A formação de professores em debate: a experiência da formação continuada de professores de Geografia da Fundação Cecierj

Rafael Chaves Vasconcelos Barreto

Doutor em Memória Social (UNIRIO), mestre em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais (ENCE/IBGE), licenciado e bacharel em Geografia (UFF)

Tiago Dionisio da Silva

Mestre em Educação (UFRRJ), especialista em Educação e Relações Raciais e em Docência e Educação Básica (UFF), licenciado e bacharel em Geografia (UFF), professor de Geografia (Seeduc/RJ)

O trabalho do professor é fundamental para a sociedade, nas mais diversas culturas e gerações. Esse profissional está presente durante considerável período da vida dos cidadãos, pois é importante tanto na formação individual do sujeito, na sua preparação para vida e para o mundo do trabalho, como para o seu progresso social.

Muito se discute sobre a universalização do Ensino Básico e, associado a isso, se torna imprescindível a inserção da figura do professor nesse processo, sua formação inicial e continuada, visto que essa profissão demanda constante aprendizado e atualização. Por isso, cada vez mais, necessita-se de debates acerca da formação dos profissionais da educação.

Em virtude da pandemia causada pelo SARS-CoV 2, causador da covid-19, houve a necessidade de distanciamento social, que afetou bruscamente a rotina educacional, modificando a rotina de todos. Ela obrigou que profissionais se reinventassem a partir da incorporação do ensino remoto no seu fazer pedagógico.

Desse modo, redes públicas e particulares implantaram novos métodos de ensino-aprendizagem. Isso fez com que a formação continuada e em serviço se tornasse algo urgente para ajudar os profissionais na aplicação de tais metodologias.

Ao longo dos últimos anos, de 2018 a 2021, a Fundação Cecierj vem oferecendo cursos gratuitos de formação continuada em Geografia, voltados a profissionais da educação do Ensino Básico, na modalidade EaD. Isso favorece que os educadores se familiarizem com ferramentas e métodos relacionados ao ensino à distância, colocando tais profissionais em posição de destaque, em contexto atípico.

Como forma de contribuir para essa discussão, o presente artigo tem como foco o tema da formação continuada e da formação em serviço dos educadores. Assim, o público alvo são os professores de Geografia das redes públicas do Estado do Rio de Janeiro, participantes de cursos de formação continuada na modalidade EaD de 2018 a 2021.

Apresentamos, como estudo de caso, a experiência da oferta de cursos de formação continuada em Geografia, oferecidos pela Fundação Cecierj, detalhando a metodologia utilizada no ambiente virtual de aprendizagem (AVA) e destacando a importância do Ensino a Distância (EaD). Esse destaque se fundamenta na capacidade de a modalidade supracitada atingir esse perfil de profissional, muitas vezes submetido a jornadas duplas ou triplas de trabalho e que, mesmo assim, compreende a necessidade de se manter atualizado, a fim de prestar um trabalho de excelência em prol da educação e do desenvolvimento dos estudantes. 

A abordagem metodológica se deu por meio da análise das ferramentas utilizadas nos cursos de atualização em Geografia e pela observação dos professores conteudistas e tutores responsáveis pelos cursos (Branda, 1984). Foi realizada uma revisão bibliográfica a partir de Lakatos e Marconi (2007), associando a temática da formação com o papel do professor no uso da Educação a Distância.

Com isso, esperamos que o conteúdo deste artigo fundamente pesquisadores do campo da educação e promova um debate sério acerca do papel da formação continuada e em serviço, da melhoria do processo de ensino-aprendizagem e da qualidade da educação brasileira, considerando-se, para tanto, os inúmeros fatores didáticos, políticos, econômicos e sociais, assim como o uso das tecnologias.

A importância da formação continuada

Refletir sobre o papel do professor requer a observância de inúmeros fatores inerentes à profissão, dada à complexidade de atuação. No dia a dia, o educador precisa lidar com questões que perpassam o seu fazer, tais como, a estrutura das escolas, o (re)conhecimento do seu público e os aspectos socioambientais. Entretanto, muitos currículos não contemplam tamanha complexidade, fazendo com que o profissional da educação necessite, ao longo de sua carreira, de uma complementação formativa a fim de exercer, com excelência, a sua função. Como revela Silva (2001, p. 42), muitas vezes reduzem a “complexa práxis docente à mera execução de tarefas técnico-pedagógicas”.

