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Acaso, destino e escolha ou o velho dilema entre o casamento e a aquisição da bicicleta
Imaginemos aquela viagem dos sonhos para uma ilha paradisíaca programada para o final de semana. Os mais pés-no-chão não deixariam se envolver tanto pelo idílio tropical e, objetivos por natureza, tratariam de checar a previsão do tempo. Com sol, tudo bem, com chuva: viagem cancelada. Os tô-nem-aí nem de longe pensariam em acessar o site de serviços meteorológicos: a imprevisibilidade dos acontecimentos serve-lhes de motor. Para eles, literalmente, “não tem tempo ruim”; se fizer sol, tomam banho de mar; se cair um temporal, tomam banho de chuva.
Bachelard e a ciência contemporânea
Em fins do século XIX e início do XX, a história das ciências teve uma influência marcadamente positivista. Tal corrente fortaleceu a crença de que através do uso da razão o homem conseguiria dominar completamente a natureza. É inegável que grandes descobertas foram feitas; entretanto, junto a elas, grandes danos sofreu a natureza. Não só danos externos. Internamente viu-se ruir as estruturas do edifício científico; tal abalo foi causado pelas novas teorias científicas que contradiziam o caráter objetivo e incontestável da razão, mostrando que a crença na verdade absoluta e na razão universal tinha seus alicerces fincados em solos movediços.
Claudio Willer
Os poemas e os comentários que aqui vão foram publicados há 42 anos, pela Massao Ohno, editora de São Paulo que desempenhou papel renovador ao privilegiar a poesia e a beleza em suas edições. Anotações para um apocalipse de Claudio Willer, é uma brochura simples (56 páginas no formato 17,5 cm por 12,5 cm) e um livro complexo, um soco no cérebro, uma pancada daquelas que remexe tudo que organizamos, se não for repelida por um sólido elmo dotado de viseira inexpugnável. Composto por Anotações para um apocalipse — poemas e As fronteiras e dimensões do grito — manifesto, tem uma unidade indissolúvel. Também a introdução de Roberto Piva manifesta a mesma essência libertária que as palavras de Willer.
Desigualdade ou emancipação?
Partindo de uma experiência insólita em sua longa carreira de pedagogo, Joseph Jacotot, professor francês do início do século XIX, apercebeu-se de que o processo de aprendizagem pode não consistir naquilo em que o senso comum e a teoria então vigente (e vigente até hoje, temos que reconhecer) haviam consagrado. O que Rancière denomina “aventura intelectual” aconteceu-lhe quando, exilado por motivos políticos nos Países-Baixos, Jacotot ocupava o posto de leitor de literatura francesa em meio período. Ignorando o holandês, o mestre não teria como responder às dúvidas de seus alunos sem que alguma coisa em comum o ligasse a eles como canal de comunicação eficiente o bastante. Esse canal se apresentou sob a forma de um livro – o Telêmaco, em edição bilíngue publicada em Bruxelas. Por meio de um intérprete, ele indicou o livro aos estudantes, recomendando que aprendessem, com o auxílio da tradução, o texto francês.
Cortázar e o texto político
Como autoexilado em Paris e observador da sociedade argentina em particular e da latino-americana em geral, Julio Cortázar desenvolveu um meio próprio de escrever politicamente. Desde a primeira publicação de seus contos, no livro Bestiário (1951), ele já demonstrava sofrer influência da literatura fantástica e extravasar pela escrita sua visão particular do mundo, ao mesmo tempo que declarava suas posições socialistas. Sem fazer política panfletária, pelo menos em textos ficcionais, o argentino nascido em Bruxelas conseguia denunciar ao resto do mundo as desigualdades e atrocidades acontecidas na América Latina, mas também anunciava as esperanças revolucionárias que surgiam.
