A "leitura do mundo" no contexto das tecnologias digitais

Jussara Mendonça Luquetti Ribeiro

Licenciada em Educação Física com Normal Superior (Isepam), pós-graduada em Gestão e Empreendedorismo Escolar (FAEL/PR)

As inovações tecnológicas avançam rapidamente. A cada ano, novas tecnologias digitais são disponibilizadas no mercado. Certamente, essas mudanças têm impactado também na forma como as crianças aprendem. Em 1989, Paulo Freire publicou a sua icônica frase: “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” (Freire, 1989, p. 9). Talvez essa seja uma das frases mais lembradas e citadas no meio pedagógico, porém é necessário refletirmos sobre o fato de que a frase fora escrita em um cenário tecnológico e comportamental totalmente distinto do atual. A criança de trinta anos atrás, quando muito, tinha em casa um aparelho televisor e um rádio. Portanto, sua visão de mundo era bastante restrita se comparada à visão da criança do momento presente.

Hoje em dia, uma criança de três anos, mesmo sem nunca ter ido a um zoológico, sabe reconhecer um macaco, um elefante ou um urso. Desde bebê, ela já tem contato com tablet, smartphone e smart TV, aparelhos nos quais assiste online a variados vídeos que a possibilitam conhecer muitos outros animais, objetos e lugares. 

Peço licença para compartilhar uma experiência pessoal. Em 2017, trabalhei na zona rural da minha cidade, em uma escola do campo clássica, com pouco mais de 40 alunos, em turmas multisseriadas. Às sextas-feiras, eu costumava passar algum filme para a turma. Levava o pen-drive e colocava o filme no único desktop disponível. Apesar de a tela do monitor ser pequena, as crianças conseguiam assistir e se divertiam. Certo dia, assistíamos a uma animação quando apareceu, na cena, a imagem da Estátua da Liberdade. Imediatamente, um aluno falou: "Olha! Nova York!". Eu fiquei surpresa, principalmente por tratar-se de um aluno com dificuldades de aprendizagem, com idade distorcida em relação ao seu ano de escolaridade e considerado, nos “bastidores da escola”, como um aluno desafiador. Sendo assim, como nunca havia saído da sua cidade, tampouco dominava a leitura, pensei: de que forma ele identificou o monumento como pertencente à cidade de Nova York?

Minha concepção de leitura de mundo em relação àquele aluno limitava-se à sua vida simples, no campo: o trabalho de seu pai como coveiro no cemitério em frente à escola, da caça aos preás nos finais da tarde, do plantio e da colheita da cana-de-açúcar. Contudo, a criança pobre da zona rural foi capaz de identificar Nova York pela Estátua da Liberdade, ainda que jamais tenha saído de sua localidade. Isso deveu-se ao fato de as tecnologias digitais já estarem presentes em comunidades distantes dos centros urbanos, oportunizando o conhecimento.

Portanto, a belíssima frase do saudoso Paulo Freire deve ser contextualizada, visto que o avanço tecnológico ampliou o repertório infantil ao trazer o mundo para as palmas das mãos das crianças. Ouso imaginar, como boa freiriana, que se Freire ainda estivesse entre nós certamente ele não desconsideraria esse contexto.

A difusão das tecnologias digitais é algo irreversível. Nesse entendimento, entre as dez competências que a BNCC estabelece que sejam desenvolvidas pelos alunos ao longo da vida, as tecnologias encontram-se representadas no eixo da competência 5:

5 - Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva (Brasil, 2018, p. 9).

O professor da atualidade necessita, portanto, entender que ele ensina à criança do século XXI e que não pode ignorar o contexto tecnológico no qual essa criança está inserida. De acordo com Salles, Leite e Frasson (2019, p. 184), “as inovações que se utilizam hoje se tornarão obsoletas futuramente, assim a prática docente é constantemente desafiada pelas necessidades de mudanças ocasionadas pelos novos cenários do século XXI”. Falando ainda sobre o preparo dos professores em relação às tecnologias digitais:

De acordo com pesquisa realizada pelo Movimento Todos Pela Educação, com base nos dados do Cetic (2018) e INEP (2017), 67% dos professores, por exemplo, declaram necessidade de aperfeiçoamento ou formação para fazerem o uso pedagógico das tecnologias para mediar adequadamente o processo de ensino (Cunha; Silva; Silva, 2020, p. 34).