No que tange especificamente ao professor de Geografia, há particularidades que perpassam a compreensão das relações socioeconômicas no espaço geográfico e a relação do ser humano com o seu meio. Em virtude disso, muitos currículos de cursos de graduação em Geografia ressaltam a importância em se formar um professor-pesquisador, tornando-o capaz de se manter atualizado para melhor exercer suas funções, compreendendo as alterações do meio como saberes geográficos. Nessa linha, Marafon (2001, p. 148) ressalta a importância de o geógrafo-professor ser “capaz de trabalhar com um variado instrumental e intervir na realidade, tanto como pesquisador [quanto] como professor através da geografia” (grifo nosso). Em paralelo a essa visão, Imbernón (2001, p.48-49, apud Silva; Araújo, 2005 p. 2) ressalta que:

a formação terá como base uma reflexão dos sujeitos sobre sua prática docente, de modo a permitir que examinem suas teorias implícitas, seus esquemas de funcionamento, suas atitudes etc., realizando um processo constante de auto avaliação que oriente seu trabalho. A orientação para esse processo de reflexão exige uma proposta crítica da intervenção educativa, uma análise da prática do ponto de vista dos pressupostos ideológicos e comportamentais subjacentes (Imbernón, 2001 p. 48-49 apud Silva e Araújo, 2005, p. 2).

Contudo, a realidade do professor muitas vezes o impossibilita de permanecer estudando, pois questões como o elevado número de turmas, grande quantitativo de alunos por turma, necessidade de trabalhar em diversos locais, dentre outros fatores, fazem com que não consiga conciliar a sua prática com as suas necessidades acadêmicas.

Cabe ressaltar aqui que a excelência do trabalho do professor envolve uma política de valorização do magistério, desde a reflexão acerca dos cursos de licenciatura, suas estruturas e currículos, até a elaboração de planos de carreira, que reconheçam a complexidade do seu fazer e do seu papel social.

Contudo, não somos ingênuos em acreditar que a melhoria da Educação Básica dependa somente da formação inicial, continuada e/ou em serviço dos professores. Com educadores mal remunerados, sem condições adequadas de trabalho e sem o devido reconhecimento social, a carreira docente vem deixando de ser atrativa. Em função da dimensão mais ampla dessa problemática, compreendemos os limites de uma ação que, por não considerar nem articular essas outras dimensões da profissão docente, não promove a melhoria da educação de maneira ampla e consistente. Desse modo, há a necessidade de uma maior articulação entre as políticas públicas de valorização real da profissão docente, com as políticas de outras áreas estratégicas.

Aqui, nos concentramos na análise do papel da Educação a Distância (EaD), como veículo de consolidação desse “paradigma” de formação de professores, bem como das inúmeras ferramentas oferecidas pela modalidade para que o professor consiga adequar a sua rotina à formação e à atualização.

O papel da EaD na formação continuada de professores

Com o avanço das descobertas tecnológicas e ferramentas digitais, muitas foram as mudanças sociais associadas aos mais diversos campos, entre eles a educação. Com o desenvolvimento dos computadores e a difusão da internet, o ensino ganhou importantes aliados, dada a facilidade de acesso a conteúdos, acervos documentais e produção de materiais didáticos, com riqueza de elementos visuais e gráficos, sem a necessidade de sair de casa. Sobre isso, Duarte (2010, p. 11) mostra que

considerando estas características, fica claro que a Educação a Distância implica uma reorganização do processo educativo, deixando de lado algumas características da educação presencial, mas mantendo alguns elementos fundamentais como concepção pedagógica, conteúdos, metodologia e avaliação, que são apenas reestruturados com o suporte das tecnologias de comunicação e informação.

Sob esse conjunto de avanços, surge a modalidade de Ensino a Distância (EaD), já anteriormente aplicada nos antigos “cursos por correspondência”, com remessa de materiais para estudo fora do ambiente escolar. Oliveira e Santos (2020) mostram, remontando à visão de Niskier (2000), que tal expressão foi substituída na Alemanha pelas expressões “ensino a distância” e “educação a distância”.

A Educação a Distância é uma modalidade de educação em que professores e alunos encontram-se em locais diferentes durante todo ou grande parte do tempo em que aprendem ou ensinam (Moore; Kearsley, 2007; Carlini; Tarcia, 2010). Ressalta ainda que a sigla EaD é empregada tanto para Educação a Distância quanto para Ensino a Distância (Oliveira; Santos, 2020, p. 3).

