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As eleições e o Estado
Na conjuntura eleitoral que se abre com a definição das candidaturas para a Presidência da República, começa a emergir com grande força a discussão sobre o papel do Estado. A exposição do tema certamente crescerá na medida em que a campanha eleitoral avance, tornando-se assim uma questão central nas opções que cabem à cidadania fazer pelo seu decisivo voto em outubro próximo. Este não é, obviamente, um debate novo, mas vale a pergunta: está bem colocado, de modo a favorecer a quem, em última instância, mais poderia beneficiar-se dele, ou seja, o cidadão-eleitor?
Em cima do cangote de Deus
Um homem atravessava o deserto. Sempre que olhava para trás, percebia que, junto às suas pegadas, aparecia sempre outro par, como se uma presença invisível o acompanhasse. O homem se sentia confortado sempre que via as misteriosas pegadas. Seu medo dos estranhos perigos do deserto, das ameaças do mundo, dos riscos da vida dissolvia-se, porque ele sabia, em seu íntimo, que Deus caminhava com ele. Um belo dia, enquanto atravessava o deserto mais uma vez, o homem caiu em desgraça. Olhou para trás e ficou profundamente abalado ao perceber que só havia, atrás dele, as suas próprias pegadas. Em pânico, cortado pelo estranho desespero e pelo sentimento desconcertante de orfandade, gritou para o céu: “Senhor! Como Você pôde me abandonar em um momento tão difícil!?!”. Repentinamente, uma voz respondeu: “Eu não te abandonei seu idiota, eu estou te carregando!”.
Ler uma canção, escutar um poema
O dicionário Houaiss define o termo “poesia” como uma composição em versos, geralmente com associações harmoniosas de palavras, ritmos e imagens. A definição se aproxima muito do que chamamos de canção, uma vez que harmonia rítmica e de palavras nos remete à poesia musicada. A relação entre poesia e música sempre foi íntima, quase complementar. Na Grécia antiga, a composição poética feita para ser cantada, seja por uma voz ou por coro, era chamada de lírica, porque era geralmente acompanhada por uma lira. O termo “lírico” acabou por se tornar um sinônimo da expressão de sentimentos ou pensamentos íntimos, ao contrário da narrativa, que expressa uma história. É claro que essas definições se misturam, uma vez que uma narrativa pode ser lírica (como a história de Riobaldo, em Grande sertão: veredas, ou a poesia narrativa de Morte e vida severina). O lirismo, se associado ao sentimento poético, pode ser encontrado em canções, poemas, na prosa ou mesmo em textos teatrais. Baudelaire, Guimarães Rosa, Raduan Nassar e vários outros autores escreveram textos em formato de prosa, sem métrica, rima ou mesmo ritmo, mas utilizando a função poética da língua para trazer lirismo (isto é, poesia) a esses textos. Assim, expressar o eu lírico do personagem é uma forma de trazer poesia à narrativa, o que não necessariamente faz dessa narrativa escrita um poema.
A pressa é amiga da perfeição
É possível que provérbios até então intocados por razões variadas – dentre elas o receio de topar de frente com anos de enraizada tradição popular – possam ser reavaliados e, de tal feita, encontrar novas perspectivas a seu respeito, haja vista que as muitas transformações sofridas até então, sobretudo no campo profissional, demandam novos e fundamentais ajustes. “A pressa é inimiga da perfeição”, por exemplo, já não traduz verdadeiramente a estatura acerca dos resultados que se pode obter na vida organizacional contemporânea. Entende-se, pois, que tal máxima encontra-se ultrapassada na prática laboral. Ao contrário, verificando o polo oposto de tal dito é que se alcança o seu inusitado entendimento. Rapidez e qualidade precisam andar de mãos dadas. É uma exigência do mercado e um compromisso pessoal do desenvolvimento do trabalhador para consigo mesmo.
Mais sobre o problema da Liberdade da Vontade
No presente texto vamos continuar a discussão iniciada em O problema da Liberdade da Vontade, segundo Benson Mates. Esse pesquisador analisa a visão de outros filósofos sobre esse problema e tenta ver até que ponto o agente pode ou não ser responsabilizado moralmente pelos seus atos.
A infância perdida
Se existe um grupo de agentes que definitivamente perdeu com a modernidade foi o conjunto das pessoas que fazem parte da fase do ciclo da vida que denominamos infância. É mais do que lamentável o fenômeno em apreço. Não faz muito tempo que a criança era entendida como o futuro de um país e/ou a possibilidade iminente de dias melhores. Ledo engano: hodiernamente, a infância é tratada como algo qualquer, um adulto em miniatura, um proletariado em potencial, uma projeção ininterrupta dos pais e uma fonte de renda para agentes do mercado.
Os tempos da História
Aqui se tem a sensação que vivemos um eterno festival de síndromes. Surpreendentemente diríamos que presenciamos sempre o acometimento da verdadeira Síndrome de Chalaça ou mesmo que tudo decorresse da conhecida Síndrome de Peter Pan ou ainda que fosse um significativo sinal permanente das síndromes de que estamos sacudidos. Basta observarmos com mais atenção o nosso panorama político parlamentar que podemos constatar que a nossa luta é de vivermos "expurgando formatações". Tais síndromes são repetitivas e se renovam na nossa burguesia e nos comportamentos de nossa classe média!
História da língua portuguesa: formação e implantação de uma língua navegante
ComunicaçãoA língua constitui um sistema vivo de comunicação que privilegia a mútua compreensão e entendimento de um determinado povo. Ao adentrar o estudo de uma língua, estudam-se os fatos do contexto histórico e os acontecimentos que promoveram, direta ou indiretamente, sua origem. No que diz respeito à história da língua portuguesa, faz-se necessária uma busca histórico-geográfica desde sua origem até sua implantação no Brasil.
Manuel Bandeira e a melancolia de Clavadel
Dizia Valéry, de acordo com a lírica da severidade formal praticada por Mallarmé, que "uma poesia deve ser uma festa para o intelecto". Por sua vez, o surrealista André Breton formularia outro princípio, oposto ao primeiro; segundo ele, "uma poesia deve ser a derrocada do intelecto". Ambas as assertivas datam de 1929 e atestam tendências polarizadoras da poesia moderna. No entanto, coincidem "no tocante à fuga da mediocridade humana, ao afastamento do concreto normal e dos sentimentos usuais", substituídos por
Alunos marcantes
Há alguns anos, encontrei no ônibus um ex-professor de Matemática. Eu havia estudado com ele na sexta série do então Primeiro Grau. Ou seja, quase trinta anos antes. Continuava magrinho, usando camisa social lisa, como sempre (um dia apareceu com uma quadriculada, de cores berrantes, foi um espanto). Um pouco mais calvo, o cabelo bem grisalho, os óculos ainda de armação casco-de-tartaruga.