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CUBA

José Luís Fiori

p>Foi logo depois da conquista da Flórida, em 1819. Os Estados Unidos só tinham 40 anos de idade, e seu território não ia além do Rio Mississípi. James Monroe era o presidente dos Estados Unidos, mas foi seu secretário de Estado, John Quincy Adams, quem falou pela primeira vez da atração norte-americana por Cuba; foi quando disse, numa reunião ministerial do governo Monroe:

“existem leis na vida política que são iguais às da Física gravitacional: por ela, se uma maçã for cortada de sua árvore nativa – pela tempestade – não terá outra escolha senão cair no chão; da mesma forma que Cuba, quando se separar da Espanha, não terá outra alternativa senão gravitar na direção da União Norte-Americana. Por esta mesma lei da natureza, os americanos não poderão afastá-la do seu peito” (Ford, 1917, p. 372-373).

Naquele momento, o desejo de Quincy Adams ainda não era conquistar a ilha; era preservá-la. Por isso deu ordem ao seu embaixador em Madri que comunicasse ao governo espanhol a “repugnância americana a qualquer tipo de transferência de Cuba para as mãos de outra potência”.

Em 1819, a capacidade americana de projetar seu poder para fora de suas fronteiras nacionais ainda era muito pequena, mas a declaração de Quincy Adams explicitou um desejo e antecipou um projeto – que se realizaria plenamente a partir de 1890. Logo no início da década, o almirante Alfred Thayer Mahan, publicou The influence of sea power upon history 1660-1873, um livro clássico que exerceu imensa influência sobre a elite dirigente norte-americana. Tratava da importância do poder naval e das ilhas do Caribe e do Pacífico para o controle dos oceanos e a expansão das grandes potências.

Logo em seguida, os Estados Unidos anexaram o Havaí, em 1897; no ano seguinte, venceram a Guerra Hispano-Americana, conquistando Cuba, Filipinas e algumas outras ilhas caribenhas, onde estabeleceram um sistema de “protetorados” como forma de governo compartido destes territórios. Logo depois da sua vitória contra a Espanha, o presidente William McKinley repetiu a velha tese de Quincy Adams frente ao Congresso Americano, em dezembro de 1899: “a nova Cuba precisa estar ligada a nós, americanos, por laços de particular intimidade e força, para assegurar de forma duradoura seu bem-estar” (Pratt, 1955, p. 414). E foi isto que aconteceu: os cubanos aprovaram sua primeira constituição independente em 1902, mas tiveram que anexar a seu texto uma lei aprovada pelo Congresso Americano e imposta aos cubanos em 1901: The Platt Amendement, que definia os limites e as condições de exercício da independência dos islenhos. Os Estados Unidos mantinham sob seu controle a política externa e a política econômica de Cuba, e ficava assegurado o direito de intervenção dos norte-americanos na ilha, em “caso de ameaça à vida, a propriedade e à liberdade individual dos cubanos” (idem, p. 415).

Em 1934, a Emenda Platt foi abolida e substituída por um novo tratado entre os dois países, que assegurou o controle americano sobre a Base Naval de Guantánamo e garantiu a tutela dos Estados Unidos sobre o longo período de poder de Fulgêncio Batista, que assumiu o governo de Cuba em 1933, a bordo de um cruzador norte-americano, e depois governou a ilha, de forma direta ou indireta, até a Revolução Cubana, em 1959.

Depois dela, entretanto, a ilha deixou de ser a maçã de Quincy Adams sem deixar de ser o objeto do desejo dos norte-americanos. O novo governo revolucionário assumiu o comando da economia e da política externa, provocando a reação imediata e violenta dos Estados Unidos. Primeiro foi o “embargo econômico”, imposto pela administração Eisenhower, em 1960; logo depois veio a ruptura das relações diplomáticas, em 1961. Em seguida, foi a administração Kennedy, que  promoveu e apoiou a frustrada invasão da Baía dos Porcos, a expulsão cubana da Organização dos Estados Americanos e vários atentados contra dirigentes cubanos. No início, os Estados Unidos justificaram sua reação como defesa das propriedades norte-americanas expropriadas pelo governo cubano e como contenção da ameaça comunista situada a 145 quilômetros do seu território.

Entretanto, depois de 1991, do fim da URSS e da Guerra Fria, os Estados Unidos mantiveram e ampliaram sua ofensiva contra Cuba, só que agora em nome da democracia – apesar de manterem relações amistosas com o Vietnã e a China. No auge da crise econômica cubana, provocada pelo fim de suas relações preferenciais com a economia soviética, entre 1989 e 1993, os governos de George Bush e Bill Clinton tentaram um xeque-mate contra Cuba, proibindo as empresas transnacionais norte-americanas de negociar com os cubanos e depois impondo penalidades às empresas estrangeiras que tivessem negócios com a ilha, através da Lei Helms-Burton, de 1996.

Essa atração precoce e a obsessão permanente dos Estados Unidos não autorizam grandes ilusões, neste momento de mudanças nos dois países. Do ponto de vista norte-americano, Cuba lhes pertence e está incluída na sua “zona de segurança”. Além disso, aos seus olhos, a posição soberana dos cubanos transforma a ilha num aliado potencial dos países que se propõem a exercer influência no continente americano de forma competitiva com os Estados Unidos. Por fim, para seus vizinhos norte-americanos, Cuba já se transformou num símbolo e numa resistência que é intolerável por si mesma. Por isso, o objetivo principal dos Estados Unidos, em qualquer negociação futura, será sempre fragilizar e destruir o núcleo duro do poder cubano.

Cuba, por sua vez, não tem como abrir mão do poder que acumulou a partir de sua posição defensiva e de sua resistência vitoriosa. A hipótese de uma “saída chinesa” para Cuba é improvável, porque se trata de um país pequeno, com baixa densidade demográfica e uma economia que não dispõe da massa crítica indispensável para uma relação complementar e competitiva com os norte-americanos.

Por isso, apesar da mobilização internacional a favor de mudanças nas relações entre os dois países, o mais provável é que os Estados Unidos mantenham sua obsessão por punir e enquadrar Cuba; e que Cuba se mantenha na defensiva e lutando contra a lei da gravidade formulada por John Quincy Adams em 1819.

Referências

FORD, W. C. (Ed.) The Writings of John Quincy Adams. Vol. VII. New York: Mac Millan, 1917.

MAHAN, A. T. The Influence of  Sea Power upon History 1660-1873, New York: Dover Publication, 1987.

PRATT, J. A. History of United States Foreign Policy. Buffalo: University of Buffalo, 1955.

Publicado em 04 de março de 2008

Publicado em 04 de março de 2008