No Brasil, a EaD surge como possibilidade de difusão e de democratização da educação. Uma opção de inclusão social dos sujeitos excluídos do sistema educacional, e, também, a melhoria quantitativa e qualitativa do processo educacional, face à limitação do sistema educativo convencional, também denominado de tradicional e presencial, que não consegue dar conta das demandas crescentes pelo direito à educação.

A regulamentação da EaD é uma questão em formação no país. A primeira menção oficial ocorreu em 1996, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Com a definição apresentada do que seria a modalidade a distância, muitos outros decretos, normativas e diretrizes foram sancionados, como, o Art. 1º do Decreto nº 9.057, de 25 de maio de 2017.

Educação a Distância, modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorra com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com pessoal qualificado, com políticas de acesso, com acompanhamento e avaliação compatíveis, entre outros, e desenvolva atividades educativas por estudantes e profissionais da educação que estejam em lugares e tempos diversos (Brasil, 2017, p. 1).

A novidade nos últimos anos vem se dando por meio do uso, cada vez maior, da tecnologia e das ferramentas digitais, como as usadas nos atuais ambientes virtuais de aprendizagem (AVA). Com relação a esses ambientes, podemos ressaltar seu papel no sentido de reunir materiais formatos e organizados, por profissionais especializados nas diversas áreas, surgindo como atores de profissionais de design instrucional (DI), profissionais de tecnologia da informação (TI) e mediadores de plataforma, que trabalham junto a profissionais da educação conteudistas, profissões impensáveis antes do advento da informática.

Embora os atores envolvidos na elaboração e na manutenção dos cursos estejam distanciados fisicamente de seu público alvo, podemos dizer que a EaD é capaz de aproximar, via AVA, todos os sujeitos. Como exemplo, citamos a rede pública do Amazonas no ensino de populações ribeirinhas que, em virtude de sua localização, torna impeditiva a presença física de professores e outros profissionais envolvidos no funcionamento de uma escola nos moldes tradicionais. O ambiente virtual, neste sentido, favorece o acesso ao conhecimento. Ainda nesse sentido podemos incluir como vantagem associada ao seu uso, a possibilidade de atendimento individualizado e de forma integral aos alunos cursistas. Individualizado no momento em que o professor e/ou mediador consegue atender cada aluno em separado e fornecer a ele materiais que potencializam o seu aprendizado, levando em consideração as suas particularidades e seus interesses pessoais. Quanto ao aspecto integral de ensino, Oliveira e Santos (2020, p. 8) ressaltam como “um modelo de ensino [em que] há interatividade constante com os sujeitos envolvidos, mantendo-se permanentemente a comunicação dialógica nesse processo de construção de saberes”. 

O atendimento individualizado se torna, então, e em muitos contextos, inviável nas salas de aula presenciais em virtude do curto tempo disponível (algumas disciplinas possuem hora/aula de 50 minutos semanais). Essa possibilidade de atendimento, considerando-se as necessárias adaptações curriculares e diferenciações pedagógicas, pode ser uma aposta para o reforço no ensino de alunos com necessidades especiais, com superdotação, dificuldade de aprendizagem e deficiência auditiva, por exemplo.

No contexto desse artigo trazemos como uma forma de aplicação a distância, o uso na formação de profissionais da educação, tanto na formação do profissional, dado os inúmeros cursos de licenciatura oferecidos nessa modalidade, quanto na sua formação continuada.

O uso EaD em formação continuada promove a inclusão digital dos profissionais que têm seu primeiro contato com essas ferramentas. A inclusão digital aproxima o profissional dos seus alunos, visto que passam a conhecer inúmeras ferramentas que o “estudante do século XXI” domina com relativa facilidade. Nesse contexto, o domínio da linguagem digital é capaz ainda de aproximar o professor de seu aluno, já que o professor conseguirá alcançar esse estudante e estreitar um diálogo de fácil compreensão com o aluno, referendando o que nos mostra Costa (2014, p. 128) ao dizer que “o mestre só será colocado na posição de sujeito suposto de saber se seu discurso for reconhecido e autorizado por seus alunos”.

Entretanto, essa modalidade se insere no contexto do exercício profissional do professor, pois muitos deles não possuem meios de participar de formações presenciais ou de horários predefinidos, por terem que trabalhar em duas ou mais escolas, além de suas outras atividades. Com isso, a modalidade EaD vem suprindo essa lacuna já que possui meios como o acesso assíncrono (professor formador e cursista acessando em momentos diferentes a plataforma).