Nesse momento, especificamente, quando a maioria dos sistemas de ensino funciona remotamente com a suspensão das aulas presenciais devido à pandemia do novo coronavírus, evidenciam-se as dificuldades docentes em relação às novas tecnologias. “Os professores de escolas privadas e públicas estão se tornando youtubers, gravando vídeos, preparando aulas atrativas, superando os seus limites” (Gonzatti et al., 2021).

Portanto, a formação continuada dos docentes deve ser entendida como um investimento urgente para atender às demandas desse aluno que chega à escola conhecendo muito mais do que há trinta anos atrás. Seu modo de “ler o mundo” evoluiu. A escola também precisa evoluir para não ficar presa a antigos conceitos, assumindo uma postura limitante e subestimando a capacidade do discente de ir além daquilo que o docente julga que ele possa alcançar. Caso o livro impresso não seja suficiente como estratégia pedagógica, possivelmente recursos digitais serão instrumentos atrativos para que o estudante construa o seu conhecimento. Naturalmente, há o hábito de relacionar os recursos digitais apenas ao entretenimento e à diversão, usados como “joguinhos” para assistir vídeos dos youtubers favoritos e para ouvir músicas, sem nenhuma relação com o aprendizado. No entanto, os aplicativos podem ser utilizados com uma intencionalidade pedagógica.

A partir de uma busca simples, é possível encontrar diversos jogos direcionados às crianças pequenas que são úteis para o aprendizado das cores, das letras, das formas etc. Pensando em crianças maiores, pode-se indicar links de vídeos a fim de que o aluno acesse para produzir determinado trabalho. Esses são apenas tipos simples, porém existem diversas possibilidades. Atualmente, há ferramentas que possibilitam a criação de Quiz sobre o conteúdo estudado. A pretensão, aqui, não é promover uma tecnolatria - neologismo que nomeia idolatrar as tecnologias digitais como se fossem indispensáveis ou decisivas para o processo de ensino-aprendizagem - como se as tecnologias fossem a solução para todos os problemas referentes à aprendizagem dos alunos. Sabemos que nenhum recurso, por melhor que seja, será eficiente sem um professor bem preparado para utilizá-lo.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 23 ago. 2021.

CASTORINO, Adriano; FURIN, Mara Mone Ferreira Soares; SELUSHINESK, Rosane Duarte Rosa. Leitura do mundo e leitura da palavra em Paulo Freire. Revista Humanidades e Inovação, v. 6, nº 10, p. 245, 2019. Disponível em: https://revista.unitins.br/index.php/humanidadeseinovacao/article/view/1502/1053. Acesso em: 23 ago. 2021.

CUNHA, Leonardo Ferreira Farias da; SILVA, Alcinéia de Souza; SILVA, Aurênio Pereira de. O ensino remoto no Brasil em tempos de pandemia: diálogos acerca da qualidade e do direito e acesso à educação. Revista Com Censo: Estudos Educacionais do Distrito Federal, Brasília, v. 7, nº 3, p. 27-37, ago. 2020. Disponível em: http://periodicos.se.df.gov.br/index.php/comcenso/article/view/924. Acesso em: 25 ago. 2021. 

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1989.

GONZATTI, Valéria; OLIVEIRA, Rochele Borges da Costa de; MUNARETTI, Robianca; BECKER, Tainá Michele. A saúde mental e a escola online – relato de experiência. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 21, nº 31, 17 de agosto de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/31/a-saude-mental-e-a-escola-ionlinei-r-relato-de-experiencia. Acesso em: 28 ago. 2021.

SALLES, Virgínia Ostroski; LEITE, Damaris Beraldi Godoy; FRASSON, Antônio Carlos (Orgs.). Formação de professores: perspectivas teóricas e práticas na ação docente. Ponta Grossa: Atena, 2019. Disponível em: https://www.atenaeditora.com.br/arquivos/ebooks/formacao-de-professores-perspectivas-teoricas-e-praticas-na-acao-docente. Acesso em: 23 ago. 2021.

Publicado em 15 de fevereiro de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

RIBEIRO, Jussara Mendonça Luquetti. A "leitura do mundo" no contexto das tecnologias digitais. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 6, 15 de fevereiro de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/6/a-leitura-do-mundo-no-contexto-das-tecnologias-digitais

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