcus aureus (Araújo; Melo; Fortuna, 2019). O álcool em gel é uma substância que possui em suas estruturas grupamentos -OH (hidroxilas) ou -COOH (ácidos carboxílicos), como a carboximetil celulose (CMC) ou um carbômero hidrossolúvel como o carbopol (Sequinel et al., 2020). De acordo com Araújo, Melo e Fortuna (2019), a concentração ótima de etanol (álcool etílico) recomendada para essas finalidades é de 70%, porém concentrações entre 60 e 95% também possuem ação desinfetante. Já o etanol puro é menos efetivo que as soluções alcoólicas aquosas (mistura de etanol com água), pois a desnaturação requer água. A Organização Mundial da Saúde (OMS) indicou o álcool 70% como substância “padrão ouro”, recomendando que seja amplamente utilizado na assepsia de mãos e objetos, principalmente em tempos de pandemia.

Com o auxílio de todo o suporte teórico apresentado neste estudo, é possível introduzir assuntos de Química Orgânica dentro da proposta álcool: nomenclatura dos álcoois, produção do etanol, teor alcoólico das bebidas, o alcoolismo, álcool e higienização e por fim implicações sociais, culturais, ambientais e econômicas para a formação de temas geradores.

Percursos metodológicos

Quanto à natureza metodológica, foi realizada uma pesquisa qualitativa. De acordo com Neves (1996), a pesquisa qualitativa visa obter dados descritivos mediante contato direto e interativo do pesquisador com a situação do objeto do estudo. Ainda de acordo com o autor, o desenvolvimento de uma pesquisa qualitativa supõe um corte temporal-espacial de determinados fenômenos por parte do pesquisador, procurando entender esses fenômenos segundo a perspectiva dos participantes da situação estudada e, a partir daí, construir as interpretações dos fenômenos estudados.

A pesquisa foi desenvolvida no período de setembro a novembro de 2018 com alunos do 3° ano do Ensino Médio da Escola Estadual Doutor Adonias Lucas de Lacerda, na cidade de Sucupira do Norte/MA, a partir da observação e coleta de narrativas orais e imagens em relação à produção da aguardente da cana-de-açúcar e os processos envolvidos. A pesquisa envolveu também toda a comunidade escolar. Os caminhos trilhados durante o percurso consistiram em:

  • apresentação da proposta pedagógica na escola;
  • realização de um seminário temático com representantes do conselho tutelar, da saúde e da polícia militar;
  • aula de campo com visita aos locais de engenho;
  • produção dos alunos e realização de seminário final com roda de debates para toda a comunidade escolar.

Foi feito um acompanhamento das principais etapas da produção de etanol realizada em um engenho localizado na cidade. Foram observados: as características e o fluxo do trabalho, o mapeamento dos processos e a realização de perguntas (entrevista não estruturada), de acordo com cada situação. Como recursos metodológicos para o desenvolvimento desta pesquisa, foram utilizados artigos científicos, normas e manuais técnicos, livros e documentações oficiais disponíveis em bancos de dados e portais de periódicos.

Relato de experiência – proposta pedagógica

A pesquisa surgiu da necessidade de trabalhar as competências e habilidades dos alunos; dessa forma, foi planejada dentro de uma proposta pedagógica com o intuito de apresentar o elo entre a teoria e a prática e vivências acerca de temas geradores. Dentro dessa expectativa, a nossa proposta abrangeu temas como álcool, composição química e propriedades, função orgânica, produção da aguardente da cana-de-açúcar, impactos provocados pelo uso excessivo do álcool e sua ação no organismo e por fim vivências de produtores de álcool na cidade de Sucupira do Norte/MA.

A apresentação dos temas geradores foi iniciada a partir da exposição da proposta pedagógica, momento inicial do projeto, realizado por meio de uma palestra sobre a temática da pesquisa (Figura 2).

Figura 2: Registro fotográfico documental realizado pelos autores da apresentação da proposta pedagógica na escola, momento inicial do projeto em setembro de 2018

Ainda durante a apresentação da proposta, para despertar o interesse dos alunos sobre a necessidade de conhecer as consequências destrutivas do consumo exagerado do álcool, foi realizado um seminário temático. Nessa etapa enfatizamos os temas geradores: a) álcool e sua relação com a saúde; b) consumo de álcool entre os adolescentes; c) acidentes e violência; d) comercialização e sua relação com a dependência.

Outras questões sociais também foram debatidas e contamos com a colaboração de profissionais representantes da Saúde, Conselho Tutelar, Assistência Social e Polícia Militar, a fim de contextualizar a apresentação do consumo do álcool na comunidade e suas consequências na vida dos jovens e de seus familiares (Figura 3).

As primeiras discussões foram realizadas dando prioridade à importância da Química em nosso cotidiano, procurando despertar o interesse e o gosto dos alunos pelos estudos em suas diferentes formas de representação, de falar abertamente sobre o consumo de álcool e suas implicações na sociedade. Foi discutido também o teor de álcool existente nas bebidas alcoólicas mais consumidas pela comunidade, com ênfase na gravidade do consumo exagerado de álcool e nas doenças relacionadas a isso.