No contexto de isolamento social, professores se viram obrigados a lançar mão dessas tecnologias, tanto para a sua formação quanto para o atendimento de seus alunos, fazendo com que a formação continuada se tornasse imperativa naquele momento. 

A EaD, utilizada como meio de promoção da formação continuada e em serviço de professores, é apresentada na parte final do trabalho como experiência dos cursos de atualização em Geografia, oferecidos pela Fundação Cecierj. Sua contribuição torna-se evidente, não somente no sentido de servir como instrumento de atualização de conteúdos do currículo sobre a disciplina, mas também como promotor da inclusão digital dos professores cursistas.

Algumas experiências em formação continuada de professores de Geografia

Conforme percebemos ao longo desse artigo, a formação continuada e em serviço é fundamental para a qualidade do trabalho prestado pelos profissionais. Belloni (2008, p. 6) afirma que a Educação a Distância, “por sua experiência de ensino com metodologias não presenciais, pode vir a contribuir inestimavelmente para a transformação dos métodos de ensino e da organização do trabalho nos sistemas convencionais”.

Diferente da formação profissional inicial, que busca formar e promover titulação ao profissional, os cursos de formação continuada visam promover a atualização em determinados temas, a saber, temas que envolvem o currículo básico de Geografia, com foco em temáticas do Ensino Médio. É importante perceber, que tais cursos e seus respectivos temas, auxiliam também no fazer pedagógico de professores que atuam no segundo segmento do Ensino Fundamental, bem como, em determinados casos, no primeiro segmento, visto que alguns temas da Geografia estão presentes nessas séries dos anos iniciais. Tal demanda é percebida em virtude da presença de professores com formação em Pedagogia, que buscam os cursos de formação continuada em Geografia.

Embora nosso foco aqui seja o professor de Geografia, professores de outras áreas também procuram os cursos e sua participação enriquece os debates, promovendo troca de saberes e incentivo à interdisciplinaridade, pois a EaD permite não somente a convergência das tecnologias, como também a convergência entre os conhecimentos como um fio condutor que (re)liga as Ciências.

A escolha dos temas para a formação continuada em Geografia busca ainda dar conta da vastidão e da complexidade dos assuntos inerentes à formação desse professor, já que precisam acompanhar as mudanças sociais, ambientais, espaciais e políticas que ocorrem, não só em esfera local, como nacional e global. Sobre isso, Marafon (2001, p. 148) mostra que

as novas problemáticas urbanas (segregação/guetização, os novos significados do urbano e do agrário), as novas relações cidade/campo, a valorização da geografia política e do território, as novas perspectivas da questão ambiental (não apenas numa análise da Geografia Física), impuseram a necessidade de um currículo que não só valorizasse esses temas como também permitisse uma atuação dos alunos, quando profissionais, nessas questões (Marafon, 2001, p. 148).

Os 12 cursos de formação continuada oferecidos pela Fundação Cecierj disponibilizaram 300 vagas cada, totalizando 3.600 ofertas em modalidade EaD com carga horária de 30h cada e periodicidade trimestral. Vale ressaltar que eles foram oferecidos por meio de ambiente virtual de aprendizagem (AVA), utilizando a plataforma Moodle.

Cada curso foi dividido em seis subitens, cada um contando com uma série de ferramentas cujo objetivo era fornecer conteúdos, promover o debate e permitir uma avaliação, ao final. Dentre as ferramentas, cada unidade contou com um vídeo de curta duração, abordando o tema da unidade, um texto organizado pelo conteudista da disciplina, contendo resumo do tema, um texto oriundo de periódico científico da área e a sugestão de um site para pesquisa de dados ou com exemplos de como o tema abordado podia ser aplicado sobre o tema.

Como forma de promover o debate, cada unidade continha um fórum de discussão mediado pelo professor conteudista da disciplina. Tal ferramenta é fundamental, pois promove não só a interação entre os cursistas, como a construção do conhecimento a partir das trocas de informações e conhecimentos entre eles. Os fóruns são denominados como salas de aula virtuais, embora possam ser entendidos como uma espécie de “sala dos professores”, pois nele ocorre a interação tão necessária entre os professores cursistas, visto que muitos se sentem solitários no seu fazer diário ou mesmo inseguros, devido a suas jornadas duplas ou mesmo triplas. Sobre os fóruns, Faria (2002, p. 134-135) mostra que

é um espaço de discussão assíncrono, via ‘Web’, no qual pode-se criar tópicos, para debate diferenciado, em cada disciplina/módulo e outras subdivisões – gerais ou específicas – que se queira. A relevância pedagógica do fórum é a de ser um espaço sempre aberto a trocas, para enviar e receber comunicações, em qualquer dia e horário, com possibilidade de comparar as opiniões emitidas, relê-las e acrescentar novos posicionamentos, e, inclusive, armazenar/anexar documentos do Word, PowerPoint ou outros. Fórum é o lugar para fomentar debates, aprofundar ideias, lançando questões ou respondendo, estimulando a participação e o retorno dos alunos, ficando registradas nominalmente, datadas e visíveis, as contribuições de todos os participantes cadastrados (Faria, 2002, p. 134-135).

O mediador atua no sentido de iniciar o debate, geralmente trazendo questões que associam o tema da unidade à experiência em sala de aula e, a partir disso, ele permanece no fórum promovendo o incentivo ao debate. A respeito desse importante elemento facilitador do aprendizado, Masseto (2007) revela que

por mediação pedagógica entendemos a atitude, o comportamento do professor que se coloca como um facilitador, incentivador ou motivador da aprendizagem, que se apresenta com a disposição de ser uma ponte entre o aprendiz e sua aprendizagem – não uma ponte estática, uma ponte “rolante”, que ativamente colabora para que o aprendiz chegue aos seus objetivos (Masseto, 2007 p. 144).

A seguir, mostraremos a fala de um cursista, retirada de um fórum de discussão, em relação à proposta pedagógica de uma das pesquisas de avaliação de curso (as identidades do cursista e do mediador foram trocadas ou omitidas):

Achei o curso muito didático e de grande valia para meu desenvolvimento profissional! Agradeço ao tutor [nome do mediador] por ser tão solícito e estimular os cursistas a refletir e participar das atividades, pois é um processo de troca que tem como resultado muito aprendizado! (Cursista Antônio).

A avaliação dos cursistas é feita com base na interação nos fóruns e a partir de duas outras ferramentas: questionários online e entrega de trabalho final. Os questionários são ferramentas simples que foram pensados de modo a fazer com que o professor cursista, por meio das perguntas ali inseridas, retorne ao conteúdo fornecido por meio dos textos e debates nos fóruns. As questões não são pensadas de modo a conter “pegadinhas”, mas sim com o objetivo de revisitação ao tema, ajudando o cursista na sedimentação do seu conhecimento.

O trabalho final consiste na confecção de um plano de aula envolvendo o tema do curso. Desse modo, por meio da confecção do plano de aula, o professor reflete sobre como aquele conteúdo trabalhado poderá ser abordado em suas aulas. Nos cursos ofertados, durante o período inicial de isolamento social (períodos 2020.1, 2020.2 e 2020.3), muitos cursistas montaram, como trabalho final, planos de aula levando em consideração o contexto do ensino remoto, ou seja, elaborando planos de aula considerando as plataformas virtuais (Google Classroom e Teams, por exemplo). A apresentação de tais resultados nos leva a crer que a presente formação faz o professor repensar sobre a sua prática, inclusive no contexto de ensino remoto.

Todas as ferramentas citadas interagem entre si, visto que o conteúdo dos textos instrumentaliza os professores para o debate nos fóruns e estes instrumentalizam o professor na organização de suas aulas, por meio das trocas de experiências e sua sistematização. Nessa interação, o mediador procura ainda estimular os cursistas a relatar experiências exitosas de como o conteúdo, que estava sendo debatido, pode ser abordado ou como eles poderiam abordar sua experiência atual com o ensino remoto.

Para Schlemer e Garrido (2009), o sujeito passa a ter autonomia quando identifica as suas reais necessidades de estudo, constrói objetivos de aprendizagens, seleciona conteúdos, organiza estratégias de estudo, busca e utiliza os materiais necessários e avalia o seu próprio processo de ensino-aprendizagem. Desse modo, o estudante passa de mero receptor a sujeito do seu processo de aprendizagem. Cabe ressaltar que o ensino remoto demanda maior autonomia por parte do aluno, bem como maior entendimento desse ensino por parte do professor. Espera-se do professor cursista, por entender melhor esse processo, que saiba lidar com essa dificuldade extra que surgirá no processo ensino-aprendizado em tempos de ensino remoto.

Com relação ao índice de aproveitamento nos cursos de formação continuada em Geografia, o Gráfico 1 mostra o percentual de aproveitamento.