Pantomimas da expressão e a moderna mirada de Argan
Argan, G. C. Arte Moderna
Gianni Rodari e a fantasia da gramática
Novalis, Fragmentos
A MODERNIDADE E A QUESTÃO SOBRE O SENTIDO DE CULTURA
A modernidade, numa tentativa de definir a sua própria identidade, teve como procedimento a tentativa de retorno às origens. O que é afinal a modernidade? A necessidade de responder a essa pergunta fez com que o retorno aos antigos assumisse tendências valorativas que não podem ser afastadas de características que os próprios modernos já evidenciavam, pois, ao considerar os antigos como um brilhante momento perdido da humanidade, buscava-se alguma característica essencial do homem que, de certa forma, não estava mais presente. A nostalgia desse retorno aponta para a modernidade teimosa do procedimento: resgatar o homem então perdido, trazê-lo de volta a si mesmo, pressupondo-se que seria de fato possível todo esse poder deliberativo, pois o homem já estava então sendo visto a partir de outros fundamentos e poderes: ele pode educar-se e, assim, transformar-se no que ele deve ser.
Quando o "Ensaio sobre a cegueira" torna-se factual
Escrever muitas vezes é uma urgência. Senti-me com a urgência de escrever sobre um assunto recente. Não sei o quanto o assunto poderá não ser dos mais agradáveis. Mas, diga-se de passagem, de coisas fáceis e agradáveis a mídia brasileira e a mundial andam atoladas até o pescoço. Mas existem coisas de uma urgência tão repentina que aproveitar um espaço para publicação torna-se quase uma obrigação, se por obrigação entendermos um velho exercício de cidadania. Então sigamos. Sigamos sem nos perder, sigamos sem nos esquecer. Principalmente do verbo esquecer e do seu vário campo semântico. Esquecíamos uma caneta, esquecíamos a bicicleta, também esquecíamos uma ou outra data de prova de uma matéria não muito amada. Esquece-se o guarda-chuva, esquece-se o celular. Mas não esquecíamos um filho recém-nascido em nosso carro. Até porque o ar-condicionado era coisa de carro luxuoso demais e porque os vidros não recebiam essa película que mais esconde do que revela (incluam-se, também, ladrões, marginais, políticos corruptos etc. etc.). Mas esquecer pequenos seres humanos, minúsculos serezinhos, isso não era comum. E aí a inevitável pergunta de quem ainda acredita no poder, a esta altura quase mítico, da massa cinzenta: o que está acontecendo com as pessoas? Por que, lembrando o atualíssimo Ensaio sobre a cegueira, uma mãe cegou e não conseguiu ver que seu filho, tão recente neste cada vez mais estranho planeta, estava no mesmo objeto (automóvel, no caso), partilhando da mesma existência daqueles trágicos instantes? Há algo de estranho demais no homem contemporâneo. Parece-me, quero acreditar nisso, que estamos derramando pelas paredes de nossos HDs mentais uma quantidade infinita de informações (vitais, aqui no caso) que não pode ser compactada nos mesmos programas e arquivos de outras informações (trabalhar, apagar a luz, girar a chave do carro, escovar os dentes, pagar o porteiro e tudo que o leitor quiser acrescentar). A vida contemporânea não está cabendo na forma contemporânea de viver. Tragédia para uma mãe, sem dúvida alguma. E que tragédia! E tragédia para todos nós, pois quem será a próxima vítima de um modelo de vida que nos vitima de uma maneira ou de outra? Parece que essa vida está com os dias contados. Só gostaria que essa vida falida não se vingasse contando os nossos dias até uma próxima tragédia. Sejamos contemporâneos... mas sem nos esquecer da cegueira. Ou os ensaios tornar-se-ão mais do que livros e filmes.
50 anos de travessuras e brasilidade
Qual brasileiro não conhece, ou pelo menos não viu ou ouviu falar da Mônica, Cebolinha, Cascão ou Magali? Ou do Jotalhão, do Horácio ou do Chico Bento?