Figura 3: Registro fotográfico da apresentação da proposta pedagógica na escola, momento do seminário temático realizado pelos representantes da Saúde, Conselho Tutelar, Assistência Social e Polícia Militar, em setembro de 2018

Nos dias atuais, muitos jovens já experimentaram, pelo menos uma vez, algum tipo de bebida com teor alcoólico; portanto, faz-se necessário informá-los sobre a ingestão de bebidas alcoólicas e suas consequências na sociedade. Discutimos que o etanol é classificado como depressor do sistema nervoso central e seus efeitos (a embriaguez) estão relacionados com a concentração do etanol na corrente sanguínea: à medida que aumenta, a pessoa começa a sentir com mais intensidade os efeitos prejudiciais dessa substância no organismo.

Durante a realização da aula de campo, os alunos puderam observar e aprender, pelos relatos e narrativas dos produtores, como acontecem os processos de fermentação e quais as etapas que estão presentes nesse processo (Figura 4). Para tal abordagem, foram realizadas pesquisas de campo em um engenho de produção de álcool na cidade de Sucupira do Norte/MA. Os alunos realizaram entrevistas espontâneas com os proprietários do engenho durante a observação dos processos produtivos, do plantio da cana-de-açúcar até a comercialização do etanol. Nessa etapa abordamos também o estudo da função orgânica álcool e o etanol a partir da cana-de-açúcar.

Conforme Rodrigues et al. (2000), o conteúdo programático de Química Orgânica tem sido trabalhado nas escolas de forma mecanizada, submetendo os alunos à memorização e ao estudo de conteúdos não correlacionados ao cotidiano. Diante dessa realidade, é importante a reflexão para buscar novos caminhos didáticos na perspectiva de alcançar melhorias no ensino de Química Orgânica. A oportunidade de vivenciar a prática, por exemplo, conhecendo um engenho e suas etapas de produção, propicia uma inter-relação do conhecimento químico com o contexto social e é uma boa alternativa para aprender definições, nomenclatura e funções orgânicas.

Figura 4: Registro da aula de campo. (A) Engenho de produção da aguardente de cana-de-açúcar em Sucupira do Norte/MA; (B) Observação dos alunos durante a etapa de fermentação, em outubro de 2018

Para Souza et al. (2020), a Química Orgânica no Ensino Médio constitui uma parte necessária e relevante na formação curricular dos estudantes e leva os alunos a uma compreensão mais satisfatória dos diversos tipos de moléculas orgânicas existentes nos seres vivos, de origem animal e/ou vegetal.

Como já discutido nesta pesquisa, há várias etapas envolvidas na produção de etanol a partir da cana-de-açúcar. Com a aula de campo, os alunos puderam analisar e discutir os principais fenômenos inerentes a cada procedimento, compreender moléculas e funções orgânicas.

As etapas finais da prática pedagógica consistiram na culminância do projeto, em que os alunos produziram atividades expositivas e puderam socializar suas próprias leituras, seus conhecimentos e suas percepções sobre os temas geradores trabalhados durante a pesquisa (Figura 5). Aconteceu também a realização de um seminário final com roda de debates para toda a comunidade escolar.

Figura 5: Registro fotográfico da culminância da proposta pedagógica (etapa final), em novembro de 2018

Segundo Mendonça (2020), uma das principais metas da Educação Científica é que o aluno desenvolva o raciocínio científico e o pensamento crítico a partir de suas vivências e situações-problema no contexto do ensino. Nesta pesquisa procuramos oferecer novas possibilidades e estratégias didáticas de ensino dentro da Química Orgânica; assim, estamos ajudando nossos estudantes a investigar problemas, a exercer o pensamento crítico e científico e a analisar enunciados em diferentes contextos e situações.

É muito importante a existência, dentro da escola, de propostas pedagógicas que possibilitem relacionar conteúdos programáticos e diversos conceitos químicos com o aprender a conhecer e o aprender a fazer, despertando nos alunos o interesse pela Ciência – em especial a Química.

Considerações finais

A proposta pedagógica foi de grande importância para enriquecer o conhecimento dos alunos sobre temas dentro da Química Orgânica e para sensibilizá-los, assim como toda a comunidade escolar envolvida na pesquisa. A partir da análise dos principais resultados, sugere-se que os conteúdos de Química sejam abordados na escola utilizando temas geradores e estimulando-os a construir reflexões científicas, sociais e culturais; desse modo, o aprendizado dos educandos é significativamente maior.

Referências

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Publicado em 16 de novembro de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

SANTOS, Isabel Soares de Melo; SANTOS, Débora Silva. Relatos de experiência sobre a produção da aguardente de cana-de-açúcar: uma prática contextualizada para o ensino de Química Orgânica. Revista Educação Pública, v. 21, nº 41, 16 de novembro de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/41/relatos-de-experiencia-sobre-a-producao-da-aguardente-de-cana-de-acucar-uma-pratica-contextualizada-para-o-ensino-de-quimica-organica