Gráfico 1: Relação de inscritos e aprovados

Fonte: Dados coletados e compilados pelo professor conteudista dos cursos.

Com base nesses dados, percebemos que o retorno é bastante positivo visto que a taxa de aprovação é superior a 50% nos cursos ofertados.

Gráfico 2: Percentual de aprovados

Fonte: Dados coletados e compilados pelo professor conteudista dos cursos.

Esse índice é considerado promissor, em virtude do grau de evasão comum em cursos a distância, que se agrava dada a especificidade do público atendido, afetado por períodos de encerramento de bimestre nos quais a sobrecarga de trabalho do professor aumenta, afetando outras demandas como as referentes à sua formação.

Entretanto, cabe ressaltar que o resultado do curso oferecido em 2020.1 alcançou percentual maior de aprovados dentre todos os demais cursos ofertados ao longo do período pesquisado (71,4%), demonstrando que durante o período inicial de isolamento social houve maior dedicação dos cursistas, resultando em um maior aproveitamento. Algumas particularidades desse período como ausência de períodos de lançamento de notas e conselhos de classe facilitaram a dedicação ao curso nesse período.

Reflexões finais

Ao longo do trabalho, procurou-se ressaltar a importância do papel do professor como agente fundamental na promoção da cidadania e da melhoria social. Dada a capacidade de atuação na formação de gerações de jovens, inúmeros governos e grupos buscam intervir na atuação profissional do professor, desde a tentativa de alteração na oferta de cursos, até na manutenção de planos de carreira que resultam no seu desgaste, impactando, de forma direta, na qualidade do ensino.

Procuramos focar a proposta na importância da formação desse profissional como professor-pesquisador, visando a formação de um profissional capacitado a permanecer em constante aprendizado. Vimos que é fundamental o papel da formação continuada para esse profissional, mas percebemos que muitos são os desafios e as dificuldades pelas quais o professor passa para conseguir se manter atualizado com uma prática pedagógica de qualidade.

Em virtude da pandemia causada pela covid-19, percebemos o surgimento de dificuldades específicas oriundas da ausência de formação específica desse profissional para lidar com ferramentas virtuais de aprendizagem. Para muitas dessas dificuldades, não conseguimos respostas ao longo deste artigo. Entretanto, finalizamos percebendo que embora os desafios sejam muitos, o professor consegue se reinventar e percebe seu papel social, buscando, em meio a tantas dificuldades, cumprir com excelência a sua função a fim de promover a mudança social que muitos jovens necessitam.

Referências

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______. Ministério da Educação. Lei Federal nº. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, 1996. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/l9394.htm. Acesso em: 24 set. 2020.

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Publicado em 31 de janeiro de 2023

Como citar este artigo (ABNT)

BARRETO, Rafael Chaves Vasconcelos; SILVA, Tiago Dionisio da. A formação de professores em debate: a experiência da formação continuada de professores de Geografia da Fundação Cecierj. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 23, nº 4, 31 de janeiro de 2023. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/23/4/a-formacao-de-professores-em-debate-a-experiencia-da-formacao-continuada-de-professores-de-geografia-da-fundacao-cecierj

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2 Comentários sobre este artigo

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Gilmar Barbosa de Holanda • 1 dia atrás

Olá a todos! Gostei muito do artigo!
Costumo dizer que é uma árdua missão ser professor, muitas vezes pouco valorizado e reconhecido. Porém gratificante muito mesmo amo fazer parte da história de um formando. Vejo a importância do professor se capacitar e se atualizar, os cursos EAD facilitaram muito a minha vida, salve a tecnologia que nos impulsiona a avançar, mesmo em situações não favoráveis, consigo exercer com qualidade minhas práticas pedagógicas cotidianas e procuro colocar em prática tudo o quanto estou aprendendo e vivenciando em sala de aula nas minhas práticas docente.
Um grande abraço a todos vocês e muito obrigado pela a oportunidade!

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Raquel de Oliveira Costa Guimarães • 9 meses atrás

Olá a todos! Amei o artigo!
Costumo dizer que é uma árdua missão ser professor, muitas vezes pouco valorizado e reconhecido. Porém gratificando fazer parte da história de um formando. Vejo a importância do professor se capacitar e se atualizar, os cursos EAD facilitaram muito a minha vida, salve a tecnologia que nos impulsiona a avançar, mesmo em situações não favoráveis, consigo exercer com qualidade minhas práticas pedagógicas.
Um grande abraço